Foto: Elias Dias/Itaipu Binacional

 Participaram do debate, na semana passada, representantes da Eletrosul, Eletrobrás, Furnas e Eletronorte, Unifem e OIT.

?A humanidade é como uma ave. Tem duas asas. Uma é o homem, a outra a mulher. Somente se as duas forem impulsionadas com a mesma força, a ave poderá levantar vôo.? A frase de Bahai?lá, fundador da Comunidade Bahai, no século XIX, traduz a essência da eqüidade de gênero, cujo objetivo é contribuir para equilibrar as relações de trabalho e convívio entre homens e mulheres.

O tema ganhou espaço de debate no Brasil com a criação do Comitê Permanente de Gênero do Ministério de Minas e Energia que, ao lado de mais dez ministérios, está trabalhando para a ampliação do direito à cidadania das mulheres. Curiosamente, o setor elétrico, predominantemente masculino, está se destacando com ações efetivas nas questões de gênero, reforçando o trabalho de combate à violência contra a mulher. Os resultados das ações realizadas no último ano foram objeto de debate em um encontro realizado durante a semana passada, na Itaipu Binacional, em Foz do Iguaçu. O evento contou com a presença de representantes da Eletrosul, da Eletrobrás, Furnas e Eletronorte, do Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (Unifem) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

A força de trabalho do comitê tem muito do empenho da diretora financeira da Itaipu Binacional, Gleisi Hoffmann, coordenadora de honra das questões de gênero da Itaipu. Ocupando um cargo de destaque dentro da empresa, Gleisi teve o acesso necessário para iniciar os trabalhos. ?No início houve uma resistência masculina natural à implantação do projeto de gênero, porém aos poucos fomos ganhando espaço e confiança para desenvolver as ações?, diz Gleisi. Ela ressalta que hoje as mulheres têm conquistado cada vez mais espaços no mercado de trabalho, porém em cargos de destaque, como o que ela ocupa, ainda são poucas e isso dificulta a eqüidade. ?Ainda somos poucas em cargos de decisão, uma prova de que ainda há muito o que fazer, especialmente no mercado de trabalho. É necessário que se dê condições iguais de desenvolvimento profissional.?

Na Itaipu, as condições de competitividade entre homens e mulheres vem sendo dada com algumas ações simples, mas com efeito extremamente positivo. Após a formação de um grupo de debates sobre as questões da mulher em 2004, em março deste ano foi desenvolvida uma série de atividades, em comemoração ao mês da mulher. Os trabalhos foram concentrados em questões de conscientização.

Porém, as grandes conquistas profissionais foram a maleabilidade da grade de horário, que permite compensações nos horários de entrada e saída na empresa, possibilitando que as mulheres levem os filhos à escola e a possibilidade de acompanhamento das mães às consultas médicas dos filhos. Também foi permitida a saída no Dia das Mães, para acompanhamento às atividades dos filhos. ?O sucesso foi tanto que foi estendido aos homens, para que eles possam participar na escola de seus filhos do Dia dos Pais.?

Nucria tem papel fundamental no Estado

Foz – A violência contra a mulher não é apenas um caso de saúde pública, mas também de polícia. A Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp), ciente da gravidade do problema, instituiu a criação dos Núcleos de Crimes contra Crianças e Adolescentes (Nucria). Pela faixa etária de agressão contra o sexo feminino, o Nucria de Foz do Iguaçu vem tendo papel fundamental no combate à violência contra a mulher.

A delegada Mônica Ferracioli, titular do Nucria em Foz, é a responsável pela recepção de vítimas femininas até 18 anos. ?São muitos os casos de maus tratos, abuso sexual e exploração sexual?, diz.

Na prática, a delegacia faz uma triagem de cada caso e procede de duas formas. Nos casos mais graves, é instaurado um inquérito policial. Nos outros, geralmente relativos aos maus tratos, é feito um termo circunstanciado, que geralmente resulta em pagamento de cestas básicas. ?A grande dificuldade que temos nos dois casos é a colaboração das testemunhas. Como geralmente os crimes acontecem no âmbito familiar, as pessoas ficam receosas em sofrer represálias caso deponham contra os criminosos?, diz. (GR)

Uma agressão a cada quinze minutos

Foz – A próxima sexta-feira, dia 25, marca o Dia Internacional do Combate à Violência contra a Mulher, um problema mundial que atinge o sexo feminino independente de raça, credo ou situação financeira.

