Um milhão, trezentos e cinquenta e quatro mil e quinhentos e noventa e nove. Esse número representa o total de infrações de trânsito cometido no Paraná entre janeiro e outubro de 2009. O erro – ou atitude cometida propositadamente – mais comum em todo o Estado é transitar com velocidade superior à máxima permitida em até 20%, considerada uma infração de gravidade média. No entanto, entre as dez infrações com maior incidência no Paraná, duas são classificadas como gravíssimas e três como graves. O que deveria ser exceção ocorre diariamente nas estradas e ruas das cidades paranaenses.

Motoristas continuam minimizando as consequências que podem vir com a desobediência da legislação. Ou se esquecem que uma pessoa consegue sobreviver a um atropelamento se atingida até 55 km/h. Ou que aumentar em 20 km/h a velocidade do veículo em relação ao permitido aumenta os riscos de um acidente em até dez vezes. A maioria dos condutores comete infrações conscientemente. “Ninguém passa no sinal vermelho porque não sabia. Infração deveria ser exceção. Tudo isto passa por uma questão cultural. Não existe um respeito à lei. Os motoristas respeitam a fiscalização. Se houvesse uma fiscalização ainda mais rigorosa, teríamos mais infrações”, afirma Gustavo Fiori, coordenador de infrações do Departamento de Trânsito do Paraná (Detran-PR).

Ele lembra que existem infrações que são de difícil constatação, como o uso do cinto de segurança no banco de trás. Se não houver uma abordagem, dificilmente o agente de trânsito vai perceber a desobediência. Atualmente, são poucas as infrações cometidas por desconhecimento. Se existisse um respeito maior das regras, com certeza haveria menos acidentes e, consequentemente, menos mortos e feridos. “A maioria dos veículos não tem infração. São sempre os mesmos que cometem”, revela Fiori.

Se não é por falta de informação, então o que acontece com o motorista brasileiro? Ele sabe como deveria se portar no trânsito, mas insiste em burlar a legislação, a todo momento. “As pessoas têm consciência de como deveriam se comportar. Têm consciência que as atitudes individuais podem causar consequências. Mas muitas dessas pessoas agem diferente do que aprenderam como correto. Mais de 98% dos acidentes poderiam ter sido evitados e foram precedidos de infração. Alguém fez alguma coisa errada. A questão comportamental é fator primordial para que se tenha, ou não, segurança no trânsito”, avalia Maura Moro, coordenadora da unidade de Educação e Mobilização da Urbanização de Curitiba (Urbs), que gerencia o trânsito na cidade.

Problema cultural

O problema do comportamento inadequado no trânsito passa até pela cultura da necessidade do automóvel. Todo mundo quer um carro e, quem não tem ou opta por não dirigir, se sente marginalizado. Juntando com os financiamentos mais acessíveis e uma melhor condição econômica, cada vez mais automóveis vão para as ruas. Paralelamente, os motoristas não têm consciência da necessidade de um comportamento seguro no trânsito. Só que existem outros personagens nesse cenário que não são encarados tão seriamente quanto deveriam: os pedestres. “A maior parte das pessoas que circulam a pé nunca teve acesso à informação. O motorista – bem ou mal – passou por um processo de aprendizagem”, comenta Maura Moro, da Urbs.

A família e a escola exercem um papel fundamental para trabalhar este assunto, especialmente com as crianças, que podem ser multiplicadoras de informação. E, por características próprias, elas passam a cobrar atitudes corretas de quem está ao redor. “Poucas escolas fazem a educação de trânsito. Quando fazem, leva para uma cidade mirim ou leva alguém para dar uma palestra. E só. No Brasil existe um jogo de empurra-empurra quanto à intel,igência de trânsito, que começa quando se vai para a rua. Trânsito não é questionar se multa ou não, se tem radar ou não. Para o trânsito funcionar bem, não basta um bom condutor. O trânsito é o maior palco da cidadania”, conta Celso Mariano, diretor da Tecnodata, empresa multimídia dedicada à educação para a prevenção no trânsito. Além disso, na opinião dele, é preciso envolver as pessoas dentro de seus grupos, como nas comunidades e na igreja. O assunto deve ser tratado no dia a dia.

De acordo com Mariano, o problema não é falta de informação. E apenas ler não basta. “Se fosse assim, era só dar uma cópia do Código de Trânsito Brasileiro para cada um e não haveria mais problemas”, analisa. Essa informação precisa ser tratada e relacionada com outros fatores, como o cálculo de quanto tempo o motorista vai ganhar se sair correndo pelas ruas. Ele vai ver que não vale a pena se arriscar e colocar em risco a vida de outras pessoas por tão pouco.