Chuniti Kawamura / O Estado do Paraná
Houve tumulto na chegada do oficial
de Justiça e da Polícia Militar.

Continua indefinido o destino das cerca de 300 famílias que invadiram, há mais de 40 dias, uma área particular no Tatuquara, na Cidade Industrial de Curitiba. Ontem um oficial de Justiça foi até o local, acompanhado por policiais militares, para tentar a reintegração de posse. Mas como houve resistência por parte das famílias, já que a maioria não tem para onde ir e ameaçava promover nova invasão, a operação foi abortada.

O oficial de justiça da 10.ª Vara Civil de Curitiba, Gilberto Negrão, esteve pela manhã na área para informar às famílias da existência da liminar de reintegração de posse. Os proprietários do terreno até colocaram caminhões à disposição das pessoas para fazer as mudanças. Mais de vinte policiais militares acompanharam a negociação.

De acordo com o capitão Everson Martins, a proposta era a saída pacífica das famílias, já que existia um documento obrigando a retirada dos invasores. “Nós temos que cumprir a determinação”, afirmou. Segundo a assessoria de imprensa da Secretaria de Estado da Segurança Pública, a ação foi classificada apenas como uma tentativa de negociação e elas devem se repetir, até que o mandado seja cumprido.

Tumulto

Logo na chegada dos policias, houve um princípio de tumulto. Duas pessoas foram detidas. Segundo o capitão eram pessoas da própria comunidade que estavam incitando as famílias.

Mesmo depois de controlada essa situação, ninguém concordou em deixar a área. Clarice Francisca Campos, presidente das associações de moradores do Terra Santa III e Beira da Linha, que se dizia representante dos invasores, confirmou que entre as famílias tinham pessoas mal-intencionadas, mas que a grande maioria era formada de pessoas humildes que deixaram casas de aluguel para montar um barraco na área. “Eles não são mendigos e querem pagar uma prestação justa, para ter onde morar”, comentou.

É a segunda vez em três anos que a área, de 250 mil metros quadrados, é ocupada. Algumas das famílias que estão no local participaram da primeira invasão. Além dos barracos, os invasores conseguiram fazer ligações de luz e traziam água das residências próximas.

Uma assistente social da Companhia de Habitação da Prefeitura de Curitiba e outra da Fundação de Assistência Social acompanharam a negociação. Segundo a assessoria da Prefeitura de Curitiba, elas estiveram no local a pedido da Justiça para prestar informações sobre as inscrições para o cadastro da Cohab e oferecer assistência. Hoje 33 mil famílias de Curitiba estão à espera de um lote, sem falar em outras 5,8 mil da Região Metropolitana. De janeiro de 2003 a setembro de 2004 a Cohab atendeu a 12 mil famílias.

Famílias passam necessidade

Sem condições de pagar R$ 150 de aluguel por mês, Paulo Melchior trouxe a mulher e três filhos para o terreno invadido. No local ele montou um barraco de madeira, onde tinha esperança de permanecer: “Se sair daqui, vou para a beira da rodovia”, disse. Situação semelhante é a de José Adélio, que morava de favor em uma área na Vila Rio Negro e trabalhava para um candidato a vereador. Derrotado nas eleições, o candidato despejou Adélio dando apenas umas lonas de circo, que foram usadas para montar uma barraca no terreno, onde está acampado com esposa e três filhos. Aos 51 anos, Adélio diz que não consegue mais achar emprego, o que piora a sua situação.

A dona-de-casa Terezinha Matos também teve que deixar a casa de uma conhecida onde morava. Vinda de Manguerinha, na região sudoeste do Paraná, ela precisou ficar em Curitiba devido ao tratamento de saúde do filho. Como teria que começar a pagar aluguel, decidiu se unir aos invasores na esperança de conseguir uma área. “Se pagar aluguel não tenho dinheiro para comprar os remédios”, falou. (RO)