Quando Vitorino Xavier decidiu, há 21 anos, oferecer um prato de comida às crianças que viviam pelas ruas do Jardim da Ordem, no Tatuquara, ele não poderia imaginar que estava dando início a um projeto que mudaria a vida de centenas de pessoas. Seu espírito solidário foi a inspiração para a criação da Associação Vovô Vitorino, entidade com história de sucesso e de muito trabalho para oferecer futuro melhor para a comunidade da região sul de Curitiba.

Em 1992, cerca de 200 famílias que viviam na antiga Ferrovila ou estavam na fila da Cohab se mudaram para a região que ficou conhecida como Jardim da Ordem. Vitorino foi um dos que construíram ali sua nova casa. Para complementar a renda, botou a cozinha para funcionar a todo vapor e passou a cozinhar por encomenda.

Na época, o bairro não tinha creches nem escolas e os pais que saíam para trabalhar não tinham onde deixar seus filhos, que ficavam pela rua mesmo. E o cheiro de comida que vinha da casa de Vitorino logo começou a chamar a atenção da criançada, que passou a se concentrar em frente a seu portão. Vitorino passou então a alimentar a garotada e contar histórias que aprendeu na época em que vivia em Ivaiporã, no interior. Sua simpatia conquistou piazada, que passou a chamá-lo de Vovô Batuta.

Raízes

Marco André Lima
Quem quiser ajudar pode conhecer o projeto na Festa da Primavera.

A cada dia, a turma aumentava em frente ao portão. Mas alguns meses depois, um acidente de trânsito tirou a vida de Vitorino, aos 63 anos. Parecia o fim da bela história do velhinho boa praça do Jardim da Ordem. Porém, sua solidariedade criou raízes bem mais profundas do que ele poderia imaginar. “Quando faleceu, viemos ver o que ele tinha deixado. As crianças viram o movimento na casa e vieram perguntar onde estava aquele vovô batuta que cuidava delas”, conta Maria Julia Xavier, filha de Vitorino.

Sem ajuda do poder público

Marco André Lima
Crianças de 3 a 5 anos são abrigadas durante o dia.

Em parceria com o Ministério Público, o grupo do Vovô Vitorino recebe ainda adultos infratores que cumprem pena de serviços comunitários. Também realiza projetos de reciclagem de óleo, troca de material reciclável por alimentos, capacitação profissional, geração de renda, combate às drogas…

É tanta coisa, que falta espaço para contar. E tudo isso sem ajuda do poder público. “Não recebemos nada da prefeitura, nem do governo. Mas os Centros de Referência de Assistência Social (Cras) encaminham muita gente pra cá”, diz Maria Julia.

Quem quiser participar ou colaborar com associação pode entrar em contato pelo telefone 3396-1322 ou ir até lá. Uma boa oportunidade para conhecer o projeto de perto será a Festa da Primavera entre os dias 7 e 8 de dezembro, quando a rua estará de novo tomada pela criançada, agora com muita coisa bonita pra mostrar.

Caminho pro futuro melhor

Marco André Lima
Maria Julia amplia atendimento.

Para não deixar a meninada na mão, Maria Julia Xavier mobilizou a vizinhança, conseguiu juntar algum dinheiro e criou a Associação de Prote&ccedil,;ão a Infância Vovô Vitorino. Na casa que pertenceu ao pai, passou a abrigar as crianças durante o dia e contratou professores para, além de comida, oferecer educação e o caminho para um futuro melhor.

Em 1994, a associação foi registrada oficialmente. E quase 20 anos depois, o projeto cresceu tanto que é até difícil acreditar que tanta coisa importante pode ser feita em pequeno espaço como o da Rua Tenente Coronel Manuel Eufrásio de Assumpção, 288. Da educação das crianças às atividades para a terceira idade, passando pela ressocialização de infratores, a entidade oferece apoio a toda a população do bairro. “Atendemos as crianças de 3 a 5 anos em período integral, as de 6 a 14 no contraturno das escolas, com reforço escolar, educação ambiental e informática”, explica Maria Julia.