A maneira como o Paraná foi colonizado faz com que ele encontre dificuldades para obter uma unidade. Segundo o professor de História do UnicenP, Geraldo Luiz da Silva, a colonização paranaense gerou três “Paranás”.

O primeiro movimento de ocupação aconteceu nos séculos XVII e XVIII, no litoral e região Leste, iniciada pelos bandeirantes paulistas. Baseada no plantio de café surgiu a ocupação das regiões Norte e Nordeste, que são mais recentes. O Oeste e o Sudoeste do Paraná foram colonizados por pessoas vindas do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina.

Silva destacou que o Estado, por exemplo, dificilmente forma grandes lideranças políticas. Ele cita como expoente dessa área Ney Braga: “Euclides Scalco e José Richa são lideranças nacionais respeitadas, mas principalmente dentro de seus partidos. Jaime Lerner é bem visto fora do Paraná, mas como técnico e urbanista, menos como político”. Para ele, sempre existiu uma autofagia no Estado, que impede que outras lideranças despontem: “As pessoas não esquecem as divergências internas, ao contrário do que acontece em outros estados”.

O professor também usa o futebol para exemplificar a existência dos três “Paranás”. Enquanto no Leste do Estado as pessoas torcem para os clubes de Curitiba (Atlético, Coritiba e Paraná), mais ao Norte os torcedores são fãs dos clubes de São Paulo (Santos, São Paulo, Corinthians e Palmeiras) e os do Sudoeste torcem para os do Rio Grande do Sul (Grêmio e Internacional).

O professor lembrou ainda que é difícil encontrar elementos típicos da cultura paranaense. “Uma exceção é o fandango, uma manifestação onde se percebe muita coisa misturada de várias culturas. Em outros casos, as culturas aparecem de maneira diversificada, mas sem se fundirem, guardando muito a tradição dos países de onde vieram”, afirmou. Ele observa que o povo paranaense é formado por uma grande diversidade de povos, obrigados a vir da Europa pelas mudanças que o continente passou no século XIX. “Eles vieram para cá fazer a América, mas não podemos esquecer do negro e do índio”, completou.

Italianos são 3 milhões no Estado

No Paraná existem 3 milhões de descendentes de italianos. A cultura e as tradições da Itália ainda estão muito vivas no Estado. A história da imigração começou em 1820, quando artistas italianos acompanharam a esposa de Dom Pedro I, Teresa Cristina, que era italiana, na vinda do monarca ao Brasil.

Mas esse grupo era pequeno. Outra leva, dessa vez maior, formada basicamente por anarquistas italianos, aportou no Brasil em 1830, dando suporte à Revolução Farroupilha de 1834. A grande imigração italiana para o Brasil começou em 1870, em virtude principalmente das dificuldades econômicas que os camponeses tinham na Europa.

Segundo o diretor de Relações Internacionais do Centro di Cultura Italiana Paraná/Santa Catarina, Luigi Barindelli, parte desses italianos vieram para substituir a mão-de-obra escrava. Como a escravatura estava por se encerrar, os imigrantes faziam esse trabalho e cobravam, mas eram preços considerados irrisórios. Esse grupo se concentrou na região de São Paulo.

Por sua vez, os que vieram para o Sul queriam cultivar: “Eles vinham para cá a convite do imperador, tinham que plantar e pagar a terra que recebiam em cinco anos, com o que produziam”, revelou. A primeira grande leva de italianos para o Paraná veio em 1853. Em 1875 foram formados grupamentos italianos como a Colônia Orleans, Santa Cândida e Alexandra. Em 1877 foi fundada Morretes.

Barindelli lembra que os italianos contribuíram muito para o desenvolvimento do Brasil: entre 1890 e 1910 existiam mais de 400 escolas italianas no País e, dos 50 bancos existentes, 40 foram criados por italianos. “Quase 80% dos jornais também tinham origem italiana”, acrescentou.

