Há anos que a situação financeira do Hospital Evangélico preocupa a sociedade e, principalmente, seus próprios funcionários. Uma dívida de cerca de R$ 270 milhões e a má administração estaria impedindo que os servidores da casa tenham todos os seus direitos garantidos. Atrasos de salário, não recolhimento de FGTS e pagamento das férias posterior ao recesso estão sendo problemas constantes na instituição. Nos últimos meses, as dificuldades têm sido tantas que um grupo de médicos até mesmo levantou a hipótese de paralisação dos serviços.

Caso uma greve realmente acontecesse, um verdadeiro caos se estabeleceria no sistema de saúde de Curitiba e Região, já que a instituição é um dos hospitais de referência da capital. Apesar de as entidades representativas de médicos e funcionários garantirem que a notícia era só um boato e que a paralisação está fora de cogitação, a informação de uma possível greve no hospital serve como alerta a respeito da atual situação da instituição. De acordo com um médico, que prefere não se identificar, o corpo clínico do hospital está há cinco meses sem receber os honorários de consultas e cirurgias.

Além disso, os médicos estariam com dificuldades para receber os valores referentes às férias e ao recolhimento do FGTS. “Apesar de somente um grupo muito pequeno estar falando em greve, contrariando todo o restante do corpo clínico, não podemos negar que há muitos problemas no Evangélico porque o próprio hospital tem dificuldades em receber os recursos provenientes da Prefeitura e do Ministério da Saúde, que estão sempre atrasados”, conta. A dívida de cerca de R$ 270 milhões e a má administração do próprio hospital também seriam os motivos apontados por ele para o desrespeito aos direitos trabalhistas de médicos e funcionários.

De acordo com o Sindicato dos Médicos no Estado do Paraná (Simepar), há diversas ações individuais e coletivas tramitando na Justiça contra o hospital. “Antigamente, existia um repasse direto do Sistema Único de Saúde (SUS) para os médicos. A partir do momento em que os recursos passaram a ser destinados ao hospital para então serem repassados aos profissionais, eles começaram a ter problemas”, comenta a diretora do sindicato, Claudia Paola Carrasco Aguilar. Segundo ela, a entidade pretende fazer uma nova denúncia ao Ministério Público do Trabalho (MPT) a respeito desse novo atraso nos honorários dos médicos.

O mesmo acontece em relação aos demais funcionários do hospital. Apesar de não haver atrasos em salários, os outros problemas, como não recolhimento de FTGS e pagamento de férias posterior ao recesso, também são constantes entre eles. O diretor do Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos de Serviços de Saúde de Curitiba e Região (Sindesc), Natanael Marchini, conta que há pelo menos três ações coletivas tramitando na Justiça desde 2010. “Os servidores do Evangélico sempre tem que recorrer à Justiça porque logo que a instituição quita uma dívida, já é necessário entrar com outra ação porque eles voltam a fazer tudo errado”, explica.

Um funcionário, que também não quer se identificar, conta que o déficit em seu FGTS chega a ser de 100%. “Eu deveria ter R$ 20 mil de FGTS, mas fiz uma consulta esses dias e tenho só R$ 10 mil. A administração do hospital sempre diz que quem não está contente pode ir embora, mas não é bem assim. Tem muita gente que precisa desse emprego e a gente sabe, pelo volume de serviço, que o dinheiro está entrando”, comenta. Ele ainda garante que o descontentamento é geral entre os colegas, mas a maioria tem medo de entrar com ação na Justiça e ser demitido.

“É constrangedor. Tem gente que tem empréstimo no banco e não consegue pagar por causa desses atrasos e fica até com o nome sujo na Serasa”, completa. Tanto ele quanto Marchini também atribuem a dívida e a má administração do hospital ao desrespeito aos direitos trabalhistas dos funcionários da instituição. “Já pedimos para o MPT investigar o motivo de tantos problemas, mas é tudo muito nebuloso”, comenta Marchini. O Evangélico foi procurado para comentar a situação, mas informou que poderia se manifestar somente nesta sexta-feira (2).