Foto: Cíciro Back/O Estado

A estrutura vai controlar a entrada de todas as pessoas no país.

A nova aduana da Ponte da Amizade, em Foz do Iguaçu, entra em fase de teste amanhã. Durante uma semana, a Receita Federal direcionará para a nova estrutura parte do fluxo de veículos e pedestres para serem fiscalizados. O trabalho na ponte acontecerá de forma integrada com as polícias Federal e Rodoviária Federal.  

O delegado da Receita Federal, José Carlos de Araújo, informou que a partir de agora todas as pessoas que entrarem no país com compras feitas no Paraguai serão fiscalizadas. Atualmente, esse trabalho é feito por amostragem, e controla aproximadamente 5% de tudo que entra e sai do país.

Quem traz mercadorias do Paraguai é obrigado a declarar a bagagem junto aos fiscais da Receita Federal. A cota de compras por pessoa é de US$ 300. As pessoas são cadastradas e só podem voltar a fazer compras 30 dias depois.

O delegado disse que, nos últimos meses, a Receita Federal trabalhou na criação de uma base de dados onde já constam 200 mil registros. ?Nessa lista, admitiu, uma pessoa pode ter vários registros. Conseguimos até agora detectar a presença de cerca de 9 mil supostos laranjas – pessoas que transportam mercadorias e até mesmo drogas para terceiros.? Ele acredita que esse número chegue a 12 mil nos próximos dias.

?É um equívoco pensar que essas pessoas não têm profissão. Elas se utilizam da Ponte da Amizade para complementar renda. Não estamos, portanto, criando problema social, o que estamos fazendo é retirar a dona de casa, o porteiro do hotel, o motorista de táxi, do mundo do crime.? Segundo o delegado, muitas dessas pessoas largaram seus empregos em outros estados e foram morar em Foz do Iguaçu, onde o salário mensal de um laranja fica em torno de R$ 1,2 mil.

Em 2003, a Receita Federal apreendeu na fronteira do Brasil com o Paraguai US$ 16,5 milhões em mercadorias; em 2004 foram US$ 34 milhões; em 2005 foram US$ 62,3 milhões.

Este ano, com uma fiscalização mais rigorosa, em nove meses a Receita Federal apreendeu em Foz do Iguaçu R$ 131 milhões em mercadorias contrabandeadas e piratas, volume 31% maior que o registrado no mesmo período de 2005. Só em setembro esse volume atingiu R$ 15,9 milhões.

Araújo disse que com a nova aduana se pretende pôr fim a uma cortina de fumaça, já que artigos como brinquedos e de bazar, que dão muito volume, entram no país ocultando outros tipo de mercadorias e produtos como drogas, armas e munições.

Expectativa

O motoqueiro Carlos Filipiak, 35 anos, disse que a expectativa de todos os que trabalham na ponte é grande para saber como ficará a situação deles com apenas uma viagem a cada 30 dias. ?Hoje faço em media cerca de 15 viagens que rendem de R$ 70 a R$ 80 por dia.O meu salário é de aproximadamente R$ 1,5 mil.?

Maria Soares de Oliveira, 44 anos, conta que durante 10 anos trabalhou como guia de turismo. Desempregada, virou sacoleira e complementa a renda com bordados. Ela disse que na sua idade é difícil ser contratada por empresas e se acha jovem para não trabalhar mais. ?Não considero ilegal o que faço, pois com esse trabalho pago minhas contas e meus impostos.?

Ela disse que está muito apreensiva com as mudanças na fronteira. ?Meu patrão vinha de Belo Horizonte a cada 15 dias. Agora demora até quatro meses para aparecer.? Patrão, segundo Maria, são as pessoas que ficam hospedadas em hotéis da região e pagam de R$ 8 a R$ 10 para cada travessia com bagagem do Paraguai para o Brasil.