Heranças

Segundo a coordenadora-geral do Centro Cultural, Conceição Barindelli, a tradição familiar, a religião católica e a vocação para o trabalho são heranças deixadas aos paranaenses e brasileiros pelos italianos. No Brasil existem hoje 25 milhões de “oriundi”, cerca de 14% da população, responsáveis por 25% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. A alimentação com massas, frango e molhos vermelhos também é originária da Itália. “Hoje ainda existe um pouco de imigração, mas os italianos que vêm para cá descobriram o Nordeste do Brasil. Normalmente trabalham no terceiro setor e com serviços”, contou. (LM)

Poloneses, alemães e suas raízes

Outro povo importante na formação da História do Paraná é o polonês. O primeiro registro de poloneses no Brasil data de 1869, em São Francisco do Sul, Santa Catarina. Dois anos depois, em 1871, os poloneses começaram a vir ao Paraná. “O primeiro imigrante polonês no Paraná foi justamente para o local onde hoje é a Cruz do Pilarzinho, em Curitiba”, contou Danuta Lisicki de Abreu, coordenadora do Bosque do Papa João Paulo II e da Missão Católica Polonesa no Brasil.

Segundo Danuta, existem cerca de 3 milhões de descendentes de poloneses no Brasil, sendo 600 mil em Curitiba e região. Entre os bairros curitibanos, muitos tiveram sua formação graças à colônia: “Abranches, Seminário, Barigüi, Novo Mundo, Umbará, o município de São José dos Pinhais”, citou. Ela destacou ainda que a religião católica é um dos grandes legados dos poloneses ao brasileiros.

Na alimentação, ela cita a batata, broas, geléias, requeijão, cuque, lingüiças e outras iguarias. “Mas o mais conhecido alimento originário da Polônia é o pierogi”.

Cerveja

A cerveja talvez seja uma das tradições alemãs que mais se difundiram com a chegada de imigrantes desse país por volta de 1824. A dança e a cultura do povo alemão é cultivada ainda hoje por grupos folclóricos. Um deles é o Grupo Original Einigkeit Tanzgruppe, ligado à Sociedade Thalia. Marcos Von Müller Berneck Murara é um dos membros do grupo. Ele contou que os alemães resolveram viajar ao Brasil por causa das dificuldades econômicas por que seu país passava. O primeiro registro de alemães no Paraná é de 1826. “Contribuímos bastante para a alimentação. A batata cozida, o repolho e as tortas, como a Floresta Negra, por exemplo”, lembrou. Na arquitetura ele citou a Catedral Basílica de Curitiba, construída por alemães. (LM)

Japoneses: policultura e culinária

Segundo o coordenador do Centro de Cultura Praça do Japão, Cláudio Seto, inicialmente os japoneses que chegavam ao Paraná eram rejeitados. Já no início do século XX, o Estado era tradicional pela monocultura, na época da erva-mate. “Os japoneses faziam a policultura. Plantavam arroz, trigo, milho. Então acabaram indo para Minas, São Paulo e Rio de Janeiro”, comentou.

O primeiro registro de japoneses no Brasil data de 1908, quando o navio Kasato Maru chegou em Santos. No Paraná, os japoneses, já instalados em outros estados, chegaram apenas depois de 1929, quando houve a quebra da bolsa de Nova York: o preço do café, principal cultura plantada nos estados onde eles estavam, despencou. “Nessa época, os japoneses começaram migrar para o Paraná. Essas datas coincidem com a fundação de cidades como Londrina, Maringá e Bandeirantes. Hoje, Curitiba é a segunda cidade com mais descendentes de japoneses do Brasil”, lembrou.

Da cultura japonesa, Seto destacou a comida, principalmente a utilização do arroz todos os dias: “Esse hábito veio do Japão. Antigamente as pessoas comiam farinha de mandioca, e não arrozz como se faz hoje”. (LM)