Trabalhadores em condições degradantes de trabalho no corte de madeira foram encontrados ontem no município de São Mateus do Sul, no sul do Estado, em ação do Grupo Especial de Fiscalização Móvel para Errradicação do Trabalho Escravo e Degradante na Região Sul, do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), em conjunto com o Ministério Público do Trabalho (MPT) e com a Polícia Federal (PF).

Estima-se que no local haja pelo menos 40 trabalhadores em não-conformidade com as leis trabalhistas, morando em barracões de lona, sem equipamentos de proteção para o trabalho, sem banheiros e expostos às mais diversas adversidades. A ação foi acompanhada ontem com exclusividade pela reportagem de O Estado.

Hoje, o grupo pretende iniciar entrevistas com os trabalhadores para diagnosticar as reais condições e dificuldades por quais passam, para depois partir para averiguação do responsável pela contratação.

Fábio Alexandre
Reni Justus: ele e sua esposa estão morando em um casebre que é um antigo galinheiro.

A responsabilidade e o proprietário do local, com 44 hectares, ainda devem passar por verificação, para que possa ser feito o pagamento aos trabalhadores e a autuação dos responsáveis.

Segundo pessoas na área que pediram para não serem identificadas, a área pode pertencer à Petrobras. A reportagem flagrou profissionais e caminhões da estatal trabalhando dentro da área.

Hoje pela manhã, o MTE deve entregar uma notificação à empresa para pedir comprovação de documentos sobre a propriedade da área. Por meio de sua assessoria de imprensa, a Petrobras informou que não tem participação no trabalho que está sendo feito na área e que o local está em fase de desapropriação para possível instalação de uma mina de exploração de xisto.

Degradação

Sem banheiro, dormindo em barraco no chão, no próprio local em que trabalha há pelo menos um mês são as condições enfrentadas por João Sebastião Ferreira, de 56 anos, que apesar de tudo, não reclama.

“O trabalho aqui é duro, mas é só o que eu sei fazer. Roubar a gente não sabe”, respondeu. Sua alimentação é descontada do pagamento pelo empilhamento da madeira.

A bota que usa, ele mesmo comprou. Banho, só no pequeno rio. Por R$ 3 o metro, ele empilha madeiras o dia todo. “Para dar alguma coisa, preciso empilhar pelo menos 20 metros todo dia.”

Novos trabalhadores para o corte, porém, não faltam. Ontem mesmo havia pelo menos mais dois voluntários. Um deles, Gilberto de Lima, percorreu 14 quilômetros de bicicleta para se candidatar. “Vou fazer o que se não tem trabalho mais perto? Não dá para chegar em casa e falar pra mulher que não tem dinheiro pra comprar leite”, disse.

Operador de motosserra, Silvio Mayer, 48 anos, nunca fez curso para lidar com o equipamento, não usa equipamentos de segurança e recebe por produção. “Se chove a semana toda, não recebo nada”, lamenta.

Mais de dois meses sem receber também está Reni Justus, de 47 anos, que também puxa madeira. Ele e sua esposa estão morando em um casebre de madeira que é um antigo galinheiro, um espaço de 2,5 por 5 metros.

Também foram encontrados menores trabalhando. Um deles, de 16 anos, estudou apenas até a primeira série do primeiro grau, mora em um galpão de estocagem de fumo, e faz o trabalho de baldeação, que é levar a lenha de um lugar para outro.

Há um m,ês no local, ainda não recebeu os R$ 70 que lhe foram prometidos pelo período. O espaço reservado para o que seria um banheiro é um paiol de milho, que tem um balde com furos, improvisando o que deveria ser um chuveiro.