Foto: Lucimar do Carmo/O Estado

 Apesar das iniciativas estarem aparecendo de forma lenta, o futuro desse segmento promete.

Desde criança aprendemos que não é educado jogar lixo no chão. Porém, atualmente, esse conceito de cidadania não se resume em apenas depositar o resíduo no cesto. Muitos materiais que são dispensados vão além de meros detritos, e podem ser reaproveitados. E esse ?lixo útil? é um filão de mercado que começa a despertar a atenção de muita gente.

A partir da última década, o lixo passou a ter uma outra denominação, ficando forte o conceito de resíduos. Segundo o engenheiro civil e sanitário e professor do curso de Engenharia Ambiental da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Nicolau Obladem, com esse novo conceito começou a se perceber que os resíduos pertencem a diferentes categorias. Ao invés de serem um problema – abarrotando aterros sanitários ou lixões e poluindo o meio ambiente – podem ser a solução, e ainda se tornar um negócio lucrativo.

O Conselho Nacional do Meio Ambiente editou diversas resoluções, aplicáveis a vários segmentos, determinando que os estabelecimentos geradores de resíduos serão os responsáveis pela destinação final desses materiais. Isso, segundo Obladem, faz com que as empresas criem planos de gerenciamento desses resíduos, encontrando soluções mais adequadas para o descarte. Apesar disso ainda estar acontecendo lentamente, algumas iniciativas já começam a despontar.

O Hospital Cajuru, em Curitiba, reduziu de 25 toneladas para 13 toneladas o lixo contaminado produzido mensalmente. Para dar o destino correto para esses resíduos, o hospital paga uma empresa especializada. Porém descobriu que o restante de lixo produzido na unidade – como papel, plástico e lâmpadas – poderia se transformar em uma fonte de renda. Só com a venda do produto químico utilizado para fixar radiografias, o Cajuru consegue um retorno médio de R$ 600. Esses valores extras já reverteram para a compra de computadores e equipamentos de informática.

Indústrias

A gestora de hotelaria do Hospital Cajuru, Maria Eliza Wedderhoff, afirma que isso faz parte de um trabalho de conscientização dos funcionários e usuários do hospital. Apesar dos resultados positivos, ela entende que a unidade tem condições de melhorar esses números. ?Hoje nós produzimos seis toneladas de papelão, papel branco e plástico de vários tipos, mas acredito que podemos chegar a 10 toneladas se realmente a separação foi melhor?, diz. Além de trabalhos informativos, Maria Elisa montou um museu com objetos que são descartados erroneamente – onde estão pinças, agulhas e aparelhos de pressão -, e agora pensa em promover campanhas com premiação para conseguir maior participação.

Negócios

O plástico, que custa uma média de R$ 0,50 a R$ 1 o quilo, depois de processado e virar matéria-prima para produzir novas unidades plásticas, é vendido por R$ 1,50 a R$ 3 o quilo. Por vislumbrar um segmento lucrativo e de utilidade pública, o empresário Rosalvo Prates trocou o segmento de cartões magnéticos pela reciclagem plástica. Há cinco anos, em Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba, ele fundou a Mennopar – Reciclagem de Polímeros, que hoje emprega 22 funcionários e produz 100 toneladas de produtos por mês. O material para a reciclagem, Prates compra dos carrinheiros – que recolhem resíduos do pós-consumo das ruas – e das indústrias.

No interior do Estado, em Marialva, a empresa Ibicunha está usando tubos de pasta de dentes como matéria-prima para fazer telhas. O processo de produção passa pela limpeza, secagem e trituração dos tubos, que são colocados em uma prensa para ganhar a forma da telha. Como resultado se tem um material semelhante o eternit, mais leve, e que deixa o ambiente até 25% mais fresco. O proprietário da empresa, Antônio Leal da Cunha, conta que a fabricação ainda é pequena – uma média de 800 telhas/mês – porque tem dificuldades de encontrar o material.

Especialistas pedem mais incentivo ao setor

Além da conscientização da população sobre a necessidade de dar um destino melhor para seus resíduos, o professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Nicolau Obladem, defende um programa efetivo para apoiar os carrinheiros.

?Não concordo que Curitiba é uma capital social, pois eles não pagam R$ 1 para esse pessoal que tira mais de 400 toneladas de lixo das ruas, e evita que esse material vá para o aterro da Caximba?, diz. Obladem defende a criação de um fundo para apoiar cooperativas de carrinheiros.

O empresário Rosalvo Prates também gostaria de uma atenção maior para o setor de reciclagem, pois garante que é um segmento despoluidor. A grande injustiça, na opinião dele, é a tributação que existe para a matéria-prima original e a reciclada.

Ele defende que um bom incentivo seria reduzir o ICMS da energia e implantar recicladoras no interior do Estado. Segundo Prates, estados como Minas Gerais e Espírito Santo já possuem uma tributação diferenciada para o setor. (RO)

Bolsa ajuda na intermediação de negócios

Um mecanismo para auxiliar quem quer vender ou comprar resíduos é a internet. A Federação das Indústrias do Paraná mantém um serviço eletrônico que intermedia as oportunidades de negócios da reciclagem. O serviço é gratuito e possui hoje três mil cadastrados. Como a federação não interfere nas negociações, não possui um levantamento preciso do volume de comercialização. Mas segundo 10% dos usuários, nos anos de 2004 e 2005, o movimento de compra e venda de resíduos foi superior a R$ 820 mil.

A coordenadora da Bolsa de Reciclagem, Elisabeth Stapenhorst, disse que o serviço surgiu há quatro anos, principalmente para atender a legislação que exige das indústrias uma destinação correta dos resíduos. ?A outra preocupação é ambiental, pois sabíamos que o aterro sanitário de Curitiba está no seu limite, e a matéria-prima de muitos produtos possui fontes não renováveis, com alto custo?, falou. A bolsa é utilizada tanto por indústrias, ONG?s, empresas de reciclagem ou catadores. O endereço é www.bolsafiep.com.br. (RO)