As universidades brasileiras estão abrindo portas para os professores estrangeiros. Na maioria das vezes, eles vêm para cá para realizar pesquisas. Além de ajudar na construção da ciência no País, esses profissionais auxiliam na formação de muitos estudantes. Mas nem tudo é um mar de rosas: os professores de outros países também enfrentam a burocracia e as dificuldades de não se ter recursos e equipamentos necessários para realizar um bom trabalho.

O russo Vsévolod Mymrine está há três anos como professor visitante no departamento de Engenharia Química da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Durante esse período que está no Brasil, o professor constatou que a burocracia é o maior empecilho que precisa enfrentar. Mymrine demora de três a quatro meses para conseguir a renovação de seu visto de permanência no País, processo que deve fazer a cada ano. "Tudo é muito burocrático. Meu visto já está vencendo e ainda não sei se vou poder ficar. Aqui as coisas são muito arriscadas. Parece que tudo vai se salvar nos último momento. A desorganização foi um choque muito grande para mim. No Brasil, é tudo mais ou menos. Nada é certo", afirma.

Mymrine também ficou impressionado, de maneira negativa, sobre o sistema educacional brasileiro. "No Brasil, não existe diferença entre professor e pesquisador. A ciência é mais importante na Rússia. O nível de educação é incomparável. O nível básico da população e dos professores é muito mais alto na Rússia", opina.

O russo Vladimir Poliakov é professor visitante da UFPR há cinco anos e atua na área de físico-químico de materiais. A grande desvantagem que ele notou assim que entrou na instituição foi a falta de equipamentos tecnológicos. Ele perdeu dois anos para encontrar um direcionamento para seu trabalho frente a essa situação. Além da escassez de estrutura, Poliakov também precisa lidar com a burocracia de renovar seu convênio para permanecer na universidade. "O professor visitante tem que assinar um contrato novo todo ano. Isso gera estresse. Também tem uma lei que deixa o professor ficar por quatro anos. Depois desse período, ele precisa ir embora e ficar fora dois anos para poder voltar. Essa é uma lei contra a ciência e a tecnologia. Quatro anos não são nada para fazer um trabalho sério", avalia.

Poliakov explica que o professor visitante tem carga de aulas e outros trabalhos, mas não recebe remuneração adicional de 50% como os outros professores. Ele ainda informa que o salário dele permanece o mesmo desde que entrou na UFPR. "Há dificuldades em qualquer país em que se quer trabalhar. Mas o Brasil é um país excelente. Já quase sou um brasileiro", comenta.

Para latinos, adaptação é rápida

O cubano Jose Rodriguez Leon, professor de Biotecnologia, está encerrando seu ciclo dentro da Federal. Depois de passar um ano pesquisando a utilização de enzimas na produção animal, ele está voltando para Cuba. O ingresso na UFPR aconteceu após contatos com professores e a inscrição em um programa do Conselho Nacional de Ensino e Pesquisa (CNPq), no qual seu projeto foi aprovado.

Para ele, não houve dificuldades em sua estadia no Brasil. Ele ressalta que a semelhança do povo brasileiro com o cubano foi o que mais causou impacto quando chegou aqui. "Foi muito fácil se adaptar. Bem mais do que as minhas passagens por outros países, como a França. Não tive tempo para ver algo que me decepcionasse. Na balança, deu positivo. Fico muito feliz por ter feito parte de Curitiba", revela Leon.

A adaptação também foi fácil para o professor de Engenharia Mecânica, José Antonio Velasquez, peruano naturalizado brasileiro. Ele dá aulas no Cefet e na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Ele saiu do Peru com 18 anos para estudar engenharia na Rússia. Após se formar, resolveu vir para o Brasil para se juntar com outros familiares que estavam por aqui. "Quem passou pela Rússia se adapta facilmente no Brasil".

Em 1993, veio para Curitiba a convite do Cefet e, cinco anos depois, foi para a PUCPR. "Algumas universidades dão mais condições de trabalho do que outras. No começo do Cefet, enfrentei algumas dificuldades porque a instituição estava começando a criar uma tradição para a pesquisa, o que foi um agradável desafio para mim. Quando comecei na PUC foi diferente. Houve um investimento grande para que se tornasse uma universidade de primeira linha. Poucos no Brasil tem essa estrutura", esclarece. Por estar estabilizado em Curitiba, Velasquez não pensa em voltar para o Peru. (JC)