Daria para ser diferente. Essa é uma das muitas conclusões que se tem ao visitar as crianças, jovens e adultos portadores do vírus HIV que vivem na Associação Paranaense Alegria de Viver (Apav). Parte dos 13, que hoje moram na instituição, envelheceu esperando pela liberação do Poder Judiciário e já chegaram ao ponto de serem consideradas “inadotáveis” por terem mais de 18 anos.

A presidente da Apav, Maria Rita Teixeira, que está na instituição desde o início das atividades há quase 20 anos, testemunhou cada uma das histórias frustradas e as que tiveram sucesso. “Parece que agora as crianças da Apav estão no Cadastro Nacional de Adoção, mas até pouco tempo até isso era banido, tamanho o descaso da Justiça. Encaminham as crianças em risco ou abandonadas aos lares para esquecerem aqui, tirando qualquer chance de uma referência familiar”, condena Maria Rita. Ela conta que quando o grupo de mulheres decidiu criar a Apav o principal objetivo era o de salvar vidas. Como a longevidade dos portadores era desacreditada e não havia o acompanhamento que tem hoje das gestantes soropositivo, os bebês nasciam portadores do HIV e em seguida perdiam a mãe para a doença ou por abandono.

Felipe Rosa
Maria Rita: sem referência familiar.

Entretanto, tratamento e sociedade evoluíram no descompasso do Judiciário. Prova disso, que o estatuto da Apav que, inicialmente, atenderia crianças até 12 anos de idade, foi reformulado a fim de garantir um lar por tempo indeterminado para quem ultrapassasse a faixa etária estabelecida. Para se ter uma ideia da realidade desses avanços, em 19 anos de Apav, foram registrados seis óbitos e nenhum devido às debilidades provocadas pelo HIV. “Passou a ser uma questão de vida e a partir daí incluímos no direcionamento do trabalho que realizamos aqui encontrar famílias para essas crianças. Porque por mais carinho e amor que dedicamos a elas, a lacuna de uma referência familiar, de uma mãe 24 horas, não é preenchida”, constata. Mesmo com tanto esforços, das mais de 120 crianças que passaram pela Apav, somente 30 foram adotadas. “O número de casais habilitados para adotar supera o número de crianças portadoras de HIV, mas a demora tanto no processo de destituição, quanto o de adoção acaba, muitas vezes, inviabilizando a construção de um vínculo familiar, porque a formação de valores se deu de outra maneira”, explica Maria Rita.

Com 17 anos uma das jovens que não quis ser identificada afirma que até os 11 anos sofreu muito com a situação. “Cheguei com três anos de idade e esperei, esperei e esperei. Quando fiz 11 anos já comecei a aceitar que a minha família seria a Apav, eu não conseguiria encontrar outra”, relata. Maria Rita conta que mesmo tendo três filhos biológicos, em 1998, encantou-se por um bebê que chegou quase sem esperança de sobrevivência. “Até então eu não sabia explicar o meu engajamento com a Apav, achava que era só amor, mas encontrei mais um filho aqui”, conta. Mesmo com todo o conhecimento e vontade, foram necessários dois anos para concluir o processo. “Falta humanização no Judiciário. Faltam profissionais que conheçam a vida dessas crianças e o quanto é cruel negar uma família a elas”.

Convênio, bazar e doações

Cada criança custa a Apav R$ 2 mil por mês. Apesar da ginástica financeira para manter a Associação, Maria Rita diz que a instituição não possui dívidas. Doações, bazar todas as quartas-feiras (retomam a atividade no dia 06 de fevereiro) e convênios co,m a prefeitura garantem a receita. No momento eles vivem mais uma expectativa em relação a renovação ou não dos convênios. “No ano passado quase fechamos pelo atraso na renovação”. Quem quiser contribuir com dinheiro ou doações pode ligar para o telefone da Apav: 3079-4779.