Começa amanhã a segunda fase da vacinação contra a gripe A (H1N1) em todo o Brasil, destinada a gestantes, crianças de seis meses a dois anos e doentes crônicos.

Em entrevista exclusiva ao jornal O Estado do Paraná, o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, afirma que a vacina é segura e tem mais de 95% de eficácia. Temporão ressalta que a estratégia de enfrentamento à nova gripe não é imutável e pode sofrer alterações conforme os novos acontecimentos.

O Estado – A observação da segunda onda da gripe A (H1N1) nos países do hemisfério norte fez com que o Brasil alterasse alguma medida para o inverno de 2010?

José Gomes Temporão – A observação do que ocorreu na segunda onda no hemisfério norte, assim como o que aconteceu aqui no Brasil no ano passado, nos possibilitou traçar com representantes de sociedades médicas e científicas, representantes dos estados e municípios a estratégia de enfrentamento à gripe pandêmica para o nosso próximo inverno.

Definimos o público-alvo para a campanha de vacinação, que será o maior desafio desde o surgimento do Programa Nacional de Imunização. Vamos imunizar até 91 milhões de brasileiros, a metade da população deste País. Nosso investimento é de R$ 1,3 bilhão somente nas vacinas.

É importante frisar que estamos lidando com uma doença nova, cujo comportamento ainda está sendo melhor conhecido. Por isso, o Brasil assumiu a postura de prudência, alerta e responsabilidade. Vamos proteger a população que mais precisa, os grupos mais vulneráveis às complicações e mortes decorrentes da gripe pandêmica.

OE – No Paraná, no ano passado, a taxa de mortalidade foi de 2,3 vítimas a cada 100 mil habitantes, número superior à média nacional. Houve algum erro na estratégia na preparação do serviço de saúde?

JGT – Devido aos fatores relacionados ao clima, durante o inverno, os estados da região Sul todos os anos são os mais afetados pela gripe sazonal. Com a gripe pandêmica não foi diferente.

O Ministério da Saúde está, desde o surgimento do vírus Influenza pandêmico H1N1, em abril do ano passado, atento às necessidades específicas de cada estado.

Em 2009, por exemplo, foram credenciados 160 leitos de UTI para a região Sul e aporte de recursos extras de R$ 6 milhões para os estados mais afetados na primeira onda. E o Paraná foi um deles.

Como fazemos em todas as campanhas de vacinação, usamos o mesmo critério para a definição dos grupos que serão vacinados, mantendo a imunização em todo o País.

Para o enfrentamento da segunda onda, o Ministério da Saúde adquiriu 113 milhões de doses da vacina. Parte dessas doses é reservada para estoque estratégico, em caso de alterações epidemiológicas e necessidade de ampliação do público-alvo.

OE –
O protocolo de flexibilização do medicamento Tamiflu (oseltamivir) em 2009 deveria ter sido alterado mais cedo? Isso interferiria no número de pacientes com doenças respiratórias graves que tivemos?

JGT – O que houve durante a evolução da pandemia, o que é natural para uma doença nova, é que os protocolos foram sendo adequados de acordo com o avanço da doença e do conhecimento sobre ela.

Mas isto não significou em nenhum momento que o Ministério tenha adotado a recomendação de tratamento com oseltamivir para todos os casos de síndrome gripal.

Por um motivo simples: não havia, como não há até o momento, nenhuma evidência científica que indique que o tratamento dos casos leves de gripe tenha algum efeito na redução dos casos graves ou mortes.

Isso foi bastante questionado em publicações internacionais. Pa&i,acute;ses que adotaram essa estratégia, como a Inglaterra, foram duramente criticados. Da mesma forma, não se observou nenhum melhor resultado na ocorrência de casos graves ou óbitos em estados que ampliaram o uso do oseltamivir para esses casos mais simples.

O que ocorreu foi, em dado momento, um esclarecimento ainda mais explícito e reiterado sobre o protocolo, para que evitássemos diferentes entendimentos sobre a aplicação do medicamento.

Cabe e sempre coube ao médico que avalia o paciente receitar ou não, caso julgue adequado, o uso do oseltamivir. A prescrição médica de qualquer medicamento sempre inclui a avaliação de seus efeitos colaterais.

