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Fusão de roupas coloridas com enredo que rememora a história africana originaram a congada.

A trama é enriquecida pelos elementos cristãos misturados a ritos pagãos. Tem a ver com a expressão do negro no contexto nacional, falando de escravidão, guerra, fé e, ao mesmo tempo, festa. Tantos paradoxos elaborados com roupas coloridas e um enredo que rememora a história africana são a fusão que deu origem à congada, folclore que já teve seu auge no Paraná, mas que hoje conserva seus remanescentes apenas na Lapa, Sul do Estado.

A cidade, aliás, é o cenário perfeito para o tema: a congada tem como base a devoção a São Benedito, o protetor dos negros. Lá, a paróquia dedicada ao santo viu a tradição se desenvolver ainda no início do século XIX. As congadas, espalhadas por diversos estados brasileiros – como Goiás, Minas Gerais e regiões do Nordeste – têm diferentes características, mas é na Lapa que se pode perceber a autenticidade da temática em um contexto que se desenvolveu em boa parte da região Sul do Paraná.

Trata-se de uma dança que agrega interpretação e cânticos em versos bem montados, fazendo referência em sua maioria ao "Santo Preto". "Foi incentivada pelos jesuítas no período colonial para converter os negros ao cristianismo", explica o professor de Cultura e Cidadania da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) Antônio Celso Mendes. A manutenção dos ritos como estratégia para alcançar este objetivo resultou em uma trama permeada de fé e da história dos ancestrais dos escravos africanos trazidos ao Brasil, representando a coroação do Rei do Congo e a relação com a Rainha da Ginga. "É uma dança com diversos instrumentos. Eles tocam viola, canza, reco-reco, caixas, tambores e há também os cantadores. Na verdade, é uma orgia sublimada, porque o tema é religioso. Conserva uma tradição histórica do período colonial", cita.

Neste ínterim, as congadas da Lapa se destacam por falar da relação entre o rei e a rainha em uma guerra que virou festa. Quem conta a história é Ney Manoel Ferreira, presidente do grupo folclórico Congada de São Benedito da Lapa. Junto com a família, ele conserva a tradição instaurada por seus bisavós. "São misturadas duas tribos, a do Rei do Congo e a da Rainha da Ginga. A parte da rainha é um embaixador que comanda, é o intermediário de tudo. Eles formam um tipo de uma guerra, mas que na verdade é um mal-entendido." É que, ao dar uma festa, o rei se esquece de convidar a rainha, que envia seu embaixador para a comemoração do rei mesmo sem convite. "O porta-voz do rei entende mal a chegada do embaixador com os soldados, todos armados. Mas a guerra não chega a acontecer e, no final das contas, vira uma festa", resume.

Enquanto o embaixador se aproxima com seus homens, armados e batendo chocalhos, o porta-voz do rei pensa que estão vindo para a guerra. "O rei se benze e manda unir a fidalguia para matar o embaixador. Mas quando o príncipe vê que não é nada daquilo, fala com o rei, que só manda prender o embaixador. Daí, então, eles conversam e se entendem", conta Ney. "A rainha não admitia o Rei do Congo mandar em diversos territórios da África e por isso os dois nunca se aceitaram. Eles formaram guerra até se acertarem, quando passaram a dividir todas as terras. Hoje a África é praticamente toda unida, todas as tribos. E tem a ver com essa história", afirma.

Requinte e tradições

As roupas pomposas e a diversidade de jóias utilizadas na congada parecem não ter relação alguma com o contexto da escravidão. Mas a história prova que há essa ligação. "Na época da escravidão, os sinhozinhos, mandões das fazendas, ganhavam prêmios nos dias que tinha festa, por vestir o seu melhor escravo. Esse escravo ganhava, então, a liberdade", conta Ney. As jóias usadas pelos sinhozinhos eram feitas pelos próprios escravos, bem como as roupas pomposas que os vestiam nos dias de festa. A mistura da realeza com as danças afro resultou em figurino elaborado. "A dança afro é com poucas roupas, mas a realeza é bem vestida, usa escudo. E como o grupo tem muitos descendentes de escravos, daí se misturou para não ficar o afro puro, dançando praticamente nu", diz.

