O clima de inconformismo tomou as ruas de Curitiba, na noite desta segunda-feira (17), no 3º Ato em Apoio ao Movimento Nacional contra o Aumento da Passagem. O protesto reuniu milhares de pessoas insatisfeitas, não só com o reajuste da tarifa de ônibus, mas com a corrupção, a violência e o baixo salário dos professores, a PEC-37, a violência da polícia nos protestos de São Paulo e os gastos com a Copa do Mundo. A Polícia Militar estimou que mais de 10 mil pessoas ocuparam as ruas centrais de Curitiba.

Organizada pela Frente de Luta pelo Transporte Público de Curitiba, a marcha lembrou o protesto a favor do impeachment do ex-presidente Fernando Collor, que arrastou uma multidão pelas ruas em 1992, e os protestos contra a privatização da Copel em 2001. Muitos estudantes pintaram as caras e seguravam a bandeira do Brasil. Além de estudantes, participaram grupos como a Organização das Farofadas, ONGs e integrantes de partidos políticos.

Manifestação no Centro

Após se concentrar na Boca Maldita, às 18h, cerca de três mil pessoas desceram a Alameda Dr. Muricy, passaram perto da Praça Rui Barbosa e tomaram a Rua André de Barros. Por volta das 20h30, já eram cerca de 10 mil manifestantes próximos à rodoferroviária, onde funciona a Urbs, gestora do transporte coletivo.

No entanto, a multidão tomou a Rua Mariano Torres e se dirigiu à Praça Santos Andrade. Na sequência, ocuparam a Avenida Cândido de Abreu, com destino à Praça Nossa Senhora da Salete, no Centro Cívico. O protesto, até então pacífico, ficou tenso perto das 22h. Um grupo minoritário chutou a porta do Palácio Iguaçu tentando invadir o local e pichou paredes da sede do Executivo estadual. O vandalismo foi criticado pela maioria dos manifestantes.

Com medo de tumultos e saques, teve comerciante que baixou as portas das lojas, principalmente na Rua XV. Até por volta das 20h30, nenhuma ocorrência havia sido atendida pela Polícia Militar. Policiais à paisana se infiltraram entre os manifestantes e viaturas acompanharam a marcha à distância, assim como da Guarda Municipal.

Advogados da OAB-Paraná acompanharam o protesto para garantir a liberdade de manifestação do pensamento e do direito de reunião, previstos na Constituição. Equipes da Setran (Secretaria de Trânsito) organizavam o fluxo de veículos. O protesto alterou a vida da população, principalmente daqueles que precisavam pegar ônibus na Praça Rui Barbosa.

Reivindicações

Na tarde de segunda-feira (17), uma reunião entre a prefeitura de Curitiba e a liderança dos manifestantes tentou chegar a um meio termo, entretanto, segundo Renato de Almeida Freitas, membro da comissão de comunicação do movimento, o encontro serviu para que a prefeitura tomasse conhecimento das reivindicações do movimento.

Freitas disse que após a passeata realizada na última sexta-feira (14), os representantes da Frente realizaram uma assembleia e definiram os pontos considerados chaves pelo grupo, sendo eles: 1 – A redução da tarifa para R$ 2,60 e o congelamento da mesma, sendo que o grupo garante que sem a redução da tarifa não haverá negociação; 2 – A questão da mobilidade urbana e as desapropriações resultantes da realização da Copa do Mundo em Curitiba e 3 – A repressão policial contra os movimentos sociais e passeatas de protesto.

O representante do movimento justificou a não participação da imprensa na reunião de hoje na prefeitura. “A princípio éramos favoráveis à presença da imprensa na reunião, já que somos um movimento democr&aac,ute;tico e queremos passar transparência. Contudo, depois achamos por bem vetar, pois entendemos que alguns membros da imprensa deturparam o objetivo do movimento”.

Freitas disse que, durante a assembleia realizada no sábado (15), o movimento criou diversas comissões, dentre elas a de Segurança, “que pretende prevenir os abusos, além de identificar possíveis pessoas infiltradas que tentem prejudicar a passeata”, pois nosso movimento é democrático, finalizou Freitas.

Déficit com a integração

Na Câmara de Curitiba, o presidente da Urbs, Roberto Gregório, alegou que os R$ 2,85 da passagem não cobrem o custo da tarifa técnica, de R$ 2,99, e pediu mais “responsabilidade” dos vereadores no debate. Gregório reiterou que o déficit de R$ 143 milhões no sistema de transporte coletivo deve-se à integração com os municípios vizinhos. Segundo ele, a tarifa técnica da capital é de R$ 2,74. Com as outras 12 cidades, o valor passa para R$ 3,95. “Vamos abrir, então, a caixa preta da Comec.”

O vereador Jorge Bernardi (PDT) sugeriu que o diretor de Transportes da Comec, Carlos do Rego Almeida Filho, seja convocado para prestar esclarecimentos.

O presidente da Urbs e a vereadora Professora Josete (PT) criticaram a peça publicitária veiculada no fim de semana pelo governo estadual, que trata da diminuição da tarifa do transporte coletivo em alguns municípios e tem como slogan “Ônibus mais barato. Direito do cidadão”. Para ambos, a redução da passagem não se deve à regulamentação da lei que isenta de ICMS o óleo diesel usado no transporte coletivo de  21 municípios, mas à União, que zerou os tributos PIS e Cofins. Para Gregório, o eventual impacto do zeramento do ICMS na tarifa da capital precisa ser analisado.

Veja na galeria de fotos a manifestação.