Os mais pobres respondem
por 80% da reciclagem.

Um curitibano produz em média 800 gramas de lixo diariamente. A maior parte desses resíduos é coletada pelo município. Mas existem aqueles cidadãos que jogam restos de produtos e embalagens nas ruas -nem sempre capturados pelo sistema de coleta de lixo -e nos rios. A irresponsabilidade de alguns gera um grande problema ambiental, que atinge todos os moradores da cidade.

O professor mestrando em Gestão Urbana e diretor do curso de Engenharia Ambiental da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Carlos Mello Garcias, explica que a poluição nos rios acontece de duas maneiras: a direta, quando a pessoa propositadamente joga o lixo na água, e a indireta, quando todo material que não foi varrido ou coletado cai nas galerias, que desembocam no rio. “A maioria das vezes ocorre da forma indireta. Ninguém imagina que, ao jogar lixo na rua, ele vai acabar parando no rio, mas é exatamente isso o que acontece”, afirma.

Aqueles que jogam lixo nos rios diretamente, pensam que as águas vão dar um jeito no resíduo, pois ele some da visão dos infratores. “Já presenciei várias pessoas lançando sacos de cima de uma ponte. Algumas, inclusive, com poder aquisitivo. Elas não se dão conta sobre a gravidade da atitude ou tem isso como uma tradição. Acreditam que a água leva tudo”, conta o professor.

Muito lixo é encontrado nas águas fluviais próximas às favelas, mas estas não são as culpadas pela poluição, segundo Garcias. “Então a favela não seria favela, pois encontramos lixo de produtos que não são consumidos nestes locais. As favelas são vítimas do processo porque, antes de ela ser formada, o rio já estava morto”, opina. Além disso, são essas pessoas menos favorecidas as responsáveis por 80% da reciclagem realizada atualmente, com a venda de papéis e latas de alumínio achados nas ruas e em latas de lixo, mesmo que não saibam exatamente disso.

Para Garcias, um dos grandes problemas é a aceitação por parte da população em conviver com o lixo. “Mesmo com o melhor sistema, sempre haverá material que vai para as galerias. Não há sistema tecnológico existente que vença a falta de participação da sociedade”, avalia o professor. “É preciso observar cada cidadão e cada partícula de lixo. A responsabilidade social se dá pelo respeito a você, aos outros e ao meio. As pessoas precisam guardá-lo até encontrar uma lixeira. A atitude simples faz com que um simples papel de bala não pare no rio.”

Acúmulo

O lixo jogado constantemente em rios ou córregos se acumulam até não permitir o fluxo para locais onde são canalizados, resultando em enchentes. Exposto ao ar, atrai inúmeros insetos e animais que passam a fazer o papel de vetores de doenças, como cólera, diarréias, peste bubônica, febre tifóide, hantavirose e dengue, entre outras. A concentração de resíduos pode contaminar o solo e, nos dias de chuva, levá-los para o lençol freático, prejudicando a qualidade do abastecimento de água para a população.

Reciclagem depende de atitude

A simples atitude de separar o lixo reciclável e o orgânico pode contribuir para a diminuição dos resíduos nas ruas, nos rios e também nos aterros sanitários. Muita gente diz que separa os recicláveis, mas a quantidade poderia ser ainda maior. Estima-se que o Brasil produza diariamente 100 mil toneladas de lixo por dia. Cerca de 35% do material do lixo coletado poderia ser reciclado ou reutilizados e outros 35% transformados em adubo orgânico. Curitiba é a cidade brasileira com maior índice de separação do lixo: 20% do que é coletado. Isso se deve muito à implantação do programa Lixo que Não é Lixo, há 15 anos.

O economista João Armando diz que, em sua casa, o lixo é separado diariamente e deixado para o caminhão especial do sistema de coleta. A funcionária pública Maria Aparecida Kuroski diz que as embalagens e produtos destinados à reciclagem têm prioridade em sua casa. A separação é feita sempre e o lixo aproveitável fica em latões diferentes do material orgânico. A técnica de enfermagem Vera Moreira conta que a procura e separação de lixo para reciclagem acontece em todos os apartamentos do prédio onde mora. “Todo esse lixo é vendido e o dinheiro é aplicado dentro do condomínio. Não é muito, mas serve para alguma coisa”, comenta. Ela afirma que ensina a filha, desde cedo, a prestar atenção no lixo: “Quando andamos na rua e ela come alguma coisa, sempre dá o papel para mim. Quando dá, jogo na lixeira”.

Para a gerente de Educação Ambiental da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Rosana Campanholo, a população desaprende muito rápido sobre a importância de dar o destino correto aos resíduos: “A consciência ambiental é muito importante não só para evitar o lixo nas ruas ou nos rios, mas também para estimular a separação. O ideal seria produzir menos lixo, o que diminuiria o acúmulo no aterro sanitário. Isso também pode acontecer se os habitantes da cidade separam o que é reciclável ou pode ser reaproveitado”, observa. De acordo com ela, as pessoas educadas ambientalmente não retornam aos maus hábitos. Elas automaticamente se vêem separando o lixo.

Rosana conta que as pessoas têm mais cuidado quando estão em um ambiente limpo, ficando constrangidas em praticar o ato errôneo de jogar os resíduos no chão. Quando o cenário é totalmente diferente, com muita sujeira, não estimam o lugar da mesma maneira. “Elas pensam que já está sujo e jogar mais lixo não vai fazer diferença”, afirma. “O ser humano erra porque não tem consciência de seus erros.”

A educação ambiental é essencial para o despertar da população, e deve ser feita o quanto antes para atingir o maior número de pessoas possível. “Não podemos somente investir nas crianças e esperar o futuro chegar. São questões emergentes que estão acontecendo neste momento. Os mais novos são mais receptivos, mas todas as pessoas, em qualquer idade, podem ser educadas”, diz a gerente. “É necessário mostrar para todos que o rio tem limites, que o lixo demora para se decompor, e que isto atrai doenças. Os cidadãos passam a ter atitudes quando se mostra como isso pode atingi-los.”

Alfabetização

O professor em Gestão Urbana da PUC, Carlos Mello Garcias, defende a aplicação da alfabetização ambiental a fim de mudar todos os conceitos em relação ao tema. “Os conceitos utilizados no momento da alfabetização viram conceitos de vida. Isso pode levar a verdade ambiental e social para as pessoas”, acredita. Quanto aos adultos, Garcias classifica a multa como a única forma de conscientização. “Somente mexendo no bolso as coisas funcionam com os mais velhos. Nos países mais desenvolvidos, as pessoas já têm o sentido de não jogar lixo na rua porque sabem que logo atrás vem um fiscal para multar”, finaliza o professor. (JC)