Andar nos arredores da empresa Essencis é certeza de mal-estar. O fedor de podre e gases da decomposição são quase constantes, porém ficam mais forte à noite. É o que dizem as famílias que invadiram parte o terreno ao lado, há quatro meses, onde a empresa pretende ampliar suas atividades.

Arivaldo Querino, 55 anos, o “Zumba”, coordenador da invasão, diz que todos têm medo da poluição. “Mas a necessidade de moradia é maior. Se a empresa está invadindo ilegalmente, então por que não invadir com moradias? Não é mais bonito?”, afirmou “Zumba”.

Amarelo

Outro morador, que preferiu não se identificar, mostrou uma manilha que vem de dentro do terreno da Essencis. Ele disse que, sempre depois das 19h, a empresa despeja um caldo com um fedor de podre ali. Na superfície, o caldo é amarelado. “Durante o dia é isso que você está vendo, a água normal do riacho, barrenta. À noite, parece uma cachoeira, de tanto que vem. Quando dá umas 7h ou 8h da manhã o despejo já passou”, denunciou o jovem.

A Secretaria Municipal do Meio Ambiente (SMMA) disse que ainda não tinha recebido esta denúncia porém, diante do alerta feito pela Tribuna, passará a ficar alerta.

Documentos questionados

Jadir Silva de Lima, presidente da Aliança de Desenvolvimento da Comunidade da Caximba (Adecom), apontou várias irregularidades nos procedimentos de licenciamento ambiental que a Essencis pleiteou junto ao Instituto Ambiental do Paraná (IAP) e Secretaria Municipal do Meio Ambiente (SMMA). Ele explicou que, a primeira delas, é que a Essencis quer ampliar suas atividades num terreno alugado.

A dona do terreno onde a Essencis está ampliando suas atividades decretou falência. Portanto, judicialmente, está impedida de fazer qualquer coisa em cima do terreno, até que o processo de falência se encerre na Justiça. No entanto, o contrato de aluguel que a Essencis fez com esta empresa foi depois da decretação de falência, ou seja, é inválido.

Investigação

Para conseguir as licenças ambientais no IAP ou na SMMA, um dos documentos obrigatórios é a matrícula do imóvel, onde está anotada a proibição judicial. Esta e outras irregularidades estão sendo investigadas pela Promotoria de Patrimônio Público do Ministério Público do Paraná (MPPR).

Cidades

A Associação dos Municípios Brasileiros diz que a lei é muito severa e pede mais tempo para se adequar. No dia 1.º de julho, o Senado aprovou projeto que prorroga até julho de 2018 o prazo para que os lixões sejam extintos no País. Agora, a proposta aguarda votação na Câmara dos Deputados. O projeto não prevê recursos para os investimentos necessários. Isso significa que o problema que impediu mais de 3 mil prefeituras de atender aos prazos da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) pode persistir.

Chuva ácida e abortos

Jadir mostra que a decomposição de lixo nos aterros que não são devidamente cobertos por terra e lonas gera gases muito tóxicos, como por exemplo o metano e o gás sulfídrico. Quando chove, este último se transforma em ácido sulfídrico, altamente tóxico.

Jadir batalhou para o fechamento do antigo lixão da Caximba. Na época, eles percebiam que muitas mulheres tinham problemas com abortos, mas ninguém sabia exatamente por quê. Das 47 famílias que viviam nas proximidades do aterro, em 27 delas mulheres abortaram. Três destes bebês chegaram a nascer vivos, mas não resistiram.

Medo

Depois, descobriram que o problema era com o ácido sulfídrico inalado pelos moradores, o provável causador de tantos abortos. Por conta do forte ,odor que sai do aterro da Essencis, na CIC, ele teme que o mesmo aconteça com as mulheres que moram nas proximidades.

Problema atinge todo o País

O problema da destinação do lixo em local adequado não é apenas de Curitiba e região metropolitana, como mostrou o Bom Dia Brasil da Rede Globo, na última sexta. Pelo menos aqui a montanha de lixo é acondicionada sob lonas e terra. A realidade nacional é alarmante. O lixão de Brasília, o maior da América do Sul, é apenas um exemplo de lixo a céu aberto.

Mais de 60% dos municípios brasileiros ainda depositam o lixo nessas condições e em locais inadequados, contrariando a lei de 2010, que dava prazo até 2014 para definir uma compostagem correta. O prazo terminou há um ano e o problema persiste.

São 29 milhões de toneladas por ano, o suficiente para encher 200 estádios do tamanho do Maracanã. Nos últimos quatro anos, o aumento do lixo foi de 30%. Pior que isso: 20 milhões de brasileiros ainda não dispõem de programas de coleta de lixo – orgânico ou reciclável. A política nacional de destinação de lixo praticamente estagnou nos últimos anos: passou de 56% para 58,4% com destinação adequada.

Segundo a Associação Brasileira de Empresas de Lixo Público, falta vontade política dos prefeitos em adotar uma política especial para o problema. Mas ela também reconhece que faltam recursos para financiar os programas, principalmente agora, com a crise que assola todos os setores. (Redação)