O governo terá que dobrar fortes interesses políticos se quiser pôr em prática a prometida profissionalização da Eletrobrás, transformando a empresa em uma espécie de "Petrobrás do setor elétrico", conforme anunciado no final do ano. Essa é a avaliação de especialistas e executivos das empresas do grupo, para quem o principal desafio será a despolitização das subsidiárias da estatal, há tempos em mãos de caciques regionais.

"Dificilmente os líderes regionais vão abrir mão de ter as empresas sob sua influência", diz um executivo de alto escalão de uma das empresas do grupo, resumindo o pensamento da maioria dos entrevistados pelo Estado.

A Eletrobrás tem pelo menos 13 empresas controladas ou coligadas contando apenas as de maior relevância, com cargos que representam importante moeda de troca na incessante luta dos governos por apoio no Congresso. Algumas delas já se tornaram "feudos" de grupos políticos regionais, apontam alguns observadores.

As fontes indicam a Eletronorte como exemplo mais marcante. A empresa, que atua nos Estados da região Norte, sofre forte influência de correntes do PMDB ligadas ao ex-presidente José Sarney, do Maranhão, e ao deputado federal Jáder Barbalho, do Pará. A indicação do presidente depende de qual dos dois está mais próximo do poder em determinado momento, mas ambos sempre conseguem nomear aliados na direção das companhias.

A Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf), que atua na região Nordeste, é outro exemplo. A empresa está sob influência do grupo do ex-governador Miguel Arraes (PSB), falecido em agosto do ano passado.

Hoje, a batuta está nas mãos de seu neto, Eduardo Campos, recém-eleito governador de Pernambuco. Quatro dos cinco representantes da diretoria da empresa, apesar de funcionários de carreira, já tiveram passagem por secretarias, autarquias ou empresas do governo pernambucano.

Exemplos podem ser pinçados em cada empresa do grupo: Furnas, por exemplo, é da cota do PMDB mineiro, que indicou o atual presidente, José Pedro Rodrigues de Oliveira. A Eletronuclear, que opera as usinas nucleares de Angra dos Reis, esteve no centro dos escândalos de corrupção em 2004 devido a suspeitas sobre a atuação de executivos indicados pelo presidente do PTB, Roberto Jefferson, pivô da crise do mensalão. A Lightpar, empresa que controla a falida Eletronet, braço do grupo no segmento de transmissão de dados, é presidida por Rogério Silva, ligado à ex-prefeita de São Paulo Marta Suplicy, do PT.

Ineficiência

É consenso no mercado que tantos interesses só prejudicam a operação do grupo Eletrobrás, uma vez que as subsidiárias, em muitos casos, buscam caminhos diferentes ou até concorrem entre si. Quando assumiu a presidência da estatal, em 2003, o físico Luiz Pinguelli Rosa criou o Conselho dos Presidentes do Grupo Eletrobrás (Concise), com o intuito de centralizar a gestão de todas as empresas do grupo. Em entrevista concedida ao Estado há um mês, Pinguelli concordou que a empresa deveria ser despartidarizada, caso o governo queira uma operação eficiente.

O assunto ganha importância à medida em que o País caminha para um cenário de escassez de energia, segundo a maior parte das projeções, e grandes investimentos precisam ser destravados. O que o governo pretende, então, é incluir a estatal nos chamados projetos estruturantes do setor elétrico – grandes usinas que têm de ser construídas nos próximos anos, como as usinas Jirau e Santo Antônio, no Rio Madeira, e Belo Monte, no Pará. "O modelo atual é muito ineficaz e pode dificultar a atração de sócios privados para os projetos", diz um executivo com acesso ao alto escalão da Eletrobrás.

Mas há quem sugira soluções mais simples, como a centralização decisória, com enxugamento dos quadros das subsidiárias, e o fortalecimento da holding como empresa de participações. "A Eletrobrás funciona bem como gestora de ativos. Ganharia muito mais se atuasse emprestando dinheiro a terceiros, entrando em projetos para viabilizá-los e depois vendendo a participação no mercado", propõe o professor Afonso Henriques, da Universidade Federal de Itajubá, que ocupou a secretaria-executiva do Ministério de Minas e Energia (MME) no governo Fernando Henrique Cardoso.

Atualmente, a holding funciona como uma espécie de banco, emprestando recursos a empresas do setor. A parte operacional fica por conta das subsidiárias.