Pimentão, abacaxi e morango são os alimentos que apresentam maior acúmulo de agrotóxicos. É difícil perceber visualmente que há este tipo de produto químico nas hortaliças e frutas. A ingestão acaba sendo inevitável, mesmo seguindo todas as orientações para lavagem. O consumo de agrotóxicos pode causar uma série de doenças, especialmente cancerígenas. Quem aplica os agrotóxicos nas lavouras pode também sofrer alterações no sistema nervoso central, segundo Paulo Santana, chefe da Vigilância Sanitária da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa).

Para tentar diminuir a quantidade de agrotóxico nos alimentos, os produtores rurais e comerciantes do Paraná serão abordados em ações educativas. Este é o primeiro passo do Programa Estadual de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos, lançado neste mês pela Sesa. A partir do início de 2012, equipes farão a análise de amostras, que podem basear a implantação de novas medidas. A Vigilância Sanitária dos municípios ficará responsável pela fiscalização e por promover o rastreamento dos produtos. “Queremos saber a origem do alimento, qual plantação, qual lavoura”, explica Santana.

Saúde em risco

Ubirani Barros Otero, da área de vigilância do câncer relacionado ao trabalho e ambiente do Instituto Nacional do Câncer (Inca), revela que ainda não há estudos que confirmam o surgimento de tumores em pessoas que consomem alimentos com agrotóxicos. “Pode acarretar, mas ainda não se sabe com certeza. Mesmo assim, a nossa orientação é pela preferência pelos alimentos livres de agrotóxicos (orgânicos). Mas sabemos que estes produtos ainda são caros. A população deve começar a pressionar os produtores por mais alimentos livres de agrotóxicos. O produtor, se pressionado, vai se preocupar em oferecer”, afirma.

Se não houver condições financeiras de adquirir produtos orgânicos, deve-se consumir hortaliças e frutas normalmente. Os alimentos devem ser muito bem lavados antes da ingestão. “O que a gente sabe com certeza é que este tipo de alimento previne o surgimento de alguns tipos de câncer. Por isto, devemos ter os cuidados de lavar bem para minimizar a quantidade de agrotóxicos”, alerta.

Pior pra quem usa

Ela lembra que os produtores que aplicam os agrotóxicos nas lavouras correm mais riscos diretamente, apresentando efeitos agudos como dores de cabeça e paralisia de membros do corpo. O câncer é uma doença crônica, que demora para aparecer, e também pode se manifestar nesta parcela da população. “Embora os estudos não sejam conclusivos, há o entendimento em trabalhos recentes que os riscos são elevados, especialmente nos cânceres hematológicos (linfomas e leucemia), de estômago, de fígado e de mama”, relata Otero.

Impróprios estão na feira

O Paraná já participa do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (Para) da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Os últimos dados nacionais, referentes a 2009 e publicados em 2010, indicam que houve a reprovação de 80% das amostras analisadas de pimentão, 56% das amostras de uva, 54% de pepino, 50,8% de morango, 44% de couve e 44% de abacaxi. O menor índice foi registrado nas amostras da batata: 1,2% de reprovação.

Entre os estados, o Paraná ficou em primeiro lugar na quantidade amostras insatisfatórias. Foram 140 amostras analisadas no total, sendo 48 reprovadas. Isto representa 34%. É a mesma proporção do Piauí, mas que enviou 119 amostras e que teve reprovação de 40 delas.

O Paraná monitorou 20 alimentos (abacaxi, alface, arroz, banana, batata, cebola, cenoura, feijão, laranja, maçã, mamão, manga, morango, pimentão, repolho, tomate, uva, couve, beterraba e pepino). As escolhas foram baseadas nos índices de consumo ,e disponibilidade nos supermercados em todo o País, além do conhecido uso de agrotóxicos nestas culturas.

A principal irregularidade detectada foi a presença de agrotóxicos não autorizados para aquela cultura específica (23,8% do total das amostras). As duas outras constatações negativas foram presença de agrotóxicos acima dos índices indicados no Limite Máximo de Resíduos -LMR (2,8% do total de casos) e resíduos acima dos níveis aceitáveis juntamente com produtos não permitidos para aquele alimento (2,4%).