Pelo menos 150 mil pessoas são usuárias de drogas em Curitiba. O número pode chegar a 170 mil dependentes químicos, ou quase 10% da população da capital, de acordo com estimativa do Departamento de Políticas Públicas sobre Drogas, da prefeitura, baseada na quantidade de atendimentos e abordagens realizadas na cidade. O índice é considerado muito grande e preocupante pelas autoridades, que pretendem adotar uma nova postura de combate ao problema. Mesmo assim a situação é vista com esperança pelos envolvidos, que acreditam em uma mudança no cenário curitibano com a abertura de novas vagas para atendimento e iniciativas de prevenção.

Aliocha Maurício
Prefeitura estima existência de até 170 mil usuários de drogas.

Hoje o município inicia a quinta Semana de Enfrentamento às Drogas e anuncia sua nova política de atuação. “Vejo que estamos diante de um grande problema, talvez o mais grave de saúde pública e não lidamos da maneira mais adequada. Precisamos mudar o foco de atuação na repressão à substância ou na redução da oferta para o usuário, e partir para o humano que precisa de cuidados e alternativas educacionais, culturais e esportivas”, avalia o diretor do Departamento de Políticas Públicas sobre Drogas, Diogo Busse.

A política de ação municipal pretende articular ainda mais os vários organismos e dar maior enfoque às iniciativas de prevenção e ressocialização aos usuários. O plano pretende ainda ampliar até 2016 a rede de atendimento, que hoje possui 553 vagas nos hospitais Dia e Integral para álcool e drogas. Além disso, o sistema atende 1,2 mil pacientes nos Centros de Atenção Psicossocial AD (CAPs), especializados em álcool e drogas, de acordo com a Secretaria Municipal de Saúde.

Mapeamento

Para preparar o plano de ações, o município elaborou um diagnóstico do consumo de drogas na capital, em que também mapeou os principais pontos de concentração de usuários, espalhados por toda a cidade. “Há quatro anos poderia dizer com convicção que a região central era a mais preocupante, com maiores concentrações. O problema ainda existe na região, mas percebemos a disseminação para outros pontos, principalmente nas áreas periféricas”, revela Busse, que aponta uma minicracolândia no Jardim Gabineto, além de Santa Felicidade, Tatuquara, Sítio Cercado e Cidade Industrial de Curitiba (CIC) como pontos preocupantes.

Tráfico só quebra se não tiver cliente

“Já foi comprovado mundialmente que a repressão não faz nem cócega no tráfico de drogas. É necessária, mas se eu fosse governante gastaria todos os meus centavos com as crianças e com quem ainda não consome drogas porque o tráfico só vai quebrar quando não tiver mais o consumidor”. Esta é a avaliação do delegado titular da Divisão Estadual de Narcóticos (Denarc) em Curitiba, Riad Braga Farhat, que neste ano já apreendeu mais de duas toneladas de drogas em todo o Paraná.

A quantidade de entorpecentes recolhidos representa que o consumo também segue crescendo, já que “as apreensões aumentam na mesma medida do consumo”, situação comum ao restante do País. Mesmo com um trabalho de investigação constante, que prende pequenos e grandes traficante, o delegado destaca a importância das denúncias.

Para o capitão Edivan Fragoso, coordenador do 181 Narcodenúncia, a participação da comunidade poderia ser intensificada. “O cidadão é peça primordial. Podemos antecipar muitas situaç&,otilde;es fazendo as denúncias”, reforça. As ligações podem ser anônimas e qualquer informação é importante para os policiais, que pelo 181 Narcodenúncia também recebem relatos de violência, homicídios, roubos e pichações.

Família é essencial pra recuperação

Roque Júnior, coordenador do movimento Força Jovem, grupo que reúne jovens em atividades culturais, sociais e esportivas, sabe bem a importância da atenção aos dependentes químicos na recuperação. Antes de estar à frente do projeto realizado pela Igreja Universal do Reino de Deus, Júnior passou por uma trajetória de superação ao vício iniciado aos 12 anos de idade.

“Não era feliz e quanto mais eu me envolvia com as drogas, pior eu ficava. Aparentemente estava bem, me mostrava forte e valente, mas sabia que não, que era uma ilusão. É assim que o viciado se vê: triste, abatido, frustrado e sem perspectiva de vida”, lembra. A situação começou a mudar quando o então adolescente começou a participar do grupo e se envolveu especialmente com o futebol.

O projeto atende cerca de 5 mil jovens no Paraná, dos quais 4 mil só em Curitiba. O coordenador estima que a metade tem envolvimento com drogas. Nos encontros diários, os jovens trocam experiências e procuram resolver seus problemas. “A droga aparece depois. Antes são os problemas familiares, sentimentais e financeiros. Com autoestima ele sabe que é capaz”, afirma Júnior.

Para o diretor do Departamento de Políticas Públicas sobre Drogas, o acolhimento é fundamental no trabalho de recuperação. Busse destaca o papel da família no apoio aos dependentes. “É importante que as famílias mantenham um ambiente de diálogo em casa. É preciso não julgar, pois é mais provável que com a confiança o dependente pode se abrir e a partir daí acompanhar a evolução”, destaca.

Iniciativas ajudam a mudar triste cenário

Entrevistado pelo Paraná Online há um ano, o vice-presidente dos conselhos Estadual e Municipal de Políticas Públicas sobre Drogas, Marcos Aurélio Pinheiro, apresentou a situação em Curitiba com um “crescimento grande, assustador e com várias cracolândias”. Na época, ele afirmou também que não existe retração no uso das substancias químicas. Apesar de considerar que ainda faltam políticas públicas efetivas, ele aponta iniciativas que devem contribuir para uma mudança de cenário.

“A política pública nacional está aos poucos chegando ao nosso município. A política que era tímida está se tornando uma realidade”, afirma. Pinheiro conta que pelo “Plano Nacional Crack, é Possível Vencer”, do governo federal, serão abertas 100 novas vagas para internamento em comunidades terapêuticas em Curitiba. Em todo Estado serão 200 vagas com o investimento de R$ 190 milhões. O plano também prevê atendimentos pelos consultórios de rua, para atender os usuários que estão nas cracolândias.