Entre 5% e 8% da população em idade escolar e superdotada, mas a maioria não recebe atendimento diferenciado nas escolas, segundo a especialista em educação Maria Lúcia Sabatella. Isso ocorre porque os professores não foram preparados para diagnosticar a superdotação e a situação causa uma série de problemas. Crianças não atendidas sofrem e correm o risco de se tornar adultos desajustados.

Para Sabatella, o número de crianças atendidas nas escolas é muito pequeno. Segundo ela, muitos alunos podem estar sofrendo com a situação, sem que ninguém se dê conta. As conseqüências são preocupantes: quando entrarem na fase adulta poderão se tornar pessoas desajustadas, se isolando do convívio social. Outros simplesmente escondem o seu potencial para não serem vistos como pessoas diferentes. Só no Instituto para Otimização da Aprendizagem (IPDO), coordenado por ela, são acompanhadas mais de quatrocentas crianças em Curitiba e região.

De acordo com Sabatella, a criança ou adolescente superdotado não se ajusta à mesmice da escola, que se preocupa apenas em trazer todos os alunos até a média e não em ir além com aqueles que têm capacidade para isso.

Geralmente, quem não tem atendimento diferenciado começa a dar trabalho ao professor. Eles entendem na primeira explicação e não agüentam ficar repetindo atividades até que os colegas aprendam. Também não aceitam explicações superficiais e não param de perguntar e questionar até que o assunto seja completamente esgotado. Essas e outras situações acabam fazendo com que o superdotado se desinteresse pela escola ou ainda que apresente baixos resultados, ansiedade, depressão e instabilidade.

Reclassificação

Sabatella explica que a escola pode suprir as necessidades dessas crianças e adolescentes através do enriquecimento do currículo. Outra alternativa é reclassificá-los para uma série posterior. Mas ela critica o excesso de burocracia que existe para colocar isso em prática.

Segundo a chefe do Departamento de Educação Especial, Angelina Matiskei, várias escolas do Estado realizam atividades diferenciadas com alunos, mas não soube citar quais. Com atividades complementares, o aluno estuda os mesmos conteúdos que os colegas, mas de modo mais aprofundado. Angelina reconhece que existe falha no diagnóstico de crianças superdotadas. Ela explica que isso ocorre porque as faculdades e universidades não colocaram essa especificidade em seus currículos na hora de formar professores. Angelina diz que a intenção da nova direção, que assumiu o departamento no governo Requião, é de promover cursos e capacitar os professores.

Antecipação de série pode ajudar

Elizangela Wroniski

Israel Luiz Rosa, de 12 anos, aluno do Colégio Estadual Anita Canet, na Fazenda Rio Grande, Região Metropolitana de Curitiba, passou pelo processo de reclassificação há dois anos. Em 2001, fez a quinta e a sexta séries, em 2002 a sétima e agora está na oitava série. A orientadora educacional da unidade, Angela Maria Vieira, lembra que Israel não se ajustava à quinta série, pois já dominava os conteúdos. Mas a mudança não foi fácil para ele: o medo de avançar e depois não corresponder às expectativas fez com que tivesse que receber até acompanhamento médico. Também foi realizado um trabalho psicológico envolvendo pais, professores e colegas para evitar que ocorressem cobranças. Israel tem alta habilidade para disciplinas de história, geografia e português, mas não tem o mesmo potencial em relação a matemática. Por isso, quando não ia bem, tinha que ouvir gracinhas. “Tinha medo, todo mundo dizia que eu era inteligente. Se eu errava tinha gente que pegava no meu pé”, diz. Hoje ele ainda tem medo das cobranças.

A mãe Sara Gonçalves Rosa e o pai Gilberto Rosa contam que Israel com três anos e meio já sabia ler as horas e, antes disso já rabiscava as paredes da casa da avó com letras e números. Ele também não era muito ligado aos brinquedos, gostava mais de livros, gibis, papel e caneta. Não é à toa que tem em casa hoje perto de trezentos livros. “Ainda não li todos”, diz.

Quando entrou na primeira série já lia e escrevia fluentemente. Costumava responder as perguntas antes dos colegas e levava broncas por isso. “Não entendia por que eu não podia responder se eu sabia a resposta”, lembra. Mas, mesmo com todas essas dificuldades, ele diz que não se chateava em ir para a escola, já que ajudava os colegas e emprestava os livros da professora.

Atualmente passa o tempo livre lendo as enciclopédias que conseguiu na escola e freqüenta uma escolinha de futebol. Joga como zagueiro e confessa que não é um dos melhores jogadores. Mesmo com 12 anos na oitava série, diz não ter muitos problemas com os colegas mais velhos. Mas a mãe está preocupada, porque no próximo ano ele vai para o Ensino Médio, que é oferecido só no turno da noite na escola. “Gostaríamos de ganhar um bolsa para ele estudar no próximo ano de manhã”, diz.

Para a professora Maria Aline da Veiga, parte do potencial do aluno não está sendo desenvolvido. Não só ele, como os demais alunos do colégio, não têm acesso a um laboratório de informática e de ciências. Ela acha que Israel deveria também realizar atividades extracurriculares.

Quem são os superdotados?

Superdotados são indivíduos que apresentam uma ou mais habilidades em níveis consistentemente superiores, quando comparados à média da mesma idade e experiência, em qualquer campo do saber ou do fazer. Há diversas áreas de superdotação, e os talentos estão presentes em todos os grupos culturais e em todas as camadas econômicas. Na maioria dos casos, o superdotado aprende de modo rápido sem necessitar de repetições; tem senso de humor incomum e sofisticado; é sensível a injustiças; demonstra habilidade para leitura e escrita mais cedo que outras crianças; mostra curiosidade e originalidade e faz um número ilimitado de perguntas; tem vocabulário avançado e utiliza as palavras de modo apropriado; resolve problemas e processa idéias de maneira complexa.

E encontra soluções inesperadas e originais. (Fonte IPDO)