Há 32 anos, em meados de março de 1978, o sequestro em condições até hoje obscuras da professora e jornalista Juracilda da Veiga, seguido das prisões políticas de 11 pessoas ligadas a atividades intelectuais, transformaram Curitiba no centro das atenções do país.

Foram dias seguidos de tensão, mobilização da sociedade, pressões da Igreja e setores democráticos que não apenas garantiram a soltura daquelas pessoas, como transformaram a até então pacata capital das araucárias.

Rico em acontecimentos, em diversidade cultural e em contradições, o Brasil é também um país de memória curta. Contribui para isso uma realidade complexa e dinâmica que superpõe fatos com uma rapidez impressionante, ficando para trás muitas coisas sem a necessária reflexão. Por isso vale a pena reavivar a memória daqueles dias tumultuados.

Principalmente porque, três décadas depois, esse e outros episódios relacionados ao ciclo recente da República militarizada não foram até hoje esclarecidos. E se não vierem à tona, correm o perigo de perder-se no limbo do tempo.

No final da tarde de 17 de março, sexta-feira, Juracilda foi agarrada por três homens armados e jogada dentro de uma Veraneio azul com placa fria de São Paulo. Ela acabara de sair do colégio católico Cônego Camargo, no Bairro Alto, onde lecionava, e estava acompanhada de crianças.

A notícia foi rapidamente repassada aos jornais da cidade e às sucursais dos periódicos de fora pela Comissão Regional de Justiça e Paz (CRJP) da Cúria Metropolitana de Curitiba.

O dia seguinte reservaria mais surpresas. Nas primeiras horas da manhã daquele sábado, a Polícia Federal iniciava as prisões de pessoas ligadas às escolas em regime de cooperativas Oca e Oficina.

À tarde, em nota oficial à imprensa, a PF, sem mencionar nomes e números de detidos, dava sua explicação para as prisões: “(…) as escolas vinham doutrinando crianças dentro de princípios marxistas, desenvolvendo-lhes uma visão materialista e dialética do mundo, incutindo nelas a negação de valores como a religião, a família e a tradição histórica”.

Foram 11 os detidos, que permaneceram incomunicáveis por vários dias, com base no artigo 59 da Lei de Segurança Nacional: jornalistas Luis Alberto Manfredini e Walmor Marcelino; publicitários Reinoldo Atem e Sueli Atem; professor Léo Kessel, engenheiro Paulo de Albuquerque Sá Brito, o advogado Edésio Passos, além de sociólogos, pedagogos, funcionários e ex-funcionários do Ipardes e Ippuc.

Todos se perguntavam o que estava acontecendo. Pensava-se que uma devassa repressiva estava em curso no país. Mas o epicentro do furacão estava mesmo em Curitiba. Vejamos as razões.

Alguns dias antes o jornalista Luis Alberto Manfredini, da sucursal do Jornal do Brasil em Curitiba, entrevistara o tenente-coronel Tarcísio Nunes Ferreira, comandante do 13º Batalhão de Infantaria Blindado, em Ponta Grossa, região dos Campos Gerais, que criticara os rumos do movimento militar de 1964.

Suas declarações repercutiram nos meios políticos e militares. Até então um oficial não havia feito um pronunciamento semelhante, que soou como um alerta aos colegas de caserna. Tarcísio perdeu o comando, foi detido e permaneceu em prisão domiciliar no quartel do 5º GAC (Grupo de Artilharia de Campanha), no bairro Boqueirão.

Portanto, logo que ocorreram as prisões, sem uma explicação palpável, muitas pessoas relacionaram imediatamente os fatos. Havia qualquer coisa não-identificada no ar, além da neblina curitibana.

Boatos circularam pelas redações dos jornais que seriam feitas novas prisões. A Curitiba conservadora e européia de então virara o centro das atenções do país. A cidade come&ccedil,;ava a mudar e jamais seria a mesma.

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Capa do jornal O Estado do Paraná do dia 19 de março de 1978.

