Quem nunca foi a Matinhos na temporada de verão e não deu aquela passeada numa das feiras que são montadas no Centro da cidade? Neste ano, por causa da pandemia, os organizadores precisaram quebrar um pouco a cabeça para pensar numa forma de manter a tradição, mas sem expor os trabalhadores e clientes. É o caso da feira Mixage, que reúne feirantes do Brasil todo e até de fora do país, e que, entre outras medidas, reduziu sua capacidade para evitar aglomerações.

Marlene Aparecida Cesarin Ferreira é a organizadora da feira Mixage desde o começo, em 1996. Ela contou à Tribuna do Paraná que foram muitos meses trabalhando e articulando como faria para manter o projeto em meio à pandemia. “A nossa primeira medida foi trocar o ar condicionado. Lutamos muito para tê-lo em nossa feira, mas percebemos que o momento exigia um controle maior e resolvemos trocá-lo por um climatizador”.

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O climatizador usado na feira faz com que o ar circule e seja trocado praticamente minuto a minuto. “Contratamos um especialista, que fez o cálculo para que o ar fosse eliminado, trocado, de forma permanente. Tivemos que pensar nisso para conseguirmos não só estarmos seguros, como também receber as pessoas em segurança”, explicou a organizadora.

Outras medidas também foram tomadas para manter a segurança de quem vai às compras e a principal delas é o álcool em gel já na entrada da feira. “Nós não só deixamos o álcool disponível para quem quiser, como também já passamos em todos os clientes que entram, ao mesmo tempo em que têm suas temperaturas medidas. Além disso, ainda deixamos máscaras disponíveis caso a pessoa esteja sem”.

Ao longo de pouco mais de um mês em que a feira está ativa em Matinhos, Marlene disse não ter visto nenhum problema. “Temos observado uma disciplina muito legal por parte dos consumidores. As pessoas estão respeitando, não estão tirando as máscaras, não botam a mão em tudo, ficam distantes. É muito bom ver que as pessoas têm consciência. Raramente a gente tem que abordar alguém”.

Climatizador renova o ar do ambiente para garantir segurança. Foto: Divulgação.

Movimento caiu, mas há esperança

Por causa da pandemia, os feirantes perceberam que o movimento não é o mesmo de anos anteriores. “Em 25 anos de feira, nunca imaginamos que um dia iríamos passar por algo do tipo. E olha que já passamos por muita coisa, até crise financeira, mas não dessa forma como agora. Essa pandemia impactou tudo”, relata Marlene.

Dos 50 feirantes que costumavam expor seus trabalhos, neste ano são 25. O movimento de janeiro, que não foi o mesmo do ano passado, por exemplo, assusta um pouco. “As vendas não estão correspondendo ao que era nos outros anos. Mas entendemos o momento. Os consumidores não estão deixando de comprar, mas estão fazendo compras mais equilibradas, compram o que realmente precisam. As pessoas passaram a avaliar melhor o que vão comprar, o que também é uma coisa boa, porque a pessoa já vem sabendo o que quer. Entra, compra e sai”.

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Além de organizar a feira, Marlene também é feirante, vendendo roupas de sua própria fábrica. Como vendedora, ela destaca que estar numa feira, depois de um ano tão complicado, é um sopro de esperança. “Passei por um momento muito difícil neste ano, fechamos em março e voltamos para a loja em setembro. Não tivemos como vender, nem atender o público. Trabalhei produzindo máscara, ensinamos muita gente a usar e como higienizar as mãos. Tive que diminuir muito o nosso quadro de funcionários na fábrica e foi a partir de setembro que começou a poder voltar, mas aos poucos. Estar na feira parece até algo surreal”.

Marlene organiza a feira há 25 anos. Foto: Arquivo Pessoal.

Feirantes do Brasil e até de fora!

A feira Mixage, assim como as outras que Matinhos recebe todos os anos, reúne gente de várias regiões do país. Além do Paraná, os feirantes viajam do Rio Grande do Sul, de São Paulo, Minas Gerais, de estados da região Nordeste e até de fora do Brasil, como é o caso de quatro feirantes do Senegal. Muitas destas pessoas passam o ano se preparando para, em dezembro, estar no litoral paranaense. “Em 2020 em especial, praticamente todos os feirantes passaram o ano sem trabalho, porque permaneceram em cidades que estavam fechadas”, contou Marlene.

