Mal termina uma polêmica do transporte coletivo – sobre a Rede de Transporte Integrado, garantida na semana passada com o acordo entre prefeitura e governo – e o vereador Rogério Campos (PSC) quer criar outra. O parlamentar apresentou ontem na Câmara de Curitiba projeto para destinar 20% da frota de ônibus exclusivamente para mulheres e filhos de até 12 anos incompletos que as acompanharem. A intenção seria evitar abusos cometidos em horários de grande fluxo de passageiros.

“Vai vir crítica, vai vir”, prevê Campos. Segundo o vereador, o objetivo da proposta é preservar a integridade física e moral das mulheres. “Mulher é sexo frágil e tem muito safado fazendo abusos nos ônibus”, comenta, referindo-se aos casos recentes de tarados flagrados no transporte público da cidade. “Tem muito sem vergonha que se aproveita para ficar roçando e as mulheres não têm opção de se esquivar disso”, afirma.

Pelo projeto, biarticulados e Ligeirinhos teriam veículos exclusivos para mulheres das 6h às 9h e das 17h às 20h, “já que não tem condições de ter um guarda municipal ou policial militar em cada ônibus em horário de pico”. “Nos ônibus de bairros, normalmente as pessoas se conhecem. No expresso e Ligeirinho ninguém conhece ninguém”, diz.

Simbologia

Campos propõe ainda que os ônibus sejam cor-de-rosa, pela “simbologia da mulher”. Por isso, os ônibus já receberam o apelido de “Panterão”, em referência ao personagem da Pantera Cor-de-Rosa.

Segundo ele, não haveria aumento do custo do transporte coletivo, pois seria usada a mesma frota atual. “Não vou fazer projeto que aumente a frota para não dar entrave”, finaliza o vereador.

A Urbs, que administra o transporte coletivo, informou que não se posiciona sobre projetos de vereadores antes da aprovação na Câmara.

Polêmica divide opiniões

Aliocha Maurício
Renata: sem problemas.

A funcionária pública Marineide Igarashi achou a proposta do vereador “bem interessante”. Ela vê outra vantagem na ideia. “No horário de pico tem muita gente se encostando e os rapazes ficam sentados e não dão lugar para as mulheres”, destaca. A auxiliar operacional Rosinha Oliveira de Santana também aprova a proposta dos ônibus exclusivos para mulheres. “Quando o ônibus está lotado facilita pra esse tipo de sem vergonha”, diz.

Já a operadora de caixa Renata Cristine da Luz, acredita que não há necessidade de criar ônibus para mulheres. “Eu acho que seria mais um ônibus para gastar”, avalia. “Eu nunca tive problema nenhum”, complementa. O casal Lucas Hecke e Greici Regine desaprova o projeto de Rogério Campos. “Sou a favor da igualdade. O problema é a falta de segurança e segregar não vai resolver”, avalia Lucas. “O culpado é o cara que abusa. Não adianta separar, porque se ele quiser fazer alguma coisa vai achar outro lugar”, pontua Greici.

Proposta elaborada sem pesquisas

Consultado pelo Paraná Online, o Sindicato das Empresas de Ônibus de Curitiba e Região Metropolitana (Setransp) informou que, a princípio, é contra a proposta do “ônibus rosa” por considerá-la inviável dos pontos de vista econômico e operacional. A entidade alega que não existem estudos técnicos para embasar o projeto, que permitam saber, por exemplo, a quantidade e percentual de homens e mulheres que usam o transporte coletivo nos horários de pico e em cada rota.

Apesar das reclamações sobre assédio às mulheres nos coletivos, avalia a matéria como “excluidora de gênero”, já que os homens não teriam b,enefício e, se aprovada, poderia ensejar que outros grupos de pessoas também pleiteassem o mesmo direito, como torcedores de determinado time de futebol. Embora o vereador Rogério Campos descarte a ampliação da frota, o Setransp entende que não é possível colocar a medida em prática sem aumentar custos, pois, para não segregar o público masculino, seria necessário agregar veículos à frota atual.

Custeio

No momento em que se batalhou para manter a integração metropolitana e a tarifa única, o sindicato pondera que é preciso pensar em formas de melhorar o sistema e não de encarecer, sem indicação de fonte de custeio. Para o Setransp, as melhores alternativas para combater o abuso são campanhas educativas, investimento em câmeras nos ônibus, terminais e estações-tubo, além da presença maior da Guarda Municipal. Além disso, cita que a Urbs não foi consultada.