Lucimar do Carmo / GPP
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Exames gratuitos foram realizados
em vários locais.

Não adiantava fugir, pois as homenagens, brindes e atividades estavam por toda a parte. O Dia Internacional da Mulher foi lembrado em Curitiba por diversos segmentos. Na maior parte das comemorações, a importância da saúde foi enfatizada, e as mulheres tiveram a oportunidade de fazer exames de graça e trocar informações com outras companheiras, que muitas vezes têm uma rotina e experiência de vida bem diferente.

É o caso da piloto do helicóptero da Polícia Rodoviária Federal, Gilda Cardona, que foi a primeira mulher a desempenhar a função  no País. Em virtude da profissão – que confessa, veio sempre em primeiro lugar – ela diz que teve que abrir mão de muitas opções para atingir seu objetivo. "Foi muito tempo de estudo, treinamento e dedicação", comenta, acrescentando que, devido a isso, foi muito difícil manter uma família. Mas apesar de tudo, afirma que valeu a pena, pois a adrenalina da profissão acaba compensando o resto. A policial Cardona atua no policiamento ostensivo na fronteira do Brasil com a Colômbia e Paraguai, combatendo o tráfico de drogas.

Com os pés, ou melhor, os pneus bem no chão, a caminhoneira Iracema Casagrande corta as estradas do Brasil há 34 anos. Atualmente ela faz o trajeto entre Curitiba e Mato Grosso, transportando máquinas, tratores e madeira. Vinda de uma família com oito irmãos, dos quais seis mulheres, Iracema é a única que sabe dirigir. Garante que foi influenciada a comandar a boléia pelo marido, Geminho Tonatto. "Ele foi meu professor, amigo e companheiro", disse. Trabalhando em uma profissão onde os homens são maioria, Iracema afirma que nunca sentiu preconceito por parte dos colegas, "pois como eles sabem das dificuldades de trabalhar na área, acabam nos respeitando". Para ela, hoje, a maior dificuldade da profissão está em encher o tanque de combustível.

Superação

Com 59 anos, quatro filhos e cinco netos, a dona-de-casa Maria Josilda Gunha é uma batalhadora. Ela consegue administrar a casa e a família mesmo tendo passado por quatro tratamentos contra o câncer – nos seios e pulmão. "Apesar de todas as dificuldades, eu enfrentei tudo numa boa, já que sempre tive fé em Deus e o apoio do meu marido", afirma. Assim como acontece com quem faz radioterapia e quimioterapia, Maria Josilda perdeu os cabelos e ainda teve de fazer a reconstituição de uma mama. Mas essas situações que mexem com a vaidade feminina, ela vem usando como exemplo para ajudar outras mulheres que passam pelo mesmo problema, através de um trabalho voluntário na Associação Amigas da Mama.

Sem terra apresentam reivindicações

O Dia Internacional da Mulher foi comemorado pelas participantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) com muitas reivindicações para acampamentos e assentamentos. As mulheres sem terra se encontraram com o superintendente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) no Paraná, Celso Lisboa de Lacerda, e com o governador Roberto Requião, para fazer pedidos nas áreas de educação, saúde e infra-estrutura.

Pela manhã, as mulheres se concentraram em frente à sede do Incra, em Curitiba, na Rua Dr. Faivre. Elas bloquearam a passagem de carros na via. Usando palavras de ordem, como "mulheres organizadas jamais serão pisadas", tentaram chamar atenção para a luta da classe.

Salete Back, integrante do movimento, disse que as dificuldades que passam as mulheres no campo não são apenas lembradas no Dia Internacional da Mulher. Todos os dias são marcados pela luta por igualdade e pela busca em melhorar a condição de vida de todos os assentados e acampados. "Hoje (ontem) não é dia de comemorar. Temos que ressaltar a resistência, a organização e a capacidade de se indignar das trabalhadoras rurais. Temos ainda muita coisa para fazer pela reforma agrária", afirma. Para ela, as mulheres conquistaram um espaço grande, mas é preciso avançar ainda mais. "Em todos os sentidos podemos avançar mais. As mulheres podem participar de suas bases e fazer com que mais companheiras conheçam o processo de negociação que faz parte de nossa luta", opina Salete.

Em audiência com o superintendente do Incra, as mulheres sem terra pediram empenho do órgão para solucionar problemas de áreas ocupadas e de conflitos no Paraná. Elas também exigiram recursos para obras de infra-estrutura nos assentamentos, como a construção de escolas e postos de saúde, além da perfuração de poços artesianos. A energia elétrica também é um problema, pois a rede ainda não foi instalada em muitos acampamentos. (Joyce Carvalho)

Estado atende cinco dos nove pedidos

Depois do encontro no Incra, as integrantes do MST fizeram uma passeata em direção ao Palácio Iguaçu, onde se encontraram com o governador Roberto Requião. Das nove reivindicações apresentadas, o governo do Estado atendeu ontem cinco pedidos (quatro referentes à educação e um quanto à participação de mil mulheres do movimento no programa Parceiras do Campo, que visa a plantação de árvores). Os pedidos de ampliação de internação hospitalar nos municípios onde existem acampamentos, a instalação de telefones e o posicionamento da Secretaria de Estado da Agricultura sobre perdas na produção nos assentamentos já foram encaminhados aos órgãos competentes. Outro tema discutido com o governador foi a implantação do sistema de agroecologia como matriz de agricultura nos assentamentos.

Durante discurso para as 800 mulheres sem terra reunidas em frente ao Palácio Iguaçu, Requião destacou a importância do movimento para a efetivação da reforma agrária e disse que o governo é solidário ao MST. O secretário de Estado do Emprego, Trabalho e Promoção Social, Padre Roque Zimmermann, anunciou ontem a obtenção de recursos federais para a criação de 150 hortas e 50 cozinhas comunitárias dentro de assentamentos do Paraná. (JC)