Jaqueline do Rocio Rissatto fez em 1999 uma cirurgia para retirada de um cisto de seu ovário. Houve complicações e 14 cirurgias depois ela perdeu uma costela, as paredes do abdome, ovário, intestino grosso e um metro de intestino delgado. Ela não pode trabalhar e passa dificuldades financeiras, chega a gastar R$ 1.200 por mês em remédios. O médico que fez a cirurgia, A.Z.*, foi a julgamento ontem pelo Conselho Regional de Medicina do Paraná.

Somente neste ano, o CRM instaurou 42 processos e 20 profissionais foram considerados culpados. Ano passado, dois médicos perderam o registro profissional.

Drama

Em 1999 Jaqueline ficou sabendo que precisava tirar um cisto do ovário. Procurou o médico A.Z.*, que trabalha no Hospital e Maternidade de Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba. Foi combinado que a cirurgia seria por vídeolaparoscopia, assim, a incisão na paciente seria menor. No entanto, Jaqueline afirma que o médico queria que ela comprasse alguns instrumentos cirúrgicos que seriam usados, no valor de R$ 900,00. Mas num segundo momento, ele teria dito que tinha emprestado de um colega o material.

Durante a cirurgia ela teve o intestino perfurado e o médico passou para a cirurgia convencional. Jaqueline afirma que mesmo com a complicação, recebeu alta no outro dia. Em casa passou mal, conta que chegou a vomitar fezes. Depois disso, retornou ao hospital onde fez mais duas cirurgias. Após o último procedimento entrou em coma e foi encaminhada para o Hospital do Trabalhador em Curitiba. Ficou em coma por 17 dias e mais 34 na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Neste período, foram 11 cirúrgicas e mais duas para enxertar a parede do abdome que foi completamente retirada, porque havia necrosado.

Hoje ela vive com um curativo cobrindo a barriga. “Não tenho proteção, a minha pele é como se fosse papel nesta região, qualquer queda ou batida pode perfurar um órgão ou provocar hemorragia”, fala. Segundo ela, com freqüência passa mal e precisa ser encaminhada até um médico. Para piorar o marido está desempregado. Por enquanto, Jaqueline vive da pensão do INSS e com ela sustenta dois filhos. “Eu tinha uma vida normal, trabalhava e agora estou assim”, comenta.

Jaqueline conta que foi em programas de televisão pedir ajuda que ganharam audiência mostrando o seu drama para todo o País. Prometeram ajudar mas até agora ela continua na mesma situação. Ela precisa fazer uma cirurgia plástica reparadora. Segunda ela, custa R$ 300 mil e o Sistema Único de Saúde não cobre. Ela espera o resultado do julgamento no CRM para entrar com uma ação na justiça. “Eu só quero a reparação do erro”, fala.

Jaqueline também quer processar o médico por danos morais. Em uma das consultas depois das cirurgias, ele prescreveu em uma receita a palavra “paciência”, que deveria ser tomada de hora em hora. O CRM, por questões de ética, não comenta os processo até que o caso seja julgado. O Estado procurou o médico A.Z.* em dois hospitais onde trabalha, mas não foi localizado. Ele também não respondeu à mensagem deixada gravada em seu celular.

* O nome foi retirado para proteger a identidade do médico.