Mobilização

Com uma rapidez impressionante como nunca acontecera antes, a sociedade mobilizou-se cobrando esclarecimento e liberdade para Juracilda e os detidos. Representantes de diversos segmentos – professores, advogados, jornalistas, estudantes, políticos – com destacada presença de membros da Igreja, reuniram-se na Cúria Metropolitana em assembléia permanente. O clero local se sentiu atingido, e deu amplo, geral e irrestrito respaldo à mobilização.

A CRJP, juntamente com 34 outras organizações representativas da sociedade, distribuiu carta-aberta à população, manifestando preocupação com o “clima de terror e insegurança”.

Exigiu imediata liberação dos presos, “o esclarecimento e a punição dos responsáveis pelo sequestro de Juracilda”, assim como “apuração de atos ilegais do clandestino Comando de Caça aos Comunistas”.

Nas missas celebradas domingo em todas as igrejas católicas de Curitiba, o documento foi lido. Os direitos humanos foram o tema da missa dominical transmitida ao vivo por um canal de TV.

Nela, o então arcebispo Dom Pedro Fedalto comentou o conteúdo da carta-aberta e cobrou o aparecimento da professora e dos detidos. Colégios católicos ameaçaram paralisar as aulas em sinal de protesto, medida que poderia se estender às universidades Federal e Católica (hoje PUCPR) – onde estudava Juracilda. Manifestações aconteceram em todos os cantos do país.

A repercussão dos acontecimentos trouxe a Curitiba a inglesa Patrícia Feeney, coordenadora do Departamento de Pesquisa Internacional para a América Latina da Anistia Internacional. Pronunciamentos foram feitos na Assembléia Legislativa do Estado e no Congresso Nacional, condenando as prisões e considerando-as um retrocesso no diálogo e na abertura.

Quase 10.000 mil telegramas chegaram do exterior e de vários estados à sede da Superintendência da Polícia Federal, pedindo liberdade para os detidos. E o que já se esperava aconteceu: foram liberados aos poucos, não ficando ninguém no cárcere.

Juracilda só foi libertada uma semana depois, às 24 de sábado, nas proximidades de Registro. Tudo indica que os sequestradores estavam levando-a para São Paulo, e desistiram a caminho.

Ela sofreu torturas, choques elétricos, ameaças e foi submetida a 10 interrogatórios em uma cela especial, sempre encapuzada para não reconhecer seus algozes.

Os sequestradores demonstraram conhecer detalhes da vida de Juracilda. Fizeram perguntas sobre pessoas de seu círculo de amigos e atividades. Inclusive, sobre os detidos pela PF. Procuraram estabelecer ligações entre sua militância estudantil e organizações clandestinas.

Sabiam detalhes de sua participação no painel de jornalismo do ano anterior em Londrina. Tinham até mesmo um trabalho que ela fizera em sala de aula no curso de Comunicação Social da então Universidade Católica do Paraná (hoje PUCPR). Tudo isso ela relatou durante entrevista coletiva à imprensa na Cúria Metropolitana.

Linha dura e moderados

Hoje é possível analisar os fatos com mais clareza. Tudo indica que havia uma disputa entre os setores moderados e os da chamada linha dura do Exército. O pronunciamento do tenente-coronel Tarcísio Nunes fazia parte desse quadro, que assumiria contornos mais nítidos com a denominada Frente Nacional de Redemocratização, reunindo civis e militares em torno da candidatura do general Euler Bentes à presidência da República. Esse setor do Exército captou um pouco a necessidade de uma certa descompressão política. Sem uma válvula de escape, a panela poderia estourar.

Em contrapartida, os militares da linha dura acharam que não convinha abrir, e resolveram dar a resposta. Pinçaram algumas pessoas, aquelas que já tinha sido fichadas, conhecidas pela postura ideológica à esquerda, para compor um caso e, a, partir dele, bloquear o processo.

