Sem a pretensão de enumerarmos todos os erros do presidente norte-americano George W. Bush, que são em demasia, um deles merece análise. Por promover uma mudança sensível na opinião pública mundial sobre um fato violento e estarrecedor, como o atentado terrorista às torres gêmeas do WTC, merece referência e destaque. O atentado foi terrível pela ousadia dos terroristas, a forma como foi praticado, o fato de atingir um ícone de Nova York, cidade considerada capital do mundo e símbolo do poder da nação mais poderosa, causando a morte de milhares de inocentes.

O mundo democrático estarrecido solidarizou-se com o povo norte-americano e seus governos desde logo manifestaram solidariedade e repugnância pelo crime praticado. Não só o mundo democrático, mas também países outros, inclusive muitos de maioria muçulmana, apesar de o ataque ter sido justificado como uma luta do Islã contra os Estados Unidos. A administração George W. Bush apressou-se em desenvolver atividades diplomáticas para constituição de uma frente multinacional contra o terror. Uma frente de apoio moral de outros países, mesmo contra a opinião pública local. Foi o caso do Paquistão.

O passo seguinte foi o ataque ao Afeganistão e ao seu governo talibã, com o pretexto de que aquele país dava guarida à organização terrorista internacional Al Qaeda, liderada pelo árabe Osama Bin Laden, hipoteticamente organizadora e autora do atentado contra o WTC.

Aí, começaram os sucessivos erros de Bush. Não foi capaz de convencer ao mundo que a Al Qaeda e Bin Laden fossem autores do ataque terrorista, apesar de fartos indicativos. Não foi capaz de localizar Bin Laden. O Afeganistão foi arrasado, mas mostrado ao mundo como um país paupérrimo, mais merecedor de pena e ajuda que de bombardeios que atingiram muitos civis. O atrasado e tirânico domínio talibã, revelado ao mundo e derrubado nesta mal explicada guerra, valeu aos EUA alguma indulgência.

Indulgência nenhuma, entretanto, está recebendo da opinião pública mundial quando ou apóia abertamente o governo de direita de Ariel Sharon, de Israel, em suas ações contra o povo palestino, a pretexto de combater atos terroristas. Ou quando, pressionado pelo resto do mundo, inclusive países aliados e toda a Comunidade Européia, oferece frágil e dúbio apoio à proposta de criação de um Estado palestino. Pior ainda quando censura, para agradar Israel, o líder palestino Yasser Arafat, nome respeitado por toda a comunidade árabe, que até já mereceu o Prêmio Nobel da Paz. Ou quando, presidindo um país cristão como os Estados Unidos, não age contra o cerco israelense ao conjunto da Natividade, em Belém, onde nasceu Jesus Cristo.

Agora, surge uma oportunidade de George W. Bush se redimir, uma vez que seus erros transformaram o ataque ao WTC em evento de segunda importância para a opinião pública mundial, diante da violência no Oriente Médio. O partido do primeiro ministro Ariel Sharon, o Likud, de direita, sob a liderança de Benjamin Netanyahu, negou autorização para negociações que levem à criação do Estado Palestino e reconhecimento, pelos países árabes, do Estado de Israel. Plano com o qual até Sharon e os Estados Unidos disseram concordar. É hora de Bush corrigir os efeitos de alguns de seus erros, oferecendo um apoio efetivo e decisivo à criação do Estado Palestino. Senão, estará estimulando a continuidade do terrorismo que em tão larga escala vitimou o seu próprio país.