Ainda neste semestre, o Colégio Estadual do Paraná (CEP), o maior do Estado, pretende implantar 76 câmeras no circuito interno para aumentar a segurança. Os equipamentos serão responsáveis por monitorar a comunidade escolar composta por quase 9 mil pessoas que circulam pelo colégio. A instalação das câmeras está em fase de licitação e elas devem ocupar todos os espaços do colégio, com exceção das salas de aula e banheiros.

Em 2008, foram três casos registrados de aluno com porte de drogas dentro do CEP, de acordo com a diretora do colégio, Maria Madselva Ferreira Feiges, após denúncias anônimas feitas por bilhetes ou telefonemas. A ocorrência mais constante, no entanto, que provoca o chamamento da Patrulha Escolar são brigas na frente do colégio entre torcidas de times de futebol.

Nos casos em que o comportamento ultrapassa a barreira entre a indisciplina e o delito, não só no CEP, mas em qualquer colégio, a Patrulha Escolar da Polícia Militar do Paraná é acionada. E, cada vez mais, a influência dos pais na vida dos filhos é ressaltada por especialistas como fator para o envolvimento em situações de violência escolar.

Quando o estudante é levado pela patrulha, a família do aluno também é chamada e a escola recebe orientação sobre como lidar com o adolescente quando ele voltar para a escola, segundo explica a coordenadora da Patrulha Escolar no Paraná, Margarete Maria Lemes. “Muitas famílias fecham os olhos e esquecem a sua parcela de responsabilidade. Os estudantes vão ser reprodução aprimorada do que os pais são e eles precisam saber que, se incentivarem atos ilegais, poderão responder por apologia ao crime”.

Além do projeto das câmeras, mudanças com foco na segurança começaram a ser aplicadas no CEP no início do ano passado, quando foi firmado um termo de compromisso com os pais, desde questões básicas, como pontualidade e uso do uniforme, que apontava o que era responsabilidade dos pais.

Extrapolar o limite entre a brincadeira e a violência, muitas vezes, aparece da falta de acompanhamento do desempenho do filho e suas atitudes na escola, o que pode acarretar comportamentos agressivos. O exemplo do personagem Zeca, na novela Caminho das Índias, que é incentivado pelos pais em suas “brincadeirinhas” de mau gosto com colegas é uma situação limite, mas que tem despertado debates pelo País em torno da superproteção dos pais no mau comportamento e a falta de respeito dos alunos dentro da escola – e também fora dela.

Segundo a presidente da Comissão da Criança e do Adolescente da Ordem dos Advogados do Brasil no Paraná (OAB-PR), advogada Márcia Caldas, os pais são co-responsáveis pelas ações dos filhos. “Há necessidade de se cobrar politicamente medidas para se educar a família, e não apenas a criança, que muitas vezes fica alienada na frente da televisão. Depois, os pais ficam revoltados quando a escola planeja implantar medidas de segurança, como a revista na entrada das aulas”, exemplifica.

Dizer não ter tempo de comparecer à reunião de pais ou de ir à escola com frequência também é criticado pela advogada. “Por mais compromissos profissionais que os pais tenham, o compromisso principal é com os filhos e sua educação, o que está previsto em lei pelo Estatuto da Criança e do Adolescente”, ressalta.

Colégio fará aproximação

Para melhorar a relação entre a escola e os pais, a Associação Difusora de Treinamentos e Projetos Pedagógicos (Aditepp) vai sugerir, durante esta semana, a criação da Escolinha de Pais no Colégio Estadual Vinícius de Moraes, em Colombo, na Região Metropolitana de Curitiba.

“Se não houver corresponsabilidade dos pais, a escola não dá conta, por isso a ideia de trabalhar na formação de uma rede comunitária. A Escolinha de Pais não v,ai ser imposta, vamos ver qual será a aceitação por parte dos pais”, explica o coordenador da Aditepp, Claudinei Miranda da Costa. A ideia prevê ainda agregar voluntários da comunidade que atuem como “pais de aluguel”, interessados na vida escolar dos jovens.

O acompanhamento dos pais na vida escolar dos filhos deve começar desde o primeiro ano, opina Costa. “Se o pai não aprende a participar da vida escolar logo no início, quando o aluno chega adolescente no colégio, ninguém mais segura o menino. Tem que haver integração comunidade-escola já no primário”, defende.

Esse acompanhamento pressupõe ir até a escola mesmo quando não convocado e perceber quando o desempenho do filho não é satisfatório. “São coisas simples, como acompanhar as lições, perguntar o que o filho fez na escola e chamar a atenção quando o caderno não estiver organizado”, exemplifica o coordenador da Aditepp.

Mudança

Há pouco menos de um ano, O Estado noticiou as ameaças que sofriam os professores do Colégio Vinícius de Moraes. O colégio também tinha uma alta taxa de desistência e, no período noturno, não havia recreio com medo de brigas de gangues.

Uma via para resolução dos conflitos foi por meio da comunicação, realizada pela Aditepp e pela Central de Notícias dos Direitos da Infância e Adolescência (Ciranda). A partir das reportagens, os próprios alunos começaram a expressar o que achavam da situação em que estavam, inclusive discordando da visão que vinha de fora sobre eles. Segundo o psicólogo Josafá Cunha, a partir do início dos trabalhos, os casos de violência no colégio diminuíram consideravelmente. “Apesar da violência, há jovens comprometidos com o movimento do hip-hop e ações de esporte no bairro, por exemplo”, diz.

Comprovada importância paterna

Uma comprovação da relação entre o envolvimento dos pais e o comportamento na vida escolar dos filhos foi feita pelo Núcleo de Análise do Comportamento da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Segundo o psicólogo Josafá Cunha, do núcleo de pesquisa, em questionário com jovens de escolas públicas e particulares foi constatado que quanto mais envolvidos os pais estavam na vida escolar dos filhos, menos eles se envolviam em agressões.

“A criança que vive sendo xingada pelos pais, que apanha e que presencia brigas em casa vai reproduzir esse comportamento agressivo na escola, pois é nas interações familiares que ela vai aprender como interagir com as pessoas ao redor”, analisa o psicólogo.

Para ele, também há dificuldade em contabilizar a violência escolar, porque em muitos casos ela não é caracterizada como tal. “O que existe hoje é um grande cinismo. Ao andar pelos corredores da mesma escola que diz não ter violência e que é da cultura da paz, vai ser possível ver diretor gritando porque um aluno está usando boné, professor empurrando aluno, alunos batendo uns nos outros e nada disso é chamado de violência, embora esteja diante de todos”, afirma.

Pesquisa

Durante esta semana, o Núcleo de Análise do Comportamento divulgou que cerca de 66% dos alunos do ensino fundamental e médio disseram ter sofrido ou cometido agressões contra seus colegas de escola nos últimos seis meses, segundo levantamento da UFPR com o objetivo de identificar as principais características de bullying (violência interpessoal entre indivíduos da mesma condição) em escolas de algumas cidades brasileiras, entre elas Curitiba.

Entre os tipos mais comuns relatados estão soco, chute, revide a agressões físicas e apelidos depreciativos. O resultado disso é a presença quatro vezes maior de indícios de depressão entre alunos que são vítimas e sete vezes mais entre agressores e vítimas agressivas.

Formas de agressão diferentes em escolas públicas e particulares também apareceram na pesquisa. Segundo Cunha, nas escolas particulares a predominância foi para o que o grupo chama de agressão direta, que corresponde
a xingamentos entre colegas, por exemplo, e outras ações que se sabe quem é o agre,ssor. “Já nas escolas públicas aparece mais a agressão relacional, que é quando o agressor espalha um boato e nem sempre se sabe quem é o agressor”, explica.