“A América nasceu bebendo mate”, diz a lapidar frase de abertura do livro “História Econômica do Mate”, obra prima de Temístocles Linhares, que está para o chamado ciclo do mate como “Os Sertões” para o episódio de Canudos e “Casa Grande e Senzala” para a compreensão da sociologia brasileira. Temístocles foi mestre tão relevante em seu ofício, que a lendária Universidade de Coimbra prestou-lhe, talvez, a mais justa homenagem que um intelectual desse porte tenha recebido. Entre 1965 e 1967 ele lá esteve como professor de Literatura Brasileira e História do Brasil.

Voltando ao mate, a popular erva do Paraguai, esclarece o professor que muito tempo antes da chegada dos espanhóis a esta parte do mundo, o vegetal era conhecido como alimento básico dos guaranis, cuja nação “se espalhava pelo vasto território banhado, sobretudo, pelos rios Paraná, Uruguai e Paraguai”. É certo que tribos de lugares onde a planta não se desenvolveu, a obtinham mediante trocas e a transportavam por milhares de quilômetros na direção da Bolívia, Peru e Chile.

Quando o conquistador europeu chegou à Lima, por exemplo, percebeu rapidamente o uso intensivo da erva mate entre os nativos, hábito logo assimilado pelos civilizados que o transformaram numa espécie “de vício elegante”, ao qual nem sequer as mulheres e as damas da Corte que se instaurou ali se tornaram infensas, como comenta Temístocles.

Todavia, o primeiro comentarista a dar notícia da amplitude dos ervais nativos, plantados como autêntica dádiva divina num extenso território, foi o jesuíta Antonio Ruiz de Montoya, nascido em Lima e admitido pela Companhia em 1606. Destacado para o Paraguai, seu superior resolveu enviá-lo para o trabalho apostólico na região de Guaíra, iniciado em 1610 pelos missionários italianos José Cataldino e Simão Masseta, com a implantação da primeira redução a que deram o nome de Loreto. Mesmo que não se possa afirmar com certeza, foi em 1612 ou no ano seguinte que Montoya chegou ao local dos magníficos saltos que se formavam nos íngremes desfiladeiros invadidos violentamente pelas águas do rio Paraná, mais tarde batizados de Sete Quedas.

Em 1639, foi publicado em Madri o livro “Conquista espiritual” que resultou da experiência de Montoya na condução do extraordinário experimento cristão e civilizatório das Missões. É nesse relato que aparecem as referências à erva do Paraguai, cujos bosques infindáveis ocupavam manchas de “duas, três ou mais léguas de comprimento e largura”. O jesuíta descreveu também o processo rudimentar de beneficiamento da erva para consumo humano. Os índios colocavam os galhos “numa espécie de grelha e a fogo lento as sapecam ou tostam”. Sobre as propriedades da erva disse pouco (essa função ficou para Demersay, Bonpland e Saint-Hilaire entre outros), mas o que escreveu basta: “Os efeitos, que em geral contam a propósito desta erva, vêm a ser que ela os alenta ao trabalho e lhes serve de sustento. De fato é assim que o vemos cada dia, sendo que um índio há de remar o dia todo, sem outro alimento qualquer que o de beber, de três em três horas, a erva. (…) Nisso a erva parece a alguns semelhar-se ou ser a mesma erva da China, chamada chá, que tira o sono. Nem ainda o nome desmente muito isso, porque na língua dos naturais se chama caa”. O uso da erva mate em rituais de feitiçaria levou o padre a compará-la à “erva do Peru que chamam coca”.

Na produtiva viagem que fez ao Brasil em 1820, o naturalista Saint-Hilaire veio a conhecer a erva mate na fazenda Borda do Campo, situada nas proximidades de Curitiba, ele que já havia se extasiado com a espetacular profusão de araucárias dos Campos Gerais. No relatório de observações científicas apresentado à Academia de Ciências do Instituto de França, Saint-Hilaire sugeriu a classificação botânica da planta, propondo a designação até hoje aceita pelo mundo científico de Ilex paraguariensis, apesar das demais sugestões posteriormente ventiladas.