Família Ferreira conserva a tradição

A congada chegou à Lapa por volta de 1820, por intermédio de um gaúcho que viu na região o local ideal para a difusão do folclore. Com um livro que contava todo o ritual da dança, obtido na África, ele não conseguiu implantar a congada no Rio Grande do Sul, já que por lá a comunidade negra era minoria. E foi com o movimento dos tropeiros, que deixavam Viamão (RS) rumo a Sorocaba (SP), passando pelos Campos Gerais paranaenses – e tendo como um dos principais pontos de paragem a Lapa -, que a obra acabou chegando à cidade, mais exatamente nas mãos dos bisavós de Ney Ferreira. A família conserva o livro guardado a sete chaves até hoje. "Na época, eles reuniram os negros das comunidades e começou-se a propor a congada", rememora o presidente do grupo folclórico. Ney lembra apenas que o gaúcho se chamava Zacarias.

Os séculos se passaram e a família fez questão de conservar a tradição, formando hoje o único grupo de congada do Paraná. "Antes existiam três grupos, mas os outros já se acabaram há muito tempo. Eram de Antonina e Paranaguá", lembra – mas há informações de que a congada autêntica também foi mantida por muito tempo na cidade de Paranavaí, Norte do Estado.

Apesar da falta de recursos para a cultura e a arte, os congueiros conseguiram sobreviver graças à iniciativa de entidades e empresas interessadas em reavivar este folclore. Hoje, dos 48 integrantes do grupo, 26 são familiares, entre eles muitas crianças, que, segundo Ney, se interessam em dar continuidade ao que é seguido pelas gerações há centenas de anos. "Tenho um filho e uma filha que fazem parte do grupo. Ele toca o violão e a rabeca e a menina é a rainha."

Restauração

Hoje o grupo Congada de São Benedito da Lapa, o único do Paraná, faz apresentações dentro e fora do Estado. A última foi no litoral, em Pontal do Paraná, no mês passado, uma das apresentações em que eles se sentiram mais bem-vindos. "Quando chegou a hora do espetáculo, o pessoal brigava para assistir", recorda. Mas nem sempre foi assim. Como o grupo ficou desativado por 17 anos, as congadas da Lapa quase foram esquecidas pelo paranaense.

Antes disso, em meados da década de 80, eles tentaram se reerguer por conta, fazendo algumas apresentações, mas a peça ficava prejudicada pelo figurino envelhecido. "Conversei com meu irmão e achamos que, se conseguíssemos um patrocínio, daria para continuar", conta. O projeto foi montado e levado adiante por uma organização da sociedade civil de interesse público (Oscip), a Lux AGD, com sede em Curitiba. O patrocínio ficou por conta da Petrobras e deu para os congueiros renovarem figurino, cenografia e levarem as apresentações para outros estados, como Rio de Janeiro e São Paulo, e em várias cidades paranaenses. Hoje, o grupo faz uma média de dez apresentações anuais. (LM)

Filmagem foi pontapé para a revitalização

O diretor-geral da Oscip que ajudou na restauração do grupo, Rubens Genaro, lembra que foi durante as gravações do filme Cafundó, em 2003, que ele se deparou na Lapa com os congueiros. "Eles foram selecionados para fazer parte do filme. Na época, constatamos que estavam em situação difícil", explica Genaro, da LAZ Audiovisual, que participou da produção. Junto com Paulo Betti e Clovis Bueno, que dirigiam a produção, ele pensou em um modo de fazer um projeto de revitalização que poderia ser desenvolvido através da Lei Rouanet de Incentivo à Cultura. Deu certo. "No final daquele ano conseguimos aprovar o apoio pela Petrobras e, em 2004, realizou-se um trabalho tanto de assistência social como de ensaios semanais, além de aulas de violão, acordeon e da própria dança deles. Depois compramos equipamentos novos de som, todo o figurino, jóias, cartazes, folhetos e hoje estão autônomos, sobrevivendo das próprias apresentações." O projeto deu origem a um livro que está na fase de arte final. Sob o título O restauro da Congada da Lapa, a obra deve ser lançada em meados deste ano.

"Ao longo desse processo – se referindo à gravação do filme Cafundó, que será lançado ainda no primeiro semestre deste ano e enfoca história, tradições, cultura e religião dos negros – fomos percebendo a quantidade de racismo das elites brasileiras. Daí, vendo a realidade dessas pessoas da Lapa, ficamos muito comovidos por essa beleza toda depauperada e achamos que era hora de iniciar um projeto de restauro, em que foi respeitado todo o contexto da história deles e da cidade da Lapa. Nós aprendemos muito com isso tudo", considera Genaro. (LM)