Quem nunca presenciou uma briga de trânsito ou, até mesmo, protagonizou uma cena de fúria devido a uma “fechada” ou lentidão no congestionamento. Essas situações, que parecem comuns, às vezes podem ter um desfecho trágico, como o que aconteceu com o ciclista Valdenir Pereira da Silva, 23 anos, que morreu com dois tiros. O fato aconteceu em 2002, na Cidade Industrial de Curitiba. Valdenir colidiu a bicicleta na Parati que era conduzida por Luís Antônio de Araújo, 37 anos. Depois de uma discussão, ele foi morto.

Cada motorista tem a sua versão para explicar esses conflitos no trânsito – geralmente, a culpa é do outro. Para Celso Percicotti, que dirige há 32 anos, é preciso ter muita paciência para dirigir, “pois a toda hora você vê alguém furando no vermelho, dobrando sem dar sinal ou se enfiando na sua frente”. Para ele, a falta de respeito à sinalização é o que mais irrita quando está ao volante. Já o taxista Alceu Pedroso dos Santos admite que a categoria também comete imprudência no trânsito. “Tem taxista que faz barbeiragem”, afirma, acrescentando, porém, que é a minoria.

O motorista João Maria Ribeiro há quatro anos trocou o caminhão pelo ônibus, e hoje trabalha em uma empresa de transporte rodoviário interestadual. Ele também acha o trânsito complicado, tanto na cidade como nas estradas. “Ninguém dá vez para a gente passar”, comenta. Na opinião dele, a forma afobada de muitos motoristas conduzirem é o que provoca a maioria dos acidentes.

Quem precisa dividir as vias com os motoristas de automóveis também reclama. Os ciclistas Simone Saliba e João Alexandre Zaporoli resumem o trânsito em uma palavra: “caos”. Para eles, os condutores de carros não respeitam nem os ciclistas nem os pedestres. “Por isso, muitos optam em andar na canaleta de ônibus, pois acaba sendo muito mais seguro”, diz João.

Os colegas Júlio Dalledone, Gisele Kalabae e Alexandre Oberg também confirmam essa situação, acrescentando que as ciclovias não têm ligação com todos os bairros e, dependendo do horário, fica até perigoso trafegar por elas. “A gente precisa tirar adesivos das marcas das bicicletas para evitar assaltos”, comenta Júlio. Para poderem curtir o esporte mais tranqüilos, os ciclistas optam por pedalar nas rodovias. “É mais perigoso pela falta de acostamento, mas os motoristas respeitam mais”, fala Simone.

Carro se torna extensão da residência

Para a psicóloga do Centro de Psicologia Especializado em Medos, Neusa Corassa, as pessoas têm no carro a continuidade da casa e não conseguem distinguir a diferença de sair de um espaço individual para um coletivo. Autora do livro Vença o Medo de Dirigir – como superar-se e conduzir o volante da própria vida, Neusa também fez uma pesquisa sobre o uso do carro e seus conflitos, onde conseguiu identificar quatro tipos básicos de motoristas.

O primeiro é o “dono do mundo”, que caracteriza-se pelo briguento e agitado, que repete o perfil que é na vida como um todo. O outro, “de comportamento mascarado”, é aquele aparentemente tranqüilo em família, mas tem explosões momentâneas no trânsito. Os “cautelosos” são os que respeitam as regras e trabalham para um trânsito melhor. O último tipo é o “fóbico ou ansioso”, que tem excesso de cautela, mas pelo medo de errar, dificilmente dirige.

Nesse último tipo, comenta a psicóloga, a grande maioria é mulher, na faixa de 30 a 45 anos. “A explicação se dá através de uma volta na história, quando a mulher era criada para ser guiada, mas hoje tem o carro na garagem e tem medo de usá-lo. Mas isso vem mudando com as novas gerações”, pondera. Mas a grande explicação para esses conflitos está no fato que as pessoas saem de casa, entram no carro e continuam achando que estão em casa. Por isso, ela exemplifica que os cômodos da casa são levados para o carro. “No carro nós levamos papéis como para o escritório, fazemos lanche como na cozinha, namoramos como no quarto, retocamos a maquiagem como no banheiro, e ouvimos música como na sala”, exemplifica.

