Famílias dizem que suas casas estão sendo
mudadas para locais onde só há lama.

Moradores do Bolsão Audi, às margens da BR-277, em Curitiba, prometem bloquear a rodovia na próxima sexta-feira. “Vamos parar o tráfego e depois seguimos para a Prefeitura”, afirma Valdecir Dias, o Barulho, presidente da Associação de Moradores da Vila Yasmin, quem junto com as vilas Audi, União, Icaraí, União Ferroviária forma o conjunto de invasões chamado de Bolsão Audi.

A explicação para a revolta dos moradores está nas realocações que a prefeitura vem fazendo desde que as obras do canal de drenagem do Rio Iguaçu alcançaram as moradias. “Minha mãe tinha um casebre aqui .A prefeitura falou para ela sair mas não deu nenhum auxílio na hora de construir a nova casa” diz a moradora Gisele Ferreira Albuquerque.

As famílias cujas casas estavam no caminho do Canal foram colocadas em outra parte da Vila, cercada pelo Rio Iguaçu. “Isso aqui é um lamaçal”, queixa-se Gisele.

A mudança fez os moradores perderem quase tudo. Pedro, popularmente conhecido no local como ‘Cutelinho’, disse que não houve madeira suficiente para construir a nova casa. Com o espaço reduzido, Cutelinho deixou as duas filhas e o filho morando dentro do barraco de madeira. Ele, por sua vez, dorme em uma cama ao lado da casa. “Não tem lugar lá dentro”, justifica.

Segundo Barulho, a prefeitura está “tirando as pessoas por tirar”. “Eles pedem para o povo sair. Só que colocam em uma área pior, irregular do mesmo jeito. Aí um dia qualquer um chama a PM e tira todo mundo”.

Pelas contas do presidente da Associação de Moradores, pelo menos mais 134 famílias devem ter o mesmo destino. “É o que a prefeitura quer. Só que a gente não vai deixar”.

Ontem, Barulho esperava o administrador da regional Cajuru da Prefeitura, José Eduardo Conter, para uma reunião, mas ele acabou não comparecendo. “Eles acham que a gente tá de brincadeira”, afirmou Barulho.

A reportagem de O Estado tentou conversar com Conter mas não obteve sucesso. As obras do Canal fazem parte da parceria entre a Secretaria Estadual de Meio Ambiente e a Prefeitura de Curitiba. Segundo a prefeitura, as obras estariam ainda em sua fase inicial. Ao final do projeto, que deverá ser concluído apenas no fim do ano que vem, pelo menos duas mil famílias terão de sair do local.

Comunidade exige passarela

Na próxima sexta-feira, representantes da comunidade da Vila São Judas Tadeu, de São José dos Pinhais, reúnem-se com a direção da Ecovia, concessionária que administra a BR-277. Os moradores reivindicam a construção de uma passarela na altura do quilômetro 76 da rodovia, onde existe uma antiga ponte. Na última quinta-feira, um carro chocou-se contra um carroceiro, matando duas pessoas e deixando pelo menos cinco feridas. O acidente fez com que os moradores bloqueassem a ponte na sexta-feira, provocando um congestionamento de cerca de 2 km na BR-277.

Ontem, a reportagem de O Estado esteve no local para conversar com o presidente da Associação dos Moradores da Vila, Wilson Aparecido, e, ao chegar no local quase presenciou um acidente. Um rapaz que atravessa a rodovia se desequilibrou e por pouco não foi atropelado por um caminhão. O rapaz tropeçou e teve de ser auxiliado por Wilson. “Tá certo que ele está alcoolizado, mas é um perigo andar aqui. Não tem acostamento. As crianças quando vão para a aula têm de fazer o mesmo caminho. Vai que elas se distraem”, disse Wilson. Na falta de acostamento, carroceiros e catadores de papel também disputam o espaço reduzido com os carros e caminhões que cruzam o local em alta velocidade.

“Este ano já teve uns quinze acidentes aqui. Não dá para continuar assim. Mais de mil pessoas moram aqui. Vão e vêm todos os dias”, queixa-se o presidente.

Obras

Segundo o diretor-presidente da Ecovia, Marco Aurélio Miranda, a construção de uma passarela não está nos planos imediatos da concessionária. “Para o nosso 17.º ano de concessão temos o projeto de alargar a pista e criar uma área de escape. Mas isso está planejado para daqui a 13 anos”, explica. Miranda não descarta, no entanto, a construção de uma estrutura que não esteja incluída no contrato. “Podemos ser o porta-voz dos anseios da comunidade junto ao Departamento de Estradas e Rodagem (DER) e negociar essa obra”.

Para o gerente do DER, Joel Amaral, responsável pela fiscalização da Ecovia, uma obra desse tipo acarretaria despesa extra para a concessionária, que aumentaria a tarifa do pedágio ou deixaria de prestar certos serviços para compensar o investimento”. (Guilherme Voitch)