É difícil imaginar, nos dias de hoje, algum comerciante que se mantenha firme em seus propósitos sem aceitar cartões, cheques, ou mesmo sem modernizar seu estabelecimento. Da mesma forma, é difícil conceber que em Curitiba haja alguém que ainda utiliza a velha e boa balança da década de 50 para pesar produtos. Ou um ventilador tão velho quanto, e que ainda funciona! Mas ao contrário do que muita gente pensa, em Curitiba há um lugar assim. E que sobrevive há 51 anos.

Este lugar fica na rua Carlos de Carvalho, bem no centro (ao lado das lojas Americanas, em frente ao número 14). Pequena e tímida, a Frutaria Canadá (que hoje nem placa mais tem em sua frente) está em uma construção antiga, e que destoa dos prédios e dos estabelecimentos modernos da região. O proprietário é Nagib Kaiel, de 75 anos de idade. O segredo de se manter ali há tanto tempo, garante ele, é justamente todas essas curiosidades antigas. “Eu mantenho assim meu estabelecimento porque as pessoas gostam. Ou eu não estaria aqui há 51 anos”.

Outro “segredo”, conta Kaiel, é a honestidade e a humildade. E, claro, a qualidade das frutas. “Muita gente pensa no carro novo que tem que comprar e se endivida, e esquece de que, na verdade, deveria se preocupar com a alimentação e comer mais frutas e verduras. Eu sobrevivo porque nunca tive preocupação com dívidas, e sempre trabalhei. Assim dei formação para as minhas filhas e hoje sou feliz”, observa ele. Kaiel conta, ainda, que o movimento não anda tão bom. “Poderia ser melhor. Já tive dois empregados, hoje dou conta sozinho”, informa. Mas se a frutaria vende ou não bem, não é problema para Kaiel. “Eu trabalho como terapia, se eu parar vou sucumbir. Se eu empatar no final do mês estou feliz também”, disse.

Kaiel nasceu na Rua Riachuelo, uma das mais tradicionais de Curitiba. Na época, sua família já tinha uma frutaria na rua Ermelino de Leão. A capital tinha 75 mil habitantes na época. Ele seguiu os passos do pai e, da porta de seu estabelecimento na Carlos de Carvalho viu Curitiba crescer. Hoje ele vive no bairro Vista Alegre, com a esposa, que é aposentada. “As únicas lembranças que tenho são os colegas comerciantes daqui que fecharam. Outros mudaram de ramo porque não sobreviveram, alguns faleceram”, comenta, nostálgico. Kaiel conta, ainda que come muitas frutas e verduras (quase nada de carne), e que não tem problemas de saúde. Ele tem duas filhas e dois netos.