Ano após ano diminui a média de idade em que se inicia o consumo de bebidas por jovens. A constatação é do Grupo Alcoólicos Anônimos (A.A) de Curitiba e encontra respaldo no acompanhamento da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) que, na pesquisa deste ano, aponta que em Curitiba o início do consumo etílico se dá com 12,6 anos, refletindo o que ocorre nas principais cidades do País. Outra estatística comum a Curitiba e às demais cidades analisadas é que 90% da população adulta no Brasil costumam ingerir bebida alcoólica de forma ocasional, 30% abusam do consumo e 10% têm dependência.

Estes dados confirmam o que o empresário A.L.B., de 47 anos, membro do A.A há 24 anos, conhece na prática. Ele decidiu parar de beber porque tinha o problema em casa. “Meu pai já estava com o fígado comprometido por causa do álcool e não queria isso para a minha vida. Como todo fim de semana eu precisava beber, resolvi procurar ajuda”, conta.

E na primeira reunião entendeu a lógica que está por trás da estatística perversa apontada pela Unifesp. “Ouvi no relato de um integrante do grupo algo que fez toda a diferença: o alcoolismo é uma doença incurável, progressiva e fatal”. O caráter fatal da doença se confirmou com o pai do empresário. Ele morreu com 51 anos, no dia em que A.L.B. completava oito anos da primeira reunião que participou do A.A. “Foi uma triste coincidência. Consegui trazer meu pai em duas ou três reuniões, mas ele nunca tomou essa decisão. E esse passo é o único requisito do programa, o desejo de parar de beber”, lamenta.

Família

Apesar da dificuldade dos familiares em ajudar o alcoólatra, o médico psiquiatra do ambulatório de saúde mental do Hospital de Clínicas, Luiz Renato Carazzai, reforça que postura mais firme dos parentes e amigos, assistida por grupo de apoio como o Al-Anon ou dos ambulatórios de diversos hospitais especializados, aumenta as chances que o dependente consiga persistir na decisão de parar de beber. “Muitas vezes a família tenta ajudar, mas de forma pouco efetiva. Esses grupos de familiares conseguem mostrar outras formas de agir com o alcoólatra e ter resultados positivos, nem que seja após a oitava tentativa”, recomenda.

Compulsão tem mesma origem

Daniel Derevecki
Não ao primeiro gole mostra reflexos positivos na vida.

Aqueles que conseguem dizer não ao primeiro gole dia após dia garantem que a escolha tem reflexos positivos em todos os setores da vida. “Eu me sinto muito grato à irmandade. Criei três filhas maravilhosas, financeiramente estou bem e sei que isso se deve ao que vivenciei no A.A. como membro e colaborador”, ressalta A.L.B.

Ele explica que os passos do programa do A.A. serviram de base para outros que tratam de dependências diversas porque todos acionam o gatilho da compulsão. “Compulsão por jogos, comida etc. Tudo tem a mesma origem, a mente doente, mas é possível seguir praticando os 36 princípios espirituais subdivididos em três grupos de 12, incluindo os 12 passos do indivíduo, que são os mais conhecidos”, esclarece.

Reunião pública

Neste mês, o A.A. completa 45 anos em Curitiba. A primeira reunião aconteceu em 5 de setembro de 1968. Para marcar a data, no próximo dia 21, o grupo fará reunião pública, às 19h30, no Teatro da Reitoria. Informações: (41) 3322-2422 ou www.aapr.org.br.

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Reprodução
Suco de uva é evitado.

Restrição de até alguns sucos

A regra de evitar o primeiro gole tem a ver com acionar o gatilho da compulsão, que é reconhecido cientificamente. E essa proibição inclui bebidas sem álcool ou sucos de uva e sobremesas à base de vinho, por exemplo. “Por ser compulsão, há membros que evitam o suco de uva para que não desencadeie novamente o processo”, comenta A.L.B.

Nesse sentido, a cerveja sem álcool é combatida porque algumas marcas têm teor alcoólico por causa do processo de fermentação e pelo risco psicológico. “Há um aspecto psicoemocional da doença que precisa ser tratado com cautela, para que o doente consiga continuar no controle da própria vida e essas bebidas representam risco”, alerta Carazzai.