Os juros não baixarão enquanto a inflação não cair. A sentença é de Henrique Meirelles, presidente do Banco Central, e foi pronunciada em terras espanholas, ao final da Reunião de Governadores de Bancos Centrais da América Latina, realizada em Sevilha, na semana que passou. E se a inflação não cair? Simples: os juros não haverão de baixar.

Fica difícil de romper esse círculo vicioso por causa de uma condicionante solerte: o impacto da inflação inercial. A preocupação com ela é, também segundo o presidente do Banco Central, “pertinente” em terras brasileiras, onde o regime de metas de inflação é relativamente novo e as pessoas costumam tratar dessa questão com “lenidade”. Que isso significa? É como o caso de uma pessoa doente. É preciso tomar todas as medidas necessárias para que a febre baixe. “Não se pode aceitar que a febre seja um fenômeno de convivência permanente.” E Meirelles arremata: “Não há dúvida de que é sempre um risco o estabelecimento da inflação inercial em qualquer país que sofre um choque de oferta e, portanto, um choque de custo”.

Temos daí que o que pressiona os juros é a inflação. Sem acabar com ela de vez (e de suas ameaças) não adianta pressionar os políticos para a queda dos juros. E o que pressiona para cima a inflação no Brasil?

Não é o preço da batatinha. Nem do feijão ou do arroz. Até o bife tem pouca influência nessa queda-de-braço. Dos salários nem se fale. A inflação, já adjetivada de inercial, é causada – todos sabemos – pelos preços controlados ou administrados pelo governo. As contas de luz e de telefone, por exemplo, e o preço dos combustíveis. O preço do gás de cozinha, outro deles, é o campeão de reajustes acima da inflação, com um coeficiente louco na casa dos 500% neste curto período de Plano Real, que não dá um decênio. Outros itens contribuem para pressionar os preços para cima. Sem muito esforço é possível vislumbrar o dedo direto do governo, através de impostos, taxas, pedágios e tributos.

Temos também, então, que a tendência inercial da inflação – ou a inflação real -, que segura os juros nas alturas, tem sido causada mais pelo governo que pelos governados. Logo, o problema apontado pelo presidente do Banco Central não está aqui na planície, mas lá no Planalto.

Vice-presidente de Lula, o empresário José Alencar continua indignado (e quem não está?) com as altas taxas dos juros. É, sem dúvida, a mais dissonante voz na equipe de um governo de muitas dissonâncias. E ele tem razão. Além dos impostos em cascata que perduram na proposta de reforma tributária (o nome não condiz com o conteúdo pífio da proposta) enviada ao Congresso, não se vislumbram horizontes favoráveis à queda da inflação e, por conseqüência, dos juros. Depois dos reajustes das tarifas de energia elétrica, a inércia inflacionária referida por Meirelles está prestes a aplicar outro golpe: a tarifa dos telefones fixos, com reajuste na casa dos 30%. Como dizem os exegetas da roubalheira oficial, “o setor de serviços empresariais não-financeiros exibe grande vigor, em contraste com a marcha lenta de média da economia”, pendurada nos juros exorbitantes, como este do cheque especial, que chega perto de 200% ao ano.

Quem tem que abandonar a “lenidade” com que trata o paciente Brasil com febre, isto é, romper a inércia da inflação, para depois baixar a taxa dos juros, é, pois, o governo. Conclusão da lição do próprio Meirelles em terras espanholas.