A vida em grandes cidades, em espaços residenciais cada vez mais reduzidos, acaba fazendo com que as crianças tenham pouco ou mesmo nenhum contato com os animais. Atualmente, não é raro encontrar meninos e meninas que nunca viram de perto uma ovelha, uma vaca, um pato, um porquinho ou uma galinha.

Sabendo disso, muitos colégios de Curitiba têm mantido espaços rurais onde os alunos podem observar o comportamento dos bichos, tocá-los e realizar uma série de atividades interativas.

Desde que abriu as portas, há cerca de 27 anos, a escola de educação infantil Pés no Chão, localizada no bairro Bom Retiro e voltada a crianças de zero a seis anos de idade, busca incentivar o contato de seus estudantes com a natureza. No local, para encantamento de adultos e crianças, são mantidos peixes de água doce, tartarugas, coelhos, galinhas e pássaros.

“Os animais ajudam para que possamos trabalhar com as crianças questões ligadas ao meio ambiente e à responsabilidade. Os alunos aprendem, por exemplo, que se destruirmos a natureza estaremos destruindo o lugar onde vivem os animais, que por consequência irão morrer”, comenta a vice-diretora da escola, Roberta Obladen.

Outra vantagem dos bichinhos, segundo Roberta, é que eles ajudam na adaptação das crianças ao colégio. “Os animais não fazem diferença entre uma pessoa e outra. Não julgam se uma pessoa é feia ou bonita. Eles aceitam a todos e ativam a área do cérebro humano ligada à emoção. Por isso, na escola, os animais fazem com que as crianças se sintam acolhidas, ajudando na adaptação”.

No Colégio Nossa Senhora do Sion, localizado na BR-277, animais auxiliam em atividades de observação da natureza. No local, em determinados períodos do ano, as crianças podem observar a gestação dos animais, o relacionamento entre mães e filhotes, o crescimento dos bichinhos, além da alimentação e higiene dos mesmos.

“Visitar os animais faz parte da rotina diária dos estudantes. Quando um bichinho nasce, as crianças dão nome a ele e acompanham seu desenvolvimento”, diz a coordenadora da instituição, Maria Cristina Trevizan.

“Acredito que os animais ajudam os alunos a perceberem que não estão sozinhos e fazem parte de um mundo muito maior. As crianças aprendem a ver e respeitar a vida em suas diversas formas”.

Voluntários levam bichinhos para orfanatos da capital

Um grupo de voluntários de Curitiba também tem proporcionado contato com animais a crianças que vivem em orfanatos ou estudam em escolas especiais. Trata-se dos integrantes do Projeto Cão Amigo, criado no ano de 2003, sob iniciativa da psicóloga Manuella Balliana Maciel.

Periodicamente, animais como cães, gatos, hamsters, calopsitas, coelhos e chinchilas são levados a instituições para interagir com crianças e adultos, sendo que atividades também são desenvolvidas em asilos e hospitais. Atualmente, o projeto conta com 86 voluntários humanos e 72 animais.

“Nas visitas dos animais são realizadas atividades que têm como objetivo a melhoria da qualidade de vida; o desenvolvimento educacional, como auxílio dos animais na alfabetização de crianças; e de terapia, que tem fins específicos, como ajudar na fala ou no desenvolvimento motor. As atividades educacionais e terapêuticas costumam ser realizadas por profissionais especializados. Já as de melhoria de vida podem ser realizadas por qualquer pessoa comprometida com o projeto e que passem por uma capacitação oferecida por nós”, explica Manuella.

Já os animais levados às entidades devem ser dóceis e saudáveis, estando com a vacinação, vermífugos, antipulgas e higiene em dia. Eles também são testados antes de serem inseridos no projeto.

“Realizamos uma série de avaliações com o animal antes de permitir que ele seja levado às entidades. Obs,ervamos se o bichinho é sociável com outros animais, com pessoas desconhecidas e como se comporta ao levar um susto, ser tocado na boca ou ter o rabo e as orelhas puxados. Tentamos simular situações reais pelas quais ele pode vir a passar nas atividades. São aprovados os animais tranquilos e que não demonstrem agressividade”.

Após serem testados, os animais realizam uma primeira visita experimental, na qual são avaliados na prática das atividades desenvolvidas. Quanto aos cães, não existe uma raça considerada melhor ou pior para os trabalhos desenvolvidos pelo projeto.

O “Cão Amigo” conta tanto com vira-latas quanto com labradores, considerados bastante amistosos, e pintchers, geralmente tidos como mais agitados. “Não importa a raça. São consideradas características individuais de cada animal”, finaliza Manuella.

Convívio contribui para o desenvolvimento afetivo

O convívio com animais contribui no desenvolvimento afetivo das crianças. É isto o que afirma a psicóloga clínica Patrícia Guillon Ribeiro, que é mestre em infância e adolescência e professora da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).

“Através dos animais, as crianças desenvolvem a capacidade de dar e receber carinho. Há seis anos, nos Estados Unidos, uma pesquisa revelou que as crianças que têm contato com animais têm menores chances de desenvolver transtornos de humor na adolescência. Por isso, acredito que o convívio é bastante saudável e positivo no desenvolvimento”, afirma.

Além do afeto, de acordo com a psicóloga, os animais ajudam meninos e meninas a se tornarem mais responsáveis, enxergarem as consequências dos próprios atos, estabelecerem limites e noção do que pertence a eles e do que pertence ao próximo.

“A criança percebe que, se não der comida, o animalzinho vai ficar com fome e pode adoecer. Passa a dimensionar a própria força física e conhecer as consequência de seus atos, sabendo, por exemplo, que não pode bater no bichinho. Além disso, percebe que deve respeitar o que é do animal e que o animal também não deve pegar as coisas que são dela”, declara. “Os bichos são facilitadores do aprendizado. São riquíssimos para as crianças e possibilitam que elas aprendam de forma bastante lúdica”.