Congresso

Para o presidente do Conselho Federal de Psicologia, Ricardo Figueiredo Moretzsohn, não é possível fazer uma radiografia do perfil do condutor brasileiro. Porém ele destaca que o motorista é a extensão da sua vida de forma geral. “As pessoas são no trânsito como são na vida”, diz. Segundo ele, o carro é uma propriedade particular, um patrimônio, e as pessoas dirigem não pensando na mobilidade, mas na defesa desse bem. Além disso, têm no carro uma forma de poder. “Quanto mais caro, mais poder”, comenta.

E o trânsito vem chamando tanto a atenção da psicologia, que ele será tema do 6.º Congresso Brasileiro de Psicologia do Trânsito, que acontece esta semana em Campo Grande. Durante três dias serão discutidos a mobilidade do ponto de vista humano, “pois todas as políticas públicas implantadas no Brasil colocam em primeiro lugar os automóveis, depois a engenharia, e não consideram a dimensão humana”, disse Moretzsohn. Para ele é preciso rever tudo que envolve o trânsito, já que é responsável por 35 mil mortes por ano no País.

30% de mulheres no volante

Do total de habilitações no Paraná – cerca de três milhões -, 809 mil (30,9%) são de mulheres. Isso explicaria então o sexo feminino aparecer menos nas estatísticas de acidentes de trânsito? Talvez, mas a maioria – tanto homens como mulheres – concorda que a mulher no volante é muito mais cautelosa.

Dados do Batalhão de Trânsito da Polícia Militar indicam que nos primeiros quatro meses deste ano, as motoristas responderam por apenas 17% do total de acidentes em Curitiba. Em relação aos conflitos no trânsito, as mulheres também são a minoria. A psicóloga Neusa Corassa afirma que os homens se envolvem mais nas brigas porque xingam alto e vão tirar satisfação. “Já a mulher xinga, mas de vidro fechado”, comentou.

E por esse comportamento ponderado é que a mulher acaba levando algumas vantagens. Uma delas é em relação ao seguro dos automóveis. O diretor do Sindicato das Seguradoras do Paraná, Ramiro Fernandes Dias, explica que o valor do seguro é calculado de acordo com o perfil do motorista. Nesses casos, a mulher acaba pagando entre 25% a 30% menos o valor do seguro. Já um jovem entre 18 a 22 anos tem o valor majorado em até 40%. O diretor afirmou que o perfil é baseado em estatísticas. “Elas mostram que as mulheres também se envolvem em acidentes, mas quando isso acontece, as conseqüências são muito menores”, finalizou. (RO)

Crescem os motociclistas

Circulam no Estado do Paraná mais de três milhões de automóveis. Apesar do crescimento da frota apresentar um aumento médio de 7% nos últimos quatro anos, o trânsito está passando por uma modificação. As habilitações de categoria A, para motocicletas e motonetas, vêm crescendo rapidamente. Em 2003, esse segmento apresentou crescimento de 33%.

Para o diretor geral do Departamento de Trânsito do Paraná (Detran), Marcelo Almeida, o perfil do trânsito está mudando e hoje o transporte em duas rodas está aumentando em função do custo do transporte coletivo e também pelo modismo. Mas segundo ele, os motoristas de automóveis não perceberam isso e continuam com o “comportamento de fúria e territorialidade dentro dos carros”. Para exemplificar, Almeida cita uma situação na rua, onde as pessoas se esbarram, se desculpam e vão embora. “Quando estão no carro, se são fechadas, partem logo para uma ação agressiva”, compara.

A mudança dessa realidade não será em curto prazo, considera o diretor do Detran. “Precisaria implantar uma série de medidas para as pessoas se conscientizarem, como pedágio urbano, um dia sem carro, carona solidária, melhorar o transporte público, e mudar os holofotes para o pedestre, o ciclista, o idoso, e por último no carro”, aponta.

A psicóloga Neusa Corassa aposta que campanhas podem ajudar a melhorar o trânsito, porém, elas precisam ser contínuas. Ela destaca ainda que os motoristas também precisam perceber seu papel nesse contexto. “Se cada um fizer a sua parte, ter mais consciência, tudo vai fluir melhor.” Neusa fez questão de destacar que o trânsito também traz muitas alegrias. “É por ele que chegam os noivos, a pessoa que vai receber um prêmio e o feirante que transporta os alimentos”. (RO)