Enquanto 66.666 pessoas compraram ingressos para assistir ao jogo das quartas de final da Libertadores entre Corinthians e o argentino Ríver Plate há 10 dias, por falta de interessados as editoras estão colocando no mercado nacional apenas dois mil exemplares dos livros de ficção de autores menos conhecidos. Para a professora Eliana Yunes, professora da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro e autora de seis livros, isso ocorre porque a sociedade não tem clareza sobre o papel da cultura.

Ontem ela participou em Curitiba do II Congresso Paranaense sobre Leitura, promovido pela PUC do Paraná. Segundo ela, uma pesquisa da Câmara Brasileira do Livro publicada há dois anos dá conta de que a quantidade de livros impressos é compatível com a população brasileira de 176 milhões de pessoas. No entanto, as grandes tiragens são de obras didáticas, compradas em sua maioria pelos estados para distribuir em escolas. As obras de ficção são poucas e precisam dividir espaço com livros de auto-ajuda entre outros. Ela explica que autores como Paulo Coelho chegam a passar os 50 mil exemplares, mas outros autores não chegam aos dois mil.

Para ela, tanta falta de interesse reflete o valor (ou a falta dele) que a sociedade atribui à cultura e aos livros. Também há carência de políticas públicas de incentivo à leitura. As poucas que são implantadas, geralmente não têm continuidade. “Sem a arte a vida se torna mecânica e robotizada. Ela abre novos horizontes”, reforça.

As escolas também têm papel fundamental nessa história. Ela reconhece que os educadores estão atentos ao problema, mas precisa haver várias mudanças pedagógicas. “Para as crianças aprenderem a ler, elas precisam mergulhar nas histórias, as palavras precisam ter sentido, estar vivas”, comenta. E para incentivar a leitura, o docente precisa ler, vivenciar e explorar bem as histórias.

Ela também critica a falta de apoio da mídia, já que quase não existem programas bons na televisão que incentivem a leitura. “Os que existem são chatos e enfadonhos”, diz.