Charles acusa ex-sócio e funcionário de extorsão.

O empresário Mário Alberto Charles, proprietário da marca Totobola, terá que prestar novo depoimento sobre irregularidades apontadas na loteria que comanda. Ontem pela manhã, ele foi ouvido pelo delegado do Núcleo de Repressão a Crimes Econômicos (Nurce), Sérgio Sirino, num depoimento que durou três horas. Os detalhes do interrogatório não foram divulgados. “Posso dizer que Mário Charles será convocado mais uma vez para esclarecer pontos ainda obscuros na investigação”, afirmou Sirino.

O delegado ainda disse que vai ouvir outras pessoas envolvidas com o Totobola no Rio Grande do Sul, além de já ter convocado o ex-sócio de Charles, Carlos Rodolfo Zicavo, que está em Buenos Aires. “Além disso, também chamaremos os dirigentes do Serviço de Loterias do Paraná (Serlopar), que no último ano do governo Lerner foram responsáveis pelo contrato duvidoso que permite a exploração da loteria no Paraná”, disse. O delegado também espera o resultado da perícia que está sendo feita no software que controlava os sorteios.

Sirino quer descobrir como a máquina entrou no Paraná. “Nos próximos dias estaremos investigando a lista dos ganhadores do Totobola. Queremos saber se eles realmente foram premiados ou se muitos são laranjas. Os indícios de que pessoas ligadas ao argentino recebiam informação privilegiada são fortes. Muitas poderiam ser informadas do resultado do sorteio e também do local onde estava a cartela premiada, antes que o sorteio fosse levado ao ar”, explicou.

Extorsão

Durante a tarde, Charles conversou com a imprensa e acusou Zicavo e outro ex-funcionário da empresa, João Geraldo Estrada Piberna de Carvalho – ambos responsáveis pelas denúncias contra o Totobola -, de extorsão. “Zicavo foi meu sócio até 1998 e depois trabalhou como assessor de marketing. Ele recebeu tudo que lhe era devido, cerca de R$ 160 mil até março de 2003. Depois disso por duas ou três vezes me ligou pedindo R$ 1 milhão sob ameaça de denunciar o Totobola”, contou. Ele disse que não havia razão para que a loteria fosse denunciada, por isso não deu o dinheiro a Zicavo. Charles afirmou que errou ao não ter comunicado a ninguém a extorsão sofrida. Ele disse que Carvalho também lhe pedia dinheiro. “Ele queria receber mensalmente”, revelou.

Legal

Charles afirmou que a máquina “bingueira” do Totobola só era com leitor óptico e código de barras nas bolinhas para evitar contato manual. “A máquina não teve nenhuma manipulação. O sistema não permite”, afirmou, destacando que em momento algum a empresa tentou manipular o resultado do jogo para que o prêmio ficasse acumulado. “Vendíamos entre 150 e 200 mil cartelas por sorteio. Eram imprimidas 300 mil e o número de combinações possível era de mais de três milhões. Logo a possibilidade do prêmio acumular era de 94%. Não precisávamos manipular nada”, contou, destacando que o prêmio principal, após dez vezes acumulado, era dividido para quem acertou 14 números.

Charles disse que o Totobola no Paraná estava sendo sustentado pelos bilhetes vendidos no Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Em pouco menos de dois anos, a loteria acumulou um prejuízo de R$ 1 milhão. Quanto ao fato de o sorteio ser gravado, Charles disse ser exigência das emissoras de televisão. O empresário apresentou uma lista com nomes, endereços e números de documentos de ganhadores de prêmios principais do Totobola. Ao todo a loteria teria contemplado 1,5 milhão de pessoas com prêmios.