O pacote habitacional anunciado pelo governo deve impulsionar a compra de imóveis pela classe média, mas terá pouco efeito no déficit de moradias, calculado em 7,8 milhões de unidades. "Apesar de serem muito boas para a construção civil, as medidas não solucionarão o problema da baixa renda", afirma o diretor-superintendente do Instituto de Orientação às Cooperativas Habitacionais de São Paulo (Inocoop), Richard Moreton Treacher.

Segundo estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV), para reduzir a carência de moradias o País precisaria investir em habitação social cerca de R$ 40 bilhões entre 2007 e 2010, sendo R$ 22,8 bilhões na redução do déficit e R$ 17,9 bilhões em novas moradias. Isso porque se estima que a demanda anual por conta do crescimento vegetativo ficará entre 1,5 milhão e 1,6 milhão de novas moradias.

De acordo com o trabalho, o não atendimento da demanda engrossará as estatísticas de déficit habitacional, seja na componente de inadequação ou coabitação. Nesse sentido, o diretor do Secovi-SP, Fábio Rossi, alerta que em São Paulo, por exemplo, não há nenhum empreendimento voltado para públicos de mais baixa renda. "Não existe mais apartamento popular em São Paulo. É difícil encontrar algum apartamento novo por menos de R$ 80 mil. É que nem carro. Dá para dizer que um carro de R$ 25 mil é popular? Quem supre essa oferta são os imóveis usados. Esse é o segmento mais carente.

Wilson Amaral, da Construtora Gafisa explica que, pelas dificuldades de financiamento para a classe média, as empresas se voltaram para imóveis de alto padrão, cujos compradores não dependem tanto de empréstimos. "À medida que os bancos ampliarem os prazos e melhorarem as taxas, as companhias vão preencher essa lacuna, pois a demanda está reprimida." As construções de dois dormitórios, na casa de R$ 120 mil, já entraram com mais força na carteira das construtoras neste ano. Foram lançados no primeiro semestre 3.706 unidades em São Paulo.

A coordenadora do estudo da FGV, Ana Maria Castelo, é mais otimista. Para ela, o pacote do governo traz alguns avanços para a classe baixa, como o redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) de materiais de construção. "Esse alívio na carga tributária atinge toda população, em especial a de baixa renda.

Mas Treacher, da Inocoop, afirma que as habitações de interesse social, na sua maioria, não usam os materiais de acabamento atingidos pela desoneração, ficando o benefício mais concentrado nos fabricantes e revendedores de materiais para suprimento direto ao consumidor. "Bidê, por exemplo, não é para imóvel popular.

O executivo diz ainda que o crédito consignado dificilmente vai beneficiar as famílias com renda de até cinco salários mínimos mensais, já que a maioria é informal. No entanto trará maior segurança aos bancos credores e beneficiará a classe média com uma redução sutil na taxa de juros, que mesmo assim continuará altíssima.