Dados fornecidos pelo Comitê Permanente de Questões de Gênero do Ministério de Minas e Energia (MME), revelam números alarmantes. No Brasil, a cada 15 minutos uma mulher é agredida e, em 70% dos casos, as agressões acontecem no âmbito familiar. De todas as lesões, 40% são consideradas graves, o que provoca reflexo direto no trabalho. Um em cada dia não trabalhado pelas mulheres é reflexo de violência, que também termina por sobrecarregar o sistema de saúde. Entre as mulheres, a violência causa mais mortes do que câncer, malária e acidentes de trânsito.

A consultora de Gênero da Itaipu, Moema Viezzer, trabalha há 30 anos com questões de gênero e define a violência contra a mulher como um problema de saúde pública. ?Não há como fugir disso. Daí a necessidade de ações em parceria com o setor público?, diz.

Porém a violência física, praticada no âmbito particular, não é única. As mulheres, em pleno século XXI, sofrem todos os tipos de abuso no setor público, dentro das empresas ou no mercado de trabalho. ?Há os assédios sexual e moral, a violência sexista e o direcionamento das mulheres a posições menos favorecidas?, diz Thaís Faria, da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

A advogada faz um vínculo direto do trabalho das mulheres com a situação de submissão. ?Através do trabalho, a mulher ganha condições de emancipação, que é a libertação da vulnerabilidade?, explica. (GR)

Casa de Abrigo: auxílio às vítimas

Foz – Por estar em uma região fronteiriça, Foz do Iguaçu constantemente vira notícia com questões de prostituição infantil e exploração sexual de mulheres. A problemática, porém, vem ganhando importantes ferramentas de trabalho no combate não somente a esse tipo de violência.

Com incentivo da Itaipu Binacional, foi criada a Casa de Abrigo, uma entidade que recebe mulheres vítimas de todos os tipos de violência. ?O mais comum são mulheres vítimas de violência doméstica e estupro?, diz a monitora Roseli Vieira. A casa conta com apoio de psicólogos, de assistentes sociais, pedagogos e de monitores.

C. é uma dessas mulheres. Ela foi para o abrigo após quase ser enforcada pelo ex-marido, que a abandonou. ?Dei queixa duas vezes, mas só vim para o abrigo quando houve a tentativa de enforcamento.? Ela optou por deixar a filha de três anos com um casal de amigos e pretende retomar a vida tão logo o agressor seja preso. ?Ele está foragido e aqui me sinto segura.?

Atendimento

Outro parceiro importante das mulheres vítimas de agressão em Foz é o Hospital Ministro Carlos Cavalcanti, mantido pela Fundação Itaipu. Em parceria com a Secretaria Estadual da Saúde, Delegacia da Mulher, Instituto Médico-Legal (IML) e Poder Judiciário, foi criado um programa específico para o atendimento às mulheres. ?Nós recebemos mulheres por procura espontânea ou encaminhadas pelas delegacias ou conselhos tutelares?, diz o diretor do hospital, Anílton José Beal. O programa atendeu, de setembro de 2004 a maio de 2005, 93 mulheres e meninas. Dessas, 56% tinham entre 13 e 21 anos e 21% entre sete e 12. (GR)

Em Curitiba, palestras na Câmara Municipal

Elizangela Wroniski

A violência contra a mulher é um problema que preocupa no mundo todo e, no Brasil, não é diferente. Segundo dados da Sociedade Mundial de Vitimologia, com sede na Holanda, 23% das mulheres brasileiras estão sujeitas à violência doméstica.

Curitiba não ficou de fora do debate sobre o tema e até sexta-feira, Dia Internacional do Combate à Violência contra a Mulher, acontece uma série de palestras na Câmara Municipal, envolvendo vários setores da sociedade.

O coordenador do Centro de Estudos em Segurança Pública e Direitos Humanos da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Pedro Bodê, abriu o ciclo de palestras ontem, e fez uma análise da origem de todo o problema.

Segundo ele, as relações estabelecidas entre homens e mulheres na cultura do latifúndio e na escravidão, onde a mulher era vítima de uma série de agressões, se mantém até hoje e não é à toa que as mulheres negras e pobres são as principais vítimas.

Para o coordenador, só as leis não bastam para resolver o problema. Ele diz que a sociedade precisa criar eventos para debater a situação da mulher. ?É preciso mudar a cultura. Só as leis não conseguem fazer isso, é preciso discussões como essas?, enfatiza.

Para a presidente da Comissão dos Estabelecimentos Prisionais, Lúcia Dias, a falta de informação também desfavorece as mulheres. ?Por não conhecer seus direitos, se submetem a violência. Em casos graves, os juízes mandam o marido violento sair de casa, mas pouca gente sabe?, exemplifica.