Quando nascem, muitas crianças da periferia precisam vencer a dura batalha contra as doenças comuns da infância, principalmente provocadas pela fome e pela falta de cuidados. Quando chegam à adolescência enfrentam um novo desafio: chegar vivo aos 30 anos. Isso porque, nesse caminho, muitos se envolvem no mundo das drogas e acabam sendo assassinados. Segundo dados da Unesco, entre 1993 e 2002, houve um aumento de 62,3% nas taxas de homicídios. Entre os jovens subiu 88,6%. A maioria das vítimas são de cor parda ou preta.

R.S., 22 anos, é filho de pedreiro e diarista. Para dar uma vida digna à família, o casal trabalhava o dia todo e os filhos ficavam sozinhos em casa. R.S. conta que costumava "gazear" as aulas para fumar maconha aos 12 anos. Quando os pais descobriram, ele já estava no crack. A curiosidade e os "amigos" o levaram para esse caminho.

O adolescente quase chegou às últimas conseqüências. Já não tinha relacionamento com a família. "Passava dias fora de casa. Quando eu voltava, meus pais entravam por uma porta e eu saía pela outra", lembra. No começo, ele vendia os próprios pertences para comprar a droga, com o tempo passou a roubar a família e a vender até a comida de dentro de casa. Depois dessa fase, começou a praticar assaltos com arma de fogo. "Você vive para comprar o crack. Só pensa nisso. Quer consumir toda hora. Quando está drogado, não tem medo de nada", fala.

Hoje R.S. está numa casa de recuperação. "Saí dessa porque queria saber como era viver um pouco. Ser feliz. A minha filha já tem um ano e meio, mas a conheço há apenas 30 dias. Antes via ela, mas para mim não significava nada. Já vi gente morrer por causa de uma pedra de R$ 5", conta. Boa parte dos amigos dele já foi assassinada.

F.A., 22 anos, teve contato com a maconha aos 12 anos. Aos 16 anos, chegou ao crack e "passava o fumo" (fazia a distribuição). A gangue dele disputava ponto com outra turma. "Já tentei derrubar (matar) uns caras. Nessa briga o único que sobrou da minha gangue fui eu", relata. Depois disso, ele resolveu procurar ajuda. F.A. pensa até em voltar a morar no lugar onde vivia. Os integrantes do outro grupo também estão morrendo e até ele voltar pode ser que não tenha mais ninguém atrás dele. Como a grande maioria dos jovens de periferia, F.A. teve uma infância complicada. Os pais se separaram e a mãe tinha que trabalhar para dar conta da casa. Ele estudou apenas até a 2.ª série do primário.

Famílias abastadas

O crack não está presente apenas nas classes sociais mais baixas. O universitário L.G. teve que deixar o curso de Ciências Aeronáuticas a algumas provas do final, para tratamento de dependência química. "Senti que traí a minha família. Sempre tive tudo o que queria", fala. Ele já tinha começado a mentir e a vender seus pertences pessoais. Segundo o diretor da Casa de Recuperação Água da Vida (Cravi), Carlos Eduardo Ferreto, L.G. percebeu que precisava parar com o vício rapidamente. O jovem conta que não ia até a "boca" buscar a droga, porque tinha medo. Pagava com crack para que alguém buscasse para ele. Mas Ferreto comenta que quando o dinheiro acabasse, o usuário é que teria que fazer o trabalho. É nesta hora que muita gente morre: quem não pode pagar, fica esperando perto da "boca" o momento de atacar alguém e se apropriar da droga.

Sair desse mundo paralelo não é fácil. Ferreto sabe que muitos dos que estão ali terão recaídas. As estatísticas mostram que, de cada 100 pessoas que tentam largar o vício, apenas 10 conseguem. Hoje 45 pessoas estão em tratamento na casa, que é mantida com ajuda de voluntários. (

Gasto com UTI chega a R$ 170 mil

Nesses conflitos, quando os jovens não são mortos, podem ficar com seqüelas para o resto da vida, desde problemas neurológicos até cicatrizes. Além disto, os hospitais também têm gastos absurdos. Esse dinheiro do Sistema Único de Saúde (SUS) poderia ser investido em outra área. Um paciente numa Unidade de Terapia Intensiva (UTI) chega a gastar R$ 170 mil.

Segundo o chefe do Departamento de Cirurgia do Hospital Cajuru, em Curitiba, Luiz Carlos Von Bahten, dificilmente quando uma pessoa chega com vida ao hospital, ela morre. São prestados os primeiros socorros para que o paciente consiga esperar a sua vez de ser atendido. "Às vezes chegam quatro pessoas juntas, que participaram da mesma briga", conta. A equipe médica avalia o estado de cada uma e decide quem fará a cirurgia primeiro. Porém muita gente acaba ficando com seqüelas neurológicas, como problema na fala, visão e paralisias.

Em uma pesquisa feita pelo médico, publicada na revista do Colégio Brasileiro de Cirugiões, um paciente de UTI gasta até R$ 150 mil. "Se considerarmos que hoje há um paciente assim em cada um dos três grandes hospitais da cidade, somam R$ 500 mil", revela. (EW)

Homicídios entre jovens

* Nos finais de semana, os homicídios aumentam dois terços em relação aos dias da semana.

* Nas comparações internacionais realizadas, entre 67 países pesquisados, o Brasil encontra-se em 4.º lugar nas taxas de homicídios na população geral e em 5º na sua população jovem.

