Distante do Centro, onde é possível encontrar alguns dispositivos de acessibilidade para deficientes físicos e visuais, o bacharel em Direito Daniel Massaneiro, 28 anos, enfrenta diariamente nas ruas do CIC uma verdadeira batalha contra buracos e degraus nas calçadas, além da ausência de qualquer equipamento que o auxilie para atravessar cruzamentos movimentados. Ele, porém, não é o único a passar por este tipo de problema. As condições das ruas dos bairros longe da área central prejudicam também cadeirantes, idosos, crianças e até ciclistas, que não contam com uma via exclusiva.

Ivonaldo Alexandre
Para Daniel, escorregões, tropeços e torções dos pés são rotina nas calçadas irregulares. Braile, só no Centro!

“As mudanças todas acontecem no Centro, mas e o bairro, como fica?”, questiona. “Aqui não chega a nem um décimo, isso que lá (no Centro) as coisas também não são 100%. Os bairros são esquecidos”, avalia ele, que afirma nunca ter encontrado qualquer equipamento com o sistema braile fora do centro.

A perda total da visão de Massaneiro aconteceu há quatro anos, o que permitiu que ele tivesse uma memória visual do bairro em que mora desde quando nasceu e por onde circula sozinho ou na companhia do pai. “Conheço todos os cantos daqui. É o que me salva”, afirma. Ainda assim ele sente bastante dificuldade para realizar tarefas simples, como frequentar o comércio local ou chegar ao terminal de ônibus. Também fazem parte de sua rotina escorregões, tropeços e torções dos pés nas calçadas irregulares. A situação preocupa o pai do rapaz. “Ele se vira, mas como pai fico muito preocupado. Muitas pessoas não respeitam os deficientes, não estão nem aí”, lamenta o aposentado João Carlos Massaneiro.

Dificuldades

No comércio, por exemplo, o rapaz conta que é mais fácil localizar seu destino caminhando próximo às portas das lojas, o que se torna praticamente impossível por causa dos degraus no meio da calçada, entre um estabelecimento e outro. “Não tem como. Se vou pelo canto é pior, então vou perto do meio fio, mas assim não sei qual é a porta onde preciso entrar. Isso tira o direito do cidadão de ir e vir, a gente não tem acesso”, critica.

O ponto mais crítico, porém, é atravessar a Rua Pedro Gusso, em frente ao terminal do bairro, onde o movimento de ônibus e caminhões é intenso. “Eu me arrisco todo dia”, diz. Sem dispositivo sonoro para avisar quando o sinal está aberto para pedestres, Massaneiro depende apenas de sua audição para saber se pode ou não atravessar a rua, já que poucas pessoas se dispõem a ajudar. Ainda assim, a sincronia com outro sinaleiro poucos metros adiante também atrapalha a travessia, junto com carros e ônibus que param em frente à guia rebaixada, fazendo com que os pedestres passem no meio dos carros para chegar ao outro lado da rua. “Não sei quando posso atravessar, é impossível”.

Cidade pensada pra carros

Além das dificuldades para circular no bairro, Massaneiro lamenta a demora para solução dos problemas. “Tudo anda muito devagar, é um absurdo”, critica, referindo-se aos pedidos de melhorias por ele e seus amigos que também são deficientes visuais. Para Antônio Borges dos Reis, coordenador do Fórum Paranaense de Acessibilidade, coordenado pelo Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea), isto reflete a falta de priorização para a área, já que o assunto é muito discutido, mas pouco colocado em prática.

“Isso &eacute,; deixado de lado. Infelizmente nossas cidades foram construídas para o automóvel e não para as pessoas. Mas esqueceram que quem usa o transporte coletivo sai do ônibus e vai andar na calçada. Isso é no Brasil inteiro”, afirma. O engenheiro civil defende que a responsabilidade para a manutenção das calçadas, por exemplo, deve caber ao poder público e não à população,principalmente porque não há fiscalização das condições nem estímulo para melhoria das obras. “A solução só virá quando as prefeituras pararem de lavar as mãos e assumirem a responsabilidade. Percebo uma acomodação por parte do poder público”, critica.

80% dos pedidos atendidos

A coordenadora de acessibilidade da Secretaria Especial dos Direitos da Pessoa com Deficiência, Francielle Henrique Lucena, afirma que a pasta incentiva um olhar diferenciado para o conceito da acessibilidade na administração do município, especialmente com os responsáveis pelos projetos de obras na cidade. O plano diretor de calçadas, em elaboração pelo Ippuc, também representa uma promessa de que a situação irá melhorar, com o mapeamento das áreas mais críticas e a implantação de um novo decreto sobre o assunto.

Apesar de poucas mudanças ainda serem percebidas na prática, Francielle garante que todas as solicitações são atendidas. “As ocorrências demandam o tempo natural do processo. 80% dos atendimentos foram resolvidos e o que a prefeitura ainda não conseguiu resolver estamos em contato, junto com o solicitante”, afirma.

Solicitações de melhorias, como as mostradas por Daniel Massaneiro à reportagem da Tribuna, podem ser feitas pela Central 156 ou diretamente na Secretaria Especial dos Direitos da Pessoa com Deficiência, pelo telefone (41) 3363-5236.

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