Pouco mais de três anos já se passaram desde que o menino Vrajamany Fernandes Rocha teve o braço arrancado por um tigre em Cascavel, no oeste do Paraná, e o caso ainda não foi encerrado. O processo está na fase de instruções e uma audiência foi realizada nesta semana. Várias pessoas falam nesta etapa, incluindo testemunhas, provavelmente o delegado que acompanhou as investigações, a vítima e o pai, Marcos do Carmo Rocha, que é réu na ação.

O homem responde por lesão corporal grave por debilidade permanente de membro ou função, “quando a maior punição possível ele já teve, que é o que o filho sofreu”, enfatiza o advogado dele, Yvan Gomes Miguel. “Qual pai quer isso para o filho? Nenhum. Foi um terrível acidente”.

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Marcos é acusado de ser o responsável pelo acidente por supostamente estimular o filho a ultrapassar a barreira de contenção da jaula dos tigres e a colocar o braço dentro do espaço dos felinos para acariciar os animais. Pesa contra ele na denúncia o fato de algumas pessoas terem avisado que era perigoso e até mesmo filmado o momento do ataque. Por outro lado, brincar com bichos sempre foi algo comum na família de Vrajamany e, por isso, ele não teve medo.

Três anos depois

Vrajamany cresceu e hoje tem 14 anos de idade. No perfil do menino no Facebook, ele aparece rodeado de amigos e até com uma namorada. No lugar do braço direito, a prótese colorida personalizada que faz dele diferente e, ao mesmo, tempo normal: é possível ver fotos e mais fotos dele com e sem boné, rindo, fazendo caretas, na escola, no shopping e com a turma.

O pai

“Foi tudo muito doloroso e muito rápido. Às vezes eu paro pra pensar e não lembro direito como tudo aconteceu”, conta Marcos. Ele foi hostilizado por muita gente, o que só fez aumentar a culpa que já sentia e ainda sente. “É só pensar: óbvio que eu não queria isso. Óbvio que eu não imaginava uma tragédia como essa”.

Vrajamany afirmou, em diferentes ocasiões, que antes mesmo de chegar ao hospital, enquanto ainda estava na ambulância, já sabia que perderia o braço. Mesmo assim, ele não se preocupou em cobrar responsabilidades. Não culpou o pai e ainda pediu publicamente que nada fosse feito com o tigre que acabou mudando a sua vida para sempre.

Questionado sobre como ficou a relação entre pai e filho e com a ex-mulher, mãe de Vrajamany, Marcos afirma que está tudo bem. “Todo mundo entendeu que não foi algo proposital. Era pra ser um dia de diversão, eu sempre fui muito próximo do Vraja”.

O homem explica que foi ele quem cuidou do menino durante a primeira infância. “Eu ainda era casado com a mãe e ela trabalhava, então era tudo comigo: trocar fralda, dar comida, ajudar a dar os primeiros passos e ouvir as primeiras palavras. Eu tenho com o Vraja uma ligação tão forte que é até difícil descrever”.

E se…

A voz embargada hesita, mas finalmente sai. “Se eu pudesse… se existisse algum tipo transplante de braço eu nem pensava. Diria: pode tirar de mim e colocar nele, faz isso por favor”, desabafa Marcos. “Não dá pra voltar no tempo, mas tudo o que eu queria era ver meu filho inteiro de novo”.

Relembre

Vrajamany mora em São Paulo (SP) com a mãe, o padrasto e um meio irmão. Marcos também vive na capital paulista, mas em um bairro diferente.

Em julho de 2014, o menino – então com 11 anos – veio com Marcos ao Paraná para visitar outro irmão, o caçula por parte de pai. No dia 30, os três foram Zoológico de Cascavel.

Foi lá que, ao passar o braço direito pela grade, ele foi atacado pelo tigre de mais de 200 quilos. Depois da amputação, Vrajamany ainda ficou internado por uma semana.
E agora?
O último a ser ouvido na fase de instruções é o réu. O depoimento dele deve ser colhido via carta precatória, já que o processo não corre na mesma região em que Marcos vive. A etapa seguinte, conforme o advogado, consiste nas diligências das partes, caso ainda sejam necessárias, depois vêm os memoriais ou alegações finais, quando defesa e acusação se manifestam pela última vez, e a sentença do juiz.