A violência das águas de março, que carregaram moradias, plantações, árvores, pedras e três vidas no litoral do Paraná, no fatídico dia 11 daquele mês, só não se compara ao impacto que o laudo da Minerais Paraná (Mineropar) teve sobre boa parte dos mais de 32 mil atingidos pelas enchentes que, ao invés de esmorecer, optou por arregaçar as mangas e reconstruir o que perdeu.

No estudo encomendado pelo Ministério Público do Paraná (MP-PR) e a Defesa Civil Estadual, a Mineropar qualificou “área de risco” e recomendou a desocupação da região de Floresta, em Morretes, e de quatro localidades de Antonina. “O que não dá é deixar essa região virar cemitério natural dos próprios moradores”, contrapõe o geólogo e diretor técnico da empresa, Rogério da Silva Felipe, que coordenou o estudo onde foram identificadas zonas de perigo. “São os troncos e galhos que estão retendo as rochas que se desprenderam da Serra da Prata e se instalaram em Floresta, que é uma área de planície. Isso é uma bomba-relógio”, define. “O material que assoreou os leitos dos rios Jacareí e Tingidor também está espalhado nas cicatrizes abertas em todo o morro. O grande problema é que esse tipo de sedimento pode se desprender e causar novas tragédias”, alerta Felipe.

Corte da luz

A suspensão definitiva ou temporária no abastecimento de energia elétrica foi uma das medidas adotadas pelo governo estadual para forçar a desocupação das áreas de risco. Em Floresta – uma das porções mais castigadas do município de Morretes e que registrou a morte de uma mulher que se afogou com a enxurrada – a energia só foi restabelecida neste mês. “Meu marido chegou a sentir dor de dente forte graças aos banhos gelados nesses dias de muito frio”, relata a agricultora Jurema Zela Oliveira que, em 51 anos de vida, nunca quis deixar o lugar onde nasceu. “Fiquei sem geladeira por três meses, mas resisti”, recorda.

Ela e seus irmãos João e Jasi, também proprietários de vários alqueires em Floresta, são alguns dos responsáveis pelos belos canteiros de hortaliças, que recortam o cenário de destruição ainda bastante presente, como se validassem toda a garra da população que anseia pela reabilitação de todos os pontos degradados. “Na minha casa não aconteceu nada grave. Depois que a água baixou, limpamos a casa e fomos trabalhar na recuperação da propriedade sem pedir qualquer ajuda para o governo”, afirma Jurema, que atende com a sua produção de hortaliças quitandas e supermercados de Paranaguá, Matinhos e Curitiba.

Cebolinhas

A produção da propriedade de Jurema, que no primeiro mês pós-tragédia caiu para 4,5 mil maços de cebolinha por semana, já está em 40 mil e, assim que for totalmente recuperada, deve chegar a 70 mil maços semanais. “Também já começamos a colher agrião, couve, alface e almeirão de ótima qualidade”, celebra. “Tenho cinco anos de prestações do meu caminhão para pagar, não posso ficar esperando a boa vontade do governo, nem posso sair daqui sem receber o valor real do meu patrimônio, que me permita comprar outra área com a terra tão boa quanto aqui”, argumenta.

“Perdi uma casa de alvenaria que enchia os olhos da vizinhança, já o meu casebre resistiu. Mas no dia da enchente, só conseguia pensar na vida da minha irmã”, conta João, que escapou para o alto do morro durante as chuvas do dia 11 de março e só foi resgatado por helicóptero no dia seguinte. “Apesar de tudo que passamos, temos um xodó por esse lugar. É a história dos meus pais e dos meus irmãos que não queremos perder e, sim, reconstruir”, emociona-se.

Vizinhos de um dos ranchos dos irmãos da família Zela Oliveira, o agricultor Gabriel Coradin reforça o coro em prol do, resgate do lugar. “Perdi 40% da minha produtividade porque alguns canteiros foram carregados. Mas agora, tenho tirado 300 caixas por semana entre vagem, feijão e abobrinha”, enumera. “Se não mandarem os produtores embora, a terra vai voltar ainda melhor”, acredita.