Muitos anos depois da expulsão dos jesuítas da América do Sul, a exploração econômica da erva mate, que eles iniciaram, prosseguiu com o aperfeiçoamento dos métodos que os missionários introduziram entre os silvícolas. O próprio Saint-Hilaire anotou o grande afluxo de compradores de mate no porto de Paranaguá, oriundos de Montevidéu e Buenos Aires. O Paraná e Santa Catarina tornaram-se grandes exportadores do produto para o promissor mercado do Prata, até que plantadores argentinos passassem a implantar com grande sucesso extensos ervais na província de Misiones.

Já em 1859, poucos anos depois da emancipação política do Paraná, falava-se que o mate estava em crise. Em pouco tempo o preço da arroba caíra de 6$000 para a cifra ridícula de 1$600, segundo o Dezenove de Dezembro, citado por Temístocles Linhares. Houve também a concorrência do Paraguai, que em busca de recursos para financiar a militarização, exportava sua produção a preços bastante inferiores aos brasileiros.

Com o término da Guerra do Paraguai e a conseqüente demarcação da fronteira entre o Brasil e seu vizinho recém-derrotado, Tomás Laranjeira, fornecedor da expedição que realizava o trabalho, descobriu enormes ervais nativos no sul de Mato Grosso e resolveu explorá-los comercialmente. Ele constituiu a Companhia Mate Laranjeira com dinheiro emprestado por instituições bancárias e recebeu o monopólio da exploração pelo decreto 436 C, de 4 de julho de 1891. Conforme Temístocles “qual nova terra prometida, a região atraiu outras levas, que se localizaram entre Bela Vista e Ponta Porá, então em incipiente fase de desenvolvimento”.

A companhia, que explorava um quadrilátero de 1,6 mil léguas de florestas onde se escondiam os ervais, ou “minas” como se dizia no linguajar caboclo, sempre conseguia ampliar a área dada a facilidade de seu trato com os governantes. Logo chegou a produzir 180 mil arrobas de erva por ano, sendo que todo esse volume passou a ser beneficiado em estabelecimento próprio localizado em Buenos Aires. A Mate Laranjeira expandiu-se ainda mais com a revolução de 1893 que paralisou o comércio e exportação de erva no Rio Grande, Paraná e Santa Catarina. Contudo o monopólio passou a ser violentamente criticado e a companhia acusada de tornar-se um estado dentro de outro.

O deputado Brandão Júnior, engenheiro militar que conhecia bem a região, adversário do monopólio, dizia que poucos estavam forjando invejável fortuna “com o sacrifício metódico de milhares de homens”. A exploração da mão de obra era feita no regime de semi-escravidão e não mudou nem com a queda do monopólio em 1915. Um entreposto exportador da companhia funcionou durante muitos anos na cidade de Guaíra, até que o tradicional mercado importador perdeu o interesse pelo mate brasileiro.

Outro golpe fulminante sobre esse importante ciclo econômico veio com a decisão dos governos do Uruguai e Argentina, que concederam a empresários locais a prerrogativa de beneficiar o produto nos respectivos territórios por 25 anos importando matéria-prima livre de quaisquer direitos alfandegários.

A conclusão de Temístocles foi a seguinte: “No Paraná, principal centro industrial de mate no Brasil, é que ela repercutia mais fundo e célere. De resto, o mate significava tudo para a província e sua economia. Era, portanto, natural que a ressonância do gesto argentino se tingisse em seu seio das cores mais carregadas, imaginando-se logo tudo quanto de mais dramático pudesse ocorrer: as fábricas paralisando as suas atividades e centenares de operários e empregados dispensados”.

Anos mais tarde o Paraná viveria, ainda, a fecunda experiência da cafeicultura, até que a mesma fosse substituída pela monocultura da soja ou pela pecuária.

Ivan Schmidt

é jornalista e escritor.