Nenhuma relação é tão profunda quanto a de pais e filhos. É como se seus inconscientes dialogassem o tempo todo. Pais vêem os filhos como uma segunda existência e filhos vêem os pais como a referência fundamental. E o fruto dessa equação, neurótica por excelência, só poderia ser mais neuroses.

Exemplo clássico: Um pai não sabe expressar sua afetividade em relação ao fillho que manifesta preferência pelo universo feminino. Temeroso quanto à sexualidade do filho, o pai reprova esse comportamento. Ocorre que, quanto mais o pai pontuar essa reprovação, mais o filho irá perceber que isso o perturba. Dá-se início, então, a um pacto inconfessável entre o inconsciente do pai e o inconsciente do filho, o qual, se colocado na forma de diálogo, seria mais ou menos assim: ?Filho, eu tenho muito medo de que você seja homossexual porque esse assunto (sexo) sempre me assustou e eu nunca consegui ter segurança do que realmente me satisfaz. Será que eu não teria sido mais feliz se tivesse sido um homossexual? Sou do tipo machão para que ninguém perceba a minha insegurança. Então tornarei esse assunto obsessivo entre nós para que você possa, quem sabe, realizar a minha fantasia mais secreta?. Ao que o inconsciente do filho responderia: ?Pai, eu não sei porque esse meu jeito delicado o perturba tanto assim, na verdade eu nem mesmo sei o que é sexo. Para mim o que importa é ter a sua atenção, mesmo que seja para ter a sua reprovação. Pai, você promete que se eu continuar assim você vai sempre me dar a sua atenção??. E o inconsciente do pai finalizaria: ?Prometo, filho, até o fim dos meus dias, mesmo que para isso, mais tarde, eu tenha até que lhe rejeitar definitivamente?.

Criar filhos é sempre uma repetição emocional da própria infância, ou seja, é rever velhos e temidos fantasmas. Por essa razão, devemos lutar para aceitar os filhos como eles são, porque isso reconfortará, principalmente, a criança que fomos um dia.

Djalma Filho é advogado – djalma-filho@brturbo.com.br