Victor Zanesco de Marco, 34 anos, é de São Paulo e vende roupas masculinas há cinco anos na feira de Matinhos, mas sua história vem de muito antes. “Meu pai participou da primeira feira, há 25 anos. Tínhamos uma malharia e ele vinha todos os anos. Depois, por problemas pessoais, paramos e eu acabei tocando um novo projeto, já sabendo que a feira me receberia de braços abertos. É muito legal ver o quanto Matinhos se mistura com a história da nossa família”.

O empresário, que disse ter vontade até de se mudar para a cidade do litoral paranaense, concordou com Marlene no que diz respeito ao movimento da feira. “Caiu uma média de mais de 50% de gente andando na feira. Em contrapartida, acredito que de venda mesmo, a redução não seja tão grande no fim das contas, porque as pessoas que entram acabam comprando. Caiu aproximadamente uns 30% nas vendas”.

Victor disse que, depois de ter ficado parado muito tempo em 2020, a sensação de poder estar na feira é incrível. “É importante para nós porque, querendo ou não, é o nosso principal meio de trabalho. As pessoas tomando os cuidados, nós também, os riscos são bem menores e conseguimos”.

Representando outra fábrica de roupas, também de São Paulo, a vendedora Dulce de Oliveira, 69 anos, completa neste ano 21 anos de feira em Matinhos. “Fiquei parada de março a setembro, trabalhei um pouco até dezembro. Estar aqui, ainda mais depois de tudo que viemos, é uma experiência que não consigo descrever”.

Conforme Dulce, “a feira representa a esperança de ajudar quem tanto sofreu no período mais crítico da pandemia”. Além disso, lembra a vendedora, também movimenta a economia local. “Além da questão do turismo, que fazemos com que as pessoas gastem na cidade, a feira traz emprego para as pessoas de Matinhos, pois praticamente todos os boxes contratam moradores. Um vai ajudando o outro, sempre foi assim ao longo destes anos”.

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Foto: Arquivo Pessoal.

Vendendo produtos mineiros, dos mais variados, Joel Estevam, 48 anos, vem do Vale da Canastra, em Minas Gerais. Para ele, a pandemia acabou sendo um empecilho no que diz respeito às vendas. “Muitas das nossas vendas a gente consegue por oferecer uma degustação para os clientes. Por causa da covid, as pessoas têm sentido medo de provar, tirar a máscara e tudo mais. Mas ao mesmo tempo tenho percebido o respeito e a fidelização dos clientes, o que é muito legal”.

No ano passado, Joel precisou se reinventar e começou a fazer entregas de produtos mineiros por delivery. A feira de Matinhos é a terceira que ele participa desde o fim de 2020 e mostra que, aos poucos, as coisas vão se estabelecendo novamente. “Estar na feira é sempre uma aposta que a gente faz, porque nada é garantido. Tivemos a oportunidade de fazer outras duas feiras antes de chegar ao litoral, mas para a gente é uma sensação de recomeço mesmo. Tínhamos que ter essa parceria, porque a feira basicamente é de acreditarmos no que estamos fazendo”.

De queijo a café, cachaças e doces variados, Joel comercializa produtos que são trazidos de 32 fornecedores diferentes. “Os melhores de Minas. Além dos queijos tradicionais, temos também os queijos mais exclusivos, premiados nacionalmente ou até internacionalmente. Temos opção para todos os bolsos, de quem quer pagar menos a quem pode pagar um pouco mais”.

Medição de temperatura e o álcool já na entrada faz com que visitantes se atentem aos cuidados. Foto: Divulgação.

Bora aproveitar e ajudar os feirantes?

Os feirantes, que estão trabalhando com preços convidativos, acreditam que, embora janeiro tenha sido fraco, quem deixou de ir para a virada do ano acabe aproveitando alguns dias na praia ao longo dos próximos meses. Se você estiver no litoral, que tal aproveitar e dar uma passada? A feira Mixage fica na Rua Aldo Viana, 507, Centro de Matinhos, até o dia 7 de março e funciona sempre das 15h30 às 23h. Para trazer ainda mais segurança, a praça de alimentação foi separada, pois aí ninguém circula sem máscara pela feira.