Foto: Aliocha Maurício/O Estado

Menina Mulher trabalha há dez anos na capacitação de mulheres visando ao mercado de trabalho.

Trabalho voluntário e poucos recursos por uma causa e com um objetivo: mudar a realidade. Em resumo, esse seria um ?raio x? das organizações não governamentais (ongs) que, no chamado terceiro setor, se multiplicam em todo o País. No Brasil, são mais de 250 mil. No Paraná, segundo estimativa da Federação Paranaense de Fundações e Entidades Sociais, são quase 5,5 mil organizações que lutam pelas mais variadas causas – desde a proteção ao meio ambiente e animais, até apoio às crianças, mulheres e homossexuais.

?Depois da década de 80 foi que as ongs começaram a se multiplicar em vista de suprir algumas carências da sociedade, porque o governo não dá conta de suprir todas as necessidades, principalmente as sociais. É também responsabilidade da própria sociedade, até para que não perca a noção de solidariedade?, explica o presidente da federação, José Alcides Marton da Silva.

O número de organizações cresce, mas mudar uma realidade, melhorando-a, não é um trabalho fácil. ?Ainda falta a cultura do voluntariado e a cultura da solidariedade. A sociedade deve ter consciência de que todos os cidadãos são responsáveis pelas instituições filantrópicas que existem na comunidade e que devem colaborar, com tempo, serviço ou até doações, porque todas elas precisam e vivem disso?, afirma Alcides.

Luta

Por mais de 33 anos, em Curitiba, a Associação Difusora de Treinamentos e Projetos Pedagógicos (Aditepp) trabalha com a organização popular, principalmente buscando a mudança econômica e social das comunidades. Com cinco funcionários – alguns voluntários – hoje a ong atua com dois projetos – um de alternativas de geração de renda e outro de cidadania participativa -, financiados por instituições internacionais, e o dinheiro para manter a organização funcionando vem da venda de um produto exclusivo enviado pela Alemanha. ?Esse trabalho é importante porque hoje muita gente não tem um trabalho formal. O que fazemos é dar dicas de sobrevivência mesmo, mostrar que as pessoas podem gerar renda dentro da própria casa, a partir do que sabem fazer. Sempre tem procura?, explica Valdir de Oliveira, que há sete anos trabalha na ong.

Trabalhando com outra causa, mas com o mesmo esforço, a Ciranda, desde 98 em Curitiba, também tem uma missão: ?De desenvolver e promover o direitos das crianças e dos adolescentes através da mídia e da comunicação?, como explica Joelma Ambrózio. O trabalho da ong começou da iniciativa de sete estudantes de jornalismo, voluntárias da rede de Agências de Notícias dos Direitos da Infância (Andi). Hoje, ainda trabalhando como a única representante da Andi na região Sul, a Ciranda expandiu e intensificou os trabalhos, dividindo-os por núcleos: Mídia e Educação e Comunicação e Informação, cada qual com seu projeto.

Tentar mudar essa outra situação também não é uma tarefa simples. ?Na hora de buscar apoio, é difícil você convencer que vai mudar a realidade das crianças e dos adolescentes através da comunicação. A gente tem as idéias, faz os projetos, envia para serem aprovados e tenta conseguir viabilizá-los?, explica Joelma. Porém, tanto esforço parece valer a pena. ?Primeiro a gente acredita no que faz e vê resultados gradativos e sabemos que a comunicação é muito importante. É preciso cada vez mais trazer essa questão da criança, utilizar esses veículos, para cobrar os direitos?, completa.

O trabalho da sociedade, quando se organiza, é muito especial. ?A ong não é como uma empresa. Todas trabalham porque querem mudar alguma realidade?, resume a representante da Ciranda, Joelma Ambrózio.

Mulheres

No Parolin, uma das ongs que atua e têm papel bastante expressivo é o Centro de Convivência Menina Mulher (CCMM). Há dez anos, a ong capacita as mulheres para que tenham acesso ao mercado de trabalho. Trabalha com orientações diversas, tem atividades para cerca de 80 portadoras de HIV e ainda oferece cursos, até de ballet, para cerca de 200 meninas de 7 a 18 anos. É um trabalho muito especial, feito com muito esforço. ?Temos cinco funcionários, mas mais de 20 voluntários, inclusive psicólogos e professoras – de artesanato e ballet. O dinheiro para os projetos vêm das parcerias e a gente tem dificuldade, por exemplo, em pagar a conta do telefone. A nossa sede é pequena pela demanda que atende. Mas do nosso trabalho já vemos os resultados, que são gratificantes. Não consigo imaginar a situação dessas meninas e mulheres se não existíssemos ou outra ong que trabalhasse com esse objetivo?, afirma a coordenadora de um dos projetos Menina Mulher, Maris Estela Hallu.

Entidades protegem o meio ambiente e os animais

Outras ongs não trabalham pelas pessoas, mas têm o mesmo empenho e as mesmas dificuldades em prol de uma causa. Em Araucária, existe a Associação de Defesa do Meio Ambiente (Amar), uma das mais antigas, formada em 1983. Como qualquer ong, não tem fins lucrativos e, com, no máximo, 40 associados, está sempre no vermelho. ?A Amar não nasceu por modismo ambiental, mas porque depois da instalação do pólo industrial em Araucária veio toda a problemática, principalmente da poluição, e os moradores da região, que até então era agrícola, começaram a sentir. A procura sempre foi muito grande. Recebemos muitos pedidos de socorro e denúncias sobre agressões ao meio ambiente?, explica a presidente da ong, Lídia Lucaski.

No início, a Amar atuava organizando manifestações públicas e palestras nas escolas e com os agricultores. Não vendo resultados desta forma, a estratégia passou a ser outra, mas o trabalho árduo continua. ?Começamos a entrar com ações civis públicas. Hoje estamos com quase cem ações na Justiça. Tem ainda 120 denúncias que não estamos podendo atender, por conta das limitações?, relata Lídia. A ong trabalha com sete profissionais – biólogos, agrônomos, advogados -, todos voluntários. ?A gente faz serviço de utilidade pública, com recursos inexistentes, mas dedicação total. É importante tentar salvar um pouco do que nos resta. É difícil, mas é o papel da sociedade civil?, conclui.

Resultados

Com essa mesma dificuldade, a ong SOS Bicho, em quatro anos de atuação, já conseguiu fazer com que a situação de maus tratos aos animais, em Curitiba, recebesse a atenção merecida. Também fez com que a câmara de gás, utilizada no sacrifício de animais, fosse fechada e ainda que um Conselho Municipal sobre o tema fosse instalado. Hoje, luta, entre outras batalhas, para que não seja permitida a instalação de circos que trabalham com animais no município. Para tanto trabalho, a ong conta com 13 membros fixos, voluntários, e o dinheiro para os gastos vem dos próprios bolsos. A dificuldade é manter o número de voluntários e doações, por não haver uma ?vitrine de bichos? e trabalhar apenas com mobilização política para mudar a realidade dos animais. ?Se não existissem as ongs de proteção dos animais, não teria quem zelasse por eles?, diz a presidente da ong Rosana Gnipper. (NF)