Ao contrário do que já aconteceu em algumas cidades, a redução das tarifas de ônibus, principal reivindicação dos protestos pelo Brasil, não deve ocorrer em Curitiba. Depois da manifestação que reuniu mais de 10 mil pessoas na cidade na segunda-feira, o prefeito Gustavo Fruet (PDT) afirmou ontem que o sistema de transporte coletivo está à beira do colapso.

O prefeito alega que “a situação é mais grave do que as pessoas imaginam”, já que o rombo no sistema chega a mais de R$ 70 milhões e a administração evitou aumento da tarifa para R$ 3,10. “Se não houvesse a integração, Curitiba poderia cobrar R$ 2,75, mas os outros 13 municípios teriam que cobrar pelo menos R$ 4. A tarifa integrada tem caráter social de justiça e equilíbrio, de apoio da população e de Curitiba para o funcionamento do sistema”, declarou.

Fruet pretende congelar o valor da passagem em R$ 2,85 até o próximo ano. “Só agora vem a isenção do PIS e Cofins. Deve vir, em breve, a isenção do ICMS, mas que será anulada porque vamos ter que implantar o fim da dupla jornada, que vai acrescentar mais de R$ 0,04 à tarifa da rede”.

Mais protestos

Apesar das manifestações terem agregado diversas reivindicações, a Frente de Luta pelo Transporte de Curitiba garante que sua pauta principal é o transporte coletivo. “Sem a conquista não vamos retroceder. Queremos a redução imediata a R$ 2,60, R$ 1,00 aos domingos e congelamento deste valor”, reforça a integrante Clarissa Viana. Mesmo defendendo bandeiras contra machismo e homofobia, a integrante da Marcha das Vadias Ana Flávia Gabardo diz que é prejudicial desviar do foco real dos protestos. “Contra a corrupção todo mundo é, mas este momento é importante para a questão do transporte coletivo”, opina.

Os protestos continuam. Mais de 40 mil pessoas confirmaram presença no IV Ato em Apoio ao Movimento Nacional contra o Aumento da Passagem, marcado para amanhã, a partir das 18h na Boca Maldita. Às 18h de sexta-feira está programada a 2.ª Farofada do Transporte, na Praça Rui Barbosa, que já conta com 55 mil confirmações no Facebook.

Estreia da nova geração

Na análise do cientista social e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Ricardo Costa de Oliveira, a mobilização expressa insatisfações da população e seu crescimento foi catalizado pela repressão da Polícia Militar nos protestos em São Paulo. “É também o ingresso de nova geração na política brasileira, que está muito ligada na internet e nas redes sociais. Assim como aconteceu com o impeachment do ex-presidente Fernando Collor, em 1992, as Diretas Já na década de 80, esta geração terá como sua grande estreia os protestos de 2013”, avalia.

Para Oliveira, a sincronia entre os movimentos sociais foi uma grande surpresa, assim como o curitibano se mostrar bastante participativo. A grande questão, no entanto, são os resultados práticos da mobilização. “Os protestos podem levar à redução das passagens, mas o Legislativo e o Executivo precisam estar mais sintonizados. Além disso, o grande processo de mudança deve ser o eleitoral, no ano que vem, quando os eleitores escolherão seus governadores, senadores, deputados e presidente da República”, alerta.

Fotógrafo aponta abusos

Detido no final do protesto na noite de segunda-feira, o fotógrafo Ricardo Franzen reclama que foi ameaçado pelos policiais que o abordaram e preso injustamente. Ele conta que estava fotografando toda a manifestação para a organização do movimento e quando voltava para casa por volta de 23h, junto com outras pessoas, foi abordado por policiais à paisana. “Estava em frente ao Shopping Mueller quando veio um carro corr,endo pra cima da gente. Um policial gritou pra mim “Cabeludo, é você mesmo, vagabundo’”. Mesmo argumentando que era fotógrafo, Ricardo foi levado com o grupo ao 1.º Distrito Policial, onde passou a noite e só foi liberado após pagar fiança de um salário mínimo.

A PM afirmou que pessoas que sentiram algum excesso devem denunciar à Corregedoria.