Foto: Ciciro Back

Gentil Alves, de 62 anos: ?Não vi meus filhos crescerem?.

O conhecido alerta de que problemas pessoais devem ser deixados da porta pra fora do trabalho é um bom conselho, mas não se confirma no ambiente empresarial. E quando esses problemas começam a interferir no desempenho do trabalhador, as advertências na empresa são rígidas, podendo até causar demissão. 

A separação entre problemas pessoais e profissionais é impossível, segundo a consultora organizacional e professora de Psicologia do Trabalho da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Lis Soboll. ?Os problemas da esfera pessoal permeiam e interferem no trabalho e vice-versa; não dá para exigir dedicação exclusiva ao trabalho, como as empresas querem?, diz.

Com foco na produção, são raras as empresas que dão importância ao estresse vivido pelo funcionário. Mesmo as organizações que têm uma política de preocupação com o empregado aplicam estratégias para auxiliar apenas em mudanças na qualidade de vida do próprio empregado. ?Pode ser modificada a parte física, como cadeiras e iluminação, mas não se admite mudar a forma de organizar o trabalho?, analisa a psicóloga. Assim, continua a pressão por metas, hierarquia, intensidade e divisão de tarefas, fatores apontados como acentuadores do estresse.

Situação típica foi vivenciada pelo diretor-geral da CSI Cargo, Gentil Alves, que cuida da logística de montadoras de carro, responsável por 1.500 funcionários. Viagens de negócios, cursos de aperfeiçoamento nas férias e dedicação total à empresa eram constantes na vida de Alves, que trabalhava das 7h às 23h.

Depois de 20 anos de trabalho em ritmo de estresse total, as conseqüências começaram a aparecer. ?No ápice do estresse, passei três dias consecutivos sem dormir, preocupado com o trabalho. Vivia no limite?, lembra Alves.

A solução encontrada foi a aposentadoria e o uso do poder da mente para desenvolver o auto-controle. A melhora dos hábitos alimentares e a prática de esportes ajudaram na virada de vida do empresário.

?Jogar futebol ou praticar outros exercícios, uma simples caminhada. Além de manter a mente ocupada em outra atividade; isso permite uma socialização importante. E é necessário para que possamos viver melhor. Evitar cigarro, bebida alcoólica e comida gordurosa deixa a vida mais saudável?, aconselha.

Hoje, com 62 anos e pai de quatro filhos, Alves voltou a trabalhar, de uma forma melhor para ele e para as pessoas com as quais convive. Como chefe, preocupa-se com o comportamento de seus funcionários.

?Não vi meus filhos crescerem e, agora, a família é prioridade. Aprendi a delegar tarefas, para que os problemas não sejam tão freqüentes logo no primeiro dia que preciso me ausentar, e recomendo visita anual dos funcionários ao médico?, conta. 

Quantidade x intensidade

Ausência na família revela que ?demissão? é uma conseqüência que pode ser sofrida não apenas no trabalho. A falta de atenção em casa provocada por conflitos no trabalho pode acarretar um cartão vermelho do parceiro, cansado de um relacionamento distante.

Para suprir a ausência provocada pela agenda de compromissos sempre cheia, o conselho do especialista em ?coach? executivo Luiz Antônio de Souza Neto é dar intensidade aos momentos com a família. ?Em casa, a postura deve ser de retirar a tensão vivida durante o dia, deixar celular e e-mails de lado e demonstrar interesse pelas experiências dos filhos. Perguntar um simples ?como foi o seu dia?faz diferença?, exemplifica.

Simplicidade é o ponto central apontado por Souza Neto para uma melhora na qualidade de vida. ?Faltam para os gestores coisas simples, como olhar nos olhos das pessoas com quem se relacionam, deixando de lado, em alguns momentos, a ?síndrome do lucro?, aconselha. (LC)