Não se sabe quantos negros existem na maioria dos países da América Latina e, em conseqüência disso, não há um mapeamento da condição social e econômica dessa raça. No entanto, o Brasil se difere dessa realidade, dispondo de várias estatísticas, o que possibilita a implantação de políticas públicas. A avaliação é da consultora da Organizações das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco) no Brasil, Edna Roland, que esteve ontem em Curitiba.

Edna diz que na Conferência Mundial Contra a Discriminação que ocorreu na África do Sul em 2001 divulgou-se que havia cerca de 150 milhões de pessoas negras vivendo em 18 países da América Latina. Mas, os números devem ser bem maiores, afinal, 17 países ficaram de fora da estimativa. “No entanto, não se sabe quantos são e nem como vivem”, comenta Edna, acrescentando que isso dificulta a implantação de políticas públicas para a inclusão social dos descendentes de africanos na AL.

Edna avalia que o Brasil está bem avançado nessa questão, pois dispõe de uma série de estatísticas. “Sabemos qual é o problema e toda a AL espera por respostas”, diz. Mas ela comenta que o movimento negro está preocupado com o que pode acontecer daqui em diante, devido a reforma ministerial que está prestes a ocorrer. A Secretaria Especial de Integração Racial que têm status de ministério pode ser englobada por algum outro ministério. “Se isto ocorrer será um retrocesso. A secretaria precisa de investimentos, pois está sendo construída”, afirma.

Edna também é defensora da implantação de cotas para a população negra nas universidades públicas. “Enquanto não for 45% das vagas para negros, estão nos devendo”, defende com firmeza, baseada na porcentagem da população brasileira que é descendente de africanos. No Paraná, ela acha justa a proposta da Universidade Federal (UFPR) de destinar 20% das vagas em todos os cursos para os negros, uma vez que os números correspondem a porcentagem dessa população no estado.

Edna comentou ainda a dificuldade de implementar a lei 10.639, de janeiro deste ano, que determina o ensino da cultura negra nas escolas públicas. O problema está em capacitar todos os professores do país, o que Edna caracteriza como tarefa “zumbínica”. “O ensino precisa combater a visão estereotipada que o Brasil tem dos negros. Precisamos nos ver com outros olhos”, defende. A consultora explica que é o racismo que permite a exploração dos grupos discriminados. “Devido a essa situação é que ainda se consente pagar aos negros até um terço que ganha uma pessoa branca”, compara.