O movimento Terra de Direitos enviou ontem um documento à ONU afirmando que a prefeitura de Curitiba não se esforça para evitar desocupações forçadas, além de não prestar assistência às famílias quem não têm onde morar, contrariando determinações feitas pelas Nações Unidas.

Segundo o advogado da entidade, Vinícius Gessolo, cerca de 400 famílias estariam nessa situação e elas prometem ficar acampadas na calçada, em frente ao terreno desocupado no último dia 23 por ordem judicial.

No entanto, o presidente da Companhia de Habitação (Cohab), Mounir Chowich, rebate as acusações e diz que a prefeitura vem desenvolvendo uma série de atividades para atender à demanda.

A ação da ONG foi motivada pela reintegração de posse de um terreno no bairro Campo Comprido onde estavam cerca de 1,4 mil famílias. A maioria voltou para os lugares onde residiam, mas um grupo ficou em frente a área e afirma que não ter para onde ir.

A presidente do Movimento Nacional da União por Moradia Popular, Maria das Graças Silva Souza, diz que procuraram vários órgãos em busca de ajuda, inclusive a Cohab, mas a única resposta encontrada foi que as famílias precisavam entrar no fim da fila que tem hoje 56,9 mil cadastros. Esta semana, os sem- teto voltam à Câmara Municipal para pedir ajuda.

Gessolo diz que a ONU esteve em Curitiba em 2005 para verificar como estavam sendo cumpridas as ações de despejo e determinou que elas não deveriam ser feitas sem negociação e a apresentação de alternativas para estes moradores.

Ele afirma ainda que, em junho deste ano, o organismo internacional pediu explicações ao Brasil sobre como a situação vinha sendo conduzida na capital paranense e outras cidades brasileiras.

Gessolo afirma ainda que advogados das famílias acampadas em frente ao terreno irão registrar boletim de ocorrência denunciando ameaças de policias militares e de seguranças que estão cuidando da área. Também iriam registrar queixa contra os atos de violência praticados por PMs no dia da desocupação.

Prefeitura

Mas o presidente da Cohab diz que a prefeitura segue as determinações da ONU. Ele cita que há quatro meses a América Latina Logística pediu a reintegração de posse de uma terreno no bairro Boqueirão e a prefeitura interveio, evitando o despejo.

Disse que a ação vem sendo repetida em outras áreas, mas em ocupações já consolidadas. Até o fim de 2012, mais 16 mil famílias de ocupações serão atendidas e mais 10 mil que estão na fila da Cohab.

Segundo ele, o problema só será resolvido se houver uma política fundiária também agressiva nas próximas gestões. Quanto ao pedido de informações da ONU, disse que não se refere a Curitiba.

Vizinhança aprova retirada

Alguns moradores da região se dizem satisfeitos com a reintegração de posse do terreno. Marisa dos Santos falou que a violência na região aumentou desde que a área terreno foi invadida.

Ela conta que um dia a amiga foi trabalhar e os moradores ficaram batendo no carro dela, assustando todos que passavam por ali. Além disso, conta que muita gente que havia conseguido um lote na área tinha propriedade na região.

A mesma opinião tem uma comerciante que não quis se identificar, temendo represálias. Ela diz que foi assaltada na semana passada e que houve dois assassinatos envolvendo pessoas que estavam na área. Além disso, afirmou que conhecia vários vizinhos que têm casa para morar, comércio e pagavam gente para guardar o terreno.

Mas há moradores que se solidarizam com as pessoas que ficaram. Rita Barbosa diz que uma boa parte das famílias não tem para onde ir. Conta que vem dando abrigo e alimentação para sete crianças e que achou errado o ,despejo. “As famílias estão sofrendo”, atesta.