Foto: Átila Alberti/O Estado
Congestionamento na Avenida Visconde de Guarapuava é comum.

Curitiba cresceu. E, com o aumento da população, a frota de veículos na cidade cresceu proporcionalmente. Para se ter uma noção do reflexo no trânsito, hoje existem cerca de 1 milhão de veículos e, se todos saíssem ao mesmo tempo pelas ruas da cidade, o caos seria inevitável. Enquanto a Prefeitura Municipal estuda e implementa o planejamento urbano para descongestionar o sistema, as autoridades se aplicam para tornar a situação mais civilizada. Por isso, a Semana do Trânsito começa amanhã com uma campanha importante nas ruas.

Na semana passada, o Diretran lançou a primeira fase da campanha direcionada ao comportamento dos motoristas. A primeira fase que vai até dezembro é direcionada a mudanças de comportamento no trânsito. ?A intenção é resgatar atitudes cordiais. O curitibano tem fama de ser um sujeito educado, mas quando entra no carro se transforma. Queremos que a educação se transfira também para as atitudes no trânsito?, diz Maura Moro, chefe do núcleo de educação e cidadania da Diretran.

Sob o tema Qualidade de vida começa na rua, quatro palavras formam o mote da campanha: respeito, atenção, gentileza e calma. Elas foram aplicadas no perfil de carros, ônibus e motos, sobre fundos coloridos para chamar a atenção dos motoristas. ?Em um primeiro momento, distribuímos um material para os agentes de trânsito. Eles são nossos multiplicadores?, diz Maura. Os motoristas receberão panfletos educativos e, em todas as partes da cidade, visualizarão a campanha em ônibus e outdoors. ?Na televisão, a campanha também já está sendo veiculada, para que de alguma forma atinja o nosso foco?, diz Maura.

Segundo ela, a idéia é resgatar atitudes simples que podem evitar danos materiais e perdas de vida. ?O trânsito tem uma cultura egocêntrica. A pessoa entra no carro e esquece dos outros?, diz. Atitudes essas como, por exemplo, dar passagem a um carro que está sinalizando com o pisca, o que em Curitiba não é muito comum. Basta tentar trocar de pista em uma via movimentada para constatar que, só depois de muito esforço, o objetivo é alcançado. ?É essa gentileza que queremos resgatar. O que custa deixar um outro veículo passar na frente? Serão apenas alguns segundos?.

Para a Diretran, a falta de gentileza está diretamente ligada ao estresse do dia-a-dia. Com o aumento da frota, o trânsito fica naturalmente mais lento e tira muito motorista do sério, pois ninguém acha agradável passar muito tempo dentro de um carro parado em meio a engarrafamentos. ?É um efeito dominó. Com o aumento da frota, aumenta o número de motoristas, o trânsito fica mais devagar e as pessoas mais estressadas?.

Para amenizar o efeito da imensa frota nas ruas, Maura defende a idéia de tirar parte dos automóveis das ruas, com maior utilização de veículos alternativos, como coletivos e bicicletas. ?As pessoas também podem combinar caronas, o que torna o enfrentamento dos congestionamentos ainda mais fácil?.

A campanha liderada pela Prefeitura será permanente e em uma segunda etapa vai atingir outro mote: os pedestres. ?A gente cobra dos motoristas, mas o pedestre muitas vezes tem culpa nos acidentes. Ele também tem que estar atento?. Mas essa parte da campanha só entra nas ruas no ano que vem.

Número de mortes no trânsito é assustador

Foto: Arquivo/O Estado

Comportamento dos motoristas influencia nos acidentes.

Os dados divulgados pelo Detran-PR de mortes no trânsito são assustadores. E com o aumento da frota, tende a aumentar. A média aponta para 80 mortes no trânsito todos os dias no Brasil e 1.000 feridos. Em um ano, 1 milhão e meio de acidentes acontecem no País, com 34 mil mortes. Em Curitiba, a média de acidentes é de 35 ao dia e só em 2005, foram 1.666 mortes no Paraná motivadas por acidentes de trânsito.

Segundo Maria Helena Mattos, coordenadora de Educação no Trânsito do Detran-PR, a maioria dos acidentes é motivada pelo comportamento dos motoristas, que começa pela falta de manutenção dos veículos e termina na imprudência.

?O trânsito favorece o anonimato e isso torna as pessoas menos gentis, mais agressivas. Isso mascara a percepção de harmonia?, diz.

Por isso, por mais rigorosos que sejam os exames do Detran – que causam muitas reclamações dos reprovados, nem sempre o que se aprende se aplica ao trânsito.

?Os motoristas passam nos exames, mas depois não aplicam o que aprenderam. A maior causa dos acidentes acontece porque apesar de conhecer as normas, os motoristas imprudentes não as respeitam?.

O rigor nos exames de habilitação são verificados com a análise dos números. Nos testes práticos, metade das pessoas reprovam, mostrando que o Detran tenta, na medida do possível, só liberar para o trânsito pessoas realmente capacitadas.

?E mesmo assim já há problemas, porque quando o assunto é trânsito, não basta aprender. O comportamento e a personalidade do motorista é que vão determinar a qualidade da condução?.

Apesar dessa constatação, o cuidado com a formação dos novos motoristas é grande. Os ensinamentos são ministrados pelos centros de formação de condutores, que repassam as regras determinadas pelo Denatran. ?Nós fazemos uma fiscalização rigorosa para ter certeza que os ensinamentos estão chegando aos futuros motoristas?.

Depois de freqüentarem o curso, chega a hora dos exames psicotécnico, teórico e prático. ?Muitas pessoas reclamam do rigor, mas é importante esse tipo de controle?, explica Maria Helena. Controle que está cada vez mais rígido, pois hoje até noções de primeiros-socorros são repassadas aos motoristas. ?Vamos até onde podemos, mas a partir do momento em que a pessoa está habilitada, a grande responsabilidade passa a ser dele?. Por isso, é o comportamento de cada um que vai determinar a segurança e a qualidade do trânsito.