* Diversos estudos, tanto nacionais quanto internacionais, já alertaram que as mortes por homicídios, inclusive entre os jovens, são ocorrências notadamente masculinas. Só 7,8% das vítimas no País durante o ano de 2002 pertencem ao sexo feminino. Entre os jovens, essa proporção é ainda menor: 6,2%.

* Em 2002, 31,2% do total de óbitos juvenis foram causados por armas de fogo enquanto quatro anos antes, em 1998, essa proporção era de 25,7%. Dos 48.983 jovens que morreram em 2002, 14.983 foram devido a armas de fogo.

* A utilização de armas de fogo na ocorrência de homicídios entre os jovens é crescente e destacada. No ano de 1998 as armas de fogo foram a causa de 66,1% dos homicídios de jovens. No ano 2000 essa proporção elevou-se para 74,2%. Já em 2002 para 75,3%. Exceto na região Norte, com índices mais baixos, nas restantes 74% ou mais dos homicídios que vitimam a juventude são cometidos por amas de fogo.

– Dados do livro Mapa da Violência IV: Os jovens do Brasil, divulgado pela Unesco com informações entre 1993 e 2002.

Os mais pobres são os mais vulneráveis

A maioria dos homicídios está relacionada às drogas e as principais vítimas são adolescentes pobres, negros e moradores da periferia. Isso acontece porque, embora a droga esteja presente em todos os meios sociais, as classes menos abastadas são as mais vulneráveis. Para a coordenadora oficial de projetos do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) no Brasil, Helena Oliveira, para acabar com o problema é preciso investir em saúde, educação, cultura e ampliar a distribuição de renda.

Na última década, de 1990 a 2000, aumentou significativamente o número de mortes por causas externas, como acidentes de trânsito e homicídios. Foram 210 mil óbitos – contra 146 mil causados por doenças. No entanto, na década anterior, os números eram inversos. Os dados são de um estudo divulgado em 2000 pelo Unicef em parceria com o Centro Latino-americano de Estudos da Violência e da Saúde.

O homicídio está entre as principais causas de morte. Na população geral, o índice foi de 27 para cada 100 mil habitantes. Na população de 15 a 18 anos, sobe para 35 a cada 100 mil habitantes. No entanto, no livro Mapa da Violência IV: os jovens do Brasil, publicado em junho deste ano pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), com dados até 2002, a proporção é ainda maior entre os jovens: 54,5 mortes em cada 100 mil, enquanto no resto da população a taxa se manteve estável.

Para Helena, o problema não pode ser resolvido apenas com a aplicação de medidas pontuais, como a construção de quadra em uma favela para dar esporte ao jovem. É preciso investir em saúde, educação, cultura e ampliar a distribuição de renda. "O jovem pratica o esporte, mas chega em casa e encontra toda a família desestruturada. A pobreza não está relacionada diretamente à violência, mas sim à falta de acesso aos serviços públicos e à violação dos direitos. Os espaços de ricos e pobres são separados. A população de baixa renda não tem saneamento básico, não tem uma escola bonita… A desigualdade tem impacto grande na criminalidade", fala.

Ela defende também que a sociedade pare de classificar esses jovens como possíveis agressores e criem meios para aproveitar o potencial e a criatividade de cada um. Segundo ela, um dos maiores agentes multiplicadores da violência é a própria polícia, que não tem preparação para lidar com este jovem. No entanto, ela cita que existem boas experiências em alguns estados e que deveriam ser disseminadas para outras cidades.

Agora o Unicef, em parceria com o Centro Latino-americano de Estudos da Violência e da Saúde, está fazendo um estudo sobre a violência em todo o ciclo de vida da criança até a juventude. Ele deve ser divulgado no ano que vem. (EW)

Tráfico é a causa número um dos assassinatos

O delegado da Homicídios em Curitiba, Luiz Alberto Cartaxo, comenta que na cidade e Região Metropolitana quase 100% dos homicídios tem relação com as drogas, principalmente o crack. Muitos perdem a vida na disputa por pontos de venda ou por dívida. Segundo dados da Secretaria Estadual da Segurança Pública, o número de homicídios no Paraná cresceu 8,17% em 2004. Foram 1.283 casos. No entanto, em Curitiba o número caiu 1,50%: foram 394 casos.

Segundo Cartaxo, a maioria das pessoas assassinadas tem entre 16 e 23 anos de idade. As vítimas da periferia morrem mais porque eles vivem no meio do tráfico, ao passo que os jovens das classes mais ricas conseguem manter uma certa distância.

Muitos jovens pobres são recrutados para fazer a distribuição da droga para o consumidor final. Na disputa por pontos de vendas, ou quando resolvem trocar de distribuidor, são mortos. Segundo a polícia, os bairros mais violentos da capital são: Parolin, Vila Pinto, Cidade Industrial e fundos do Cajuru.

A preferida

O crack é a droga mais consumida. Ela tem um alto poder viciante e é mais barata que a cocaína. "Dificilmente quem entra nessa consegue sair. Mas antes do crack, os jovens já passaram pela maconha e bebidas alcoólicas", aponta Cartaxo.

Todo fim de semana tem morte por causa de drogas. Hoje a delegacia tem 2,5 mil inquéritos abertos. No entanto, quando boa parte é solucionada e o assassino pode ser preso, os policiais descobrem que ele já está morto. "Todo o trabalho de investigação é perdido", lamenta. (EW)

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