Contudo, o sequestro de Juracilda, que não estava nos planos, acabou complicando e o caso assumiu grandes repercussões. O próprio governador do Estado do Paraná na época, Jaime Canet Júnior, não fora comunicado da operação, segundo admitiu mais tarde. E o plano acabou dando com os burros n´água.

E os brutamontes da Veraneio azul, onde entram nessa história?

Para entender essa questão é necessário retroceder um pouco mais. Após o caso Wladimir Herzog – jornalista encontrado morto nas dependências do DOI-CODI paulista, em 1975 – que alcançou grande repercussão, houve uma certa desativação dos aparelhos repressivos.

Muitos daqueles elementos, com grande experiência em repressão, foram distribuídos para outros lugares do país, passando a compor núcleos. Curitiba, que sempre manteve uma tradição de conservadora, abrigou partes desses experts que logo entraram em ação.

As grandes prisões de Curitiba foram a última do país, que já começava a sentir os novos ares de mudanças. A linha dura do Exército ainda praticou várias ações terroristas nos anos seguintes.

O frustrado atentado no Riocentro, na noite de 31 de abril de 1981 no show de comemoração do 1º de Maio – Dia do Trabalhador – com 20.000 pessoas, brecou o terrorismo da direita.

O objetivo era provocar pânico, várias mortes e atribuir o atentado à esquerda, para justificar prisões, atos arbitrários e um retrocesso nas conquistas democráticas. A farsa veio à tona como uma bomba. Essa tentativa desesperada foi a última dos durões do regime militar de recorrer ao terror.

O episódio de Curitiba constituiu o marco do início de certo estertor do regime militar, que se não ruiu naquele momento, com uma série de estocadas como as greves do ABC paulista que produziu uma onda grevista no país, a campanha da Anistia pelo retorno dos exilados e liberdade para os presos políticos, o processo desaguaria na fenomenal mobilização das Diretas Já, por eleição livre e democrática para escolha do presidente da República.

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Reprodução de matérias publicadas no dia 19 de março de 1978.

A garra da imprensa

Também pesou no curso dos acontecimentos o papel da imprensa curitibana, bem mais robusta do que hoje, tanto em número de profissionais como de periódicos: O Estado do Paraná, Gazeta do Povo, Diário do Paraná, Correio de Notícias, Tribuna do Paraná, Diário Popular, Voz do Paraná, além de sucursais do eixo Rio-São Paulo.

Ela deu ampla cobertura, encarou e surpreendeu, no que foi seguida pelos grandes jornais do país. A revista Veja fez uma reportagem com chamada e foto de Juracilda na capa. Colunistas famosos condenaram as prisões, outros satirizaram as tais crianças marxistas.

O mundo mudou nessas três décadas. Vinte anos se foram desde a queda do Muro de Berlim, que colocou fim na “Guerra Fria”. O governo japonês pediu perdão pelo ataque aéreo à base americana Pearl Harbor (Havaí), dando início à 2ª Grande Guerra.

O papa João Paulo II pediu perdão pelos erros cometidos pela Inquisição (Tribunal do Santo Ofício), que condenou várias pessoas à fogueira por heresia. Mas até hoje a tradicional instituição de ensino marista não veio a público explicar sua sórdida relação com o organismo paramilitar que teve acesso ao trabalho da aluna elaborado em sala de aula.

O tempo passou, mas o assunto não arrefeceu. Algumas iniciativas, ainda que tímidas, reacenderam a chama. O tema foi abordado por estudantes de Jornalismo da Universidade Positivo em 2005, na disciplina “Documentário em Telejornalismo”.

E o jornalista, pesquisador e cineasta Valêncio Xavier produziu, em 1995, o vídeo-documentário “Os Onze de Curitiba”. Muito bom, para que esse triste episódio de uma época triste jamais caia no esq,uecimento! É parte da História de Curitiba, da História da luta pela liberdade, da História do Brasil.

*Silvestre Duarte é jornalista e pesquisador.