Muitas famílias ainda negam a doação das córneas de um familiar morto. Dos 50 mil óbitos registrados no Paraná no ano passado, apenas 1.711 córneas foram cedidas ao Banco de Tecidos Oculares.

Como se não bastasse o baixo índice de doação, há um alto número de descartes: 1.090 foram para o lixo. A córnea não exige compatibilidade entre doador e transplantado e pode ser retirada em casos de morte por parada cardíaca, não só de doadores com morte encefálica, como acontece com os outros órgãos.

Os números são do Boletim Anual de Avaliação dos Bancos de Tecidos Oculares, divulgado no final de julho. No Brasil foram doadas 21.012 córneas em 2009, das quais 10.635 foram descartadas.

Grande parte do que foi eliminado estava contaminada com Hepatite B, Hepatite C ou HIV. Isso acontece porque o uso de material não esterilizado em manicures, dentistas, estúdios de tatuagem ou piercing pode transportar o vírus sem que a pessoa perceba.

“É uma doença silenciosa. A pessoa pode estar contaminada há muitos anos sem saber, e nesse período transmite a doença”, ressalta Renato Lopes, coordenador do Programa Estadual de Combate as Hepatites.

Ainda foram jogadas fora 33,7% das córneas doadas, ou seja, 3.647 (76 no Paraná), por falta de qualidade. “Isso foi antes de entrar em vigor uma nova norma: não é mais permitida a doação de córneas de pessoas entre 65 e 80 anos, devido à saúde debilitada do órgão”, explica Schirley Batista Nascimento, diretora técnica da Central de Transplantes da Secretaria Estadual da Saúde.

O prazo de validade também é um problema. Entre a retirada e o transplante devem se passar no máximo 14 dias, e por passar desse prazo 1.788 córneas foram descartadas em 2009.

De acordo com a assessoria de imprensa da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), “quando a córnea é colocada no líquido de preservação, tem sua validade determinada de acordo com as instruções do fabricante do líquido. Após esse período, a legislação estabelece que a córnea deve ser descartada ou colocada em glicerina para uso somente em outros procedimentos clínicos”.

Enquanto córneas vão para o lixo ou para o cemitério, no caso das famílias que negam a doação, 1.058 pessoas esperam pelo transplante no Paraná. Mesmo com a fila de espera expressiva, o Paraná é apontado como um dos estados com o maior número de doações, ao lado de São Paulo, Rio Grande do Sul e Minas Gerais.