O oseltamivir não deixou de ser fornecido gratuitamente pelo Ministério da Saúde, em momento algum, aos pacientes com fatores de risco ou complicações decorrentes da gripe pandêmica e que tivessem prescrição médica. Para o enfrentamento da segunda onda temos em estoque 21,9 milhões de tratamentos.

O que o Ministério da Saúde orienta, seguindo recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do próprio fabricante, é que não haja utilização indiscriminada.

Ou seja, o medicamento não é indicado para todo e qualquer caso suspeito de gripe. É indicado apenas para pacientes em estado grave ou cuja condição possa representar um risco de agravamento, como um portador de doença crônica, por exemplo.

É por isso que a obtenção do oseltamivir será somente com retenção da receita médica, tanto nas farmácias quanto em outros locais de retirada do medicamento.

O objetivo é evitar a automedicação, a venda indiscriminada e uma corrida sem motivo às farmácias. A distribuição será gratuita nos postos de saúde, hospitais e outras instituições definidas pelas secretarias estaduais de saúde. O antiviral também estará disponível em unidades do programa Aqui tem Farmácia Popular.

Os grupos prioritários de vacinação foram definidos com base nos casos graves e mortes. No entanto, no ano passado, crianças em idade escolar tiveram as aulas suspensas para controlar a circulação do vírus. Por que esse grupo também não entrou na vacinação?

JGT – Primeiro, é importante dizer que a maioria absoluta das pessoas que adoece, seja pela gripe comum, seja pela gripe pandêmica, desenvolve formas leves da doença e se recupera mesmo sem o uso de medicamento.

OE –

Em ambas as gripes, pessoas com doenças crônicas, gestantes e crianças menores de dois anos são mais vulneráveis. Em segundo lugar, a orientação do Ministério da Saúde sempre foi que crianças e adolescentes que apresentassem sintomas de gripe ficassem em casa, sem ir à escola, até melhorar.

Houve casos no País de suspensão de aulas sem que as autoridades de saúde e sanitárias sequer fossem consultadas. O Ministério jamais preconizou esse tipo de conduta.

Os grupos mais suscetíveis a desenvolver as formas graves da doença estão sendo imunizados, o que já restringe, por si só, a circulação do vírus. Por outro lado, é essencial garantirmos o funcionamento pleno da rede de serviços que organizamos.

A estratégia de enfrentamento à gripe pandêmica apresentada pelo Ministério não é imutável. No decorrer da campanha de vacinação e durante todo o inverno no Brasil, eventuais alterações epidemiológicas vêm sendo analisadas.

OE – Qual a importância que o Ministério credita à vacinação para combate aos casos graves de gripe?

JGT – A vacina é uma arma essencial na nossa estratégia de enfrentamento à segunda onda. Ela registra uma efetividade média maior que 95%. No Brasil, temos a nosso favor o fato de nos anteciparmos ao período de inverno para a imunização da população, algo com que os países europeus não contaram.

Lá, a segunda onda já havia começado e eles ainda não dispunham da vacina. Nossa ,estratégia não se restringe à vacinação e compreende a ampliação da rede de laboratórios para o diagnóstico do vírus (de 7 para 18), aquisição de 11,7 milhões de tratamentos com antivirais e de quatro toneladas de matéria-prima.

Nosso investimento inclui R$ 270 milhões em equipamentos para fortalecer a rede de leitos de UTI e mais R$ 255 milhões para o reforço no atendimento. Na mídia, nossas campanhas de orientação demonstram como simples ações podem ajudar na prevenção da doença, como lavar com frequência e demoradamente as mãos sempre que tossir ou espirrar; utilizar lenço descartável para a higiene nasal; evitar tocar mucosas de olhos, nariz e boca.

OE – Muitas pessoas que não fazem parte dos grupos prioritários já estão em fila de espera para adquirir as doses, já que clínicas privadas têm anunciado que farão essa venda. É necessário que façam essa compra?

JGT – As clínicas particulares podem adquirir vacinas, caso haja disponibilidade dos laboratórios produtores em fornecê-las. O importante a frisar é que a vacinação de toda a população não é o caminho para o enfrentamento da segunda onda, por um motivo simples: não é mais possível a contenção em todo o mundo.