Desde o início do mês o movimento dos agricultores sem-terra tem protagonizado uma série de ações para destruir áreas com plantações de culturas transgênicas. No Paraná, as principais aconteceram na região de Ponta Grossa, em duas estações experimentais da empresa Monsanto, que lidera as pesquisas de sementes geneticamente modificadas no Brasil. As ocupações fazem parte de uma estratégia do movimento para chamar a atenção da população sobre a polêmica que envolve os transgênicos.

A afirmação é do secretário executivo da Comissão Pastoral da Terra (CPT), Jélson Oliveira. “Durante o primeiro Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, foi formado um movimento de agricultores e camponeses que pretende lutar por questões que vão além da reforma agrária”, destaca. Eles defendem que a semente deva ser declarada patrimônio da humanidade, combatendo a mercantilização do produto. “O agricultor vai ficar refém da empresa, pois utilizando semente modificada, terá que usar os produtos indicados por ela, e isso acaba em um ciclo”, reforçou.

O secretário da CPT destacou que existem ainda muitas indagações sobre a utilização das sementes transgências, e a população não pode ser sacrificada pelo interesse econômico de grandes grupos multinacionais. Oliveira afirma que países que já assimilaram o consumo de produtos geneticamente modificados estão sentindo os reflexos disso. “Temos numerosos casos de alergia em pessoas, e de transporte de pólen para outras plantas que acabam favorecendo o aparecimento de ervas daninhas fortalecidas”, disse.

Sobre a liberação de ensaios com transgênicos no Brasil pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Jélson Oliveira considera que o presidente foi pressionado pelas grandes empresas a abrir a concessão. Em contrapartida, essas empresas poderão preencher uma lacuna na área de pesquisa científica deixada pelas universidades. Porém, ele admite que os resultados poderão ser tendenciosos.

Dissidentes

O secretário executivo da Comissão Pastoral da Terra negou que esteja havendo uma descaracterização do MST no País, e considera natural o surgimento de outros grupos que também lutam pela reforma agrária. É o caso de um grupo de moradores da favela Zumbi dos Palmares, de Curitiba, que no último fim de semana invadiu uma área em Cerro Azul. “O MST foi fundado há 18 anos tendo com bandeira a reforma agrária, mas ele não é o único que luta pela mesma questão no País”, disse, acrescentando que outras vinte facções com o mesmo objetivo já foram formadas no Brasil.

Para Jélson Oliveira, existe uma expectativa muito grande com os novos governos ? federal e estadual ?, o que acaba incentivando que um maior número de miseráveis tome iniciativas de tentar lutar por uma vida mais digna. “A tendência é que mais grupos se organizem, e o conflito é uma forma de chamar a atenção das autoridades para o problema e cobrar uma solução”, avaliou. Isso explicaria o crescimento de 11% no número de famílias acampadas no Paraná desde janeiro deste ano.

No Estado, avalia Oliveira, o cenário da reforma agrária deverá mudar, já que o governador Roberto Requião possui uma postura muito mais aberta às questões dos trabalhadores sem-terra. “O governo do Jaime Lerner fez uma política contra a reforma agrária, seguindo a mesma indicação do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, e acabou ganhando notoriedade negativa por isso. Agora o cenário está diferente”, afirmou. Porém ele não vê soluções rápidas para as 14 mil famílias que estão acampadas no Estado, porque o Incra não possui “estoques” de terras para assentamentos. “Isso deverá gerar mais conflitos, pois não havendo terra poderá haver